quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Limite infinito.

A controvérsia é óbvia: infinito não tem limite. Mas quando fecho os olhos – deitada em qualquer lugar da casa que não seja seu peito – e penso em nossas imagens e na tamanha doçura de nós dois, acho que ultrapasso linhas que ainda não foram sequer pintadas com tinta amarela nas ruas trepidantes e esburacadas do meu cérebro. Meu limite de amor e compreensão se expande e eu me sinto capaz de tocar seus ombros mesmo à distância e te puxar estreitamente para o mais perto possível. Um perto que quase nos deixa fundidos, colados sem precisar de cola. E fico não só disposta, mas também inteiramente propensa a te amar sem limite razoável, só porque posso desalinhar seu cabelo e porque as vezes você me abraça como se eu fosse seu único mundo. Ou apenas sua única pessoa no mundo. Tanto faz. Estico meu coração e minha força de vontade até onde quer que você esteja para que me sinta aí, nem que seja só um pouquinho. Me sinto como um puxa-puxa mal feito ou um chiclete que prende mais que teia de aranha, mas tudo bem, porque estou prendendo apenas a mim mesma na teia sem saída da viúva negra que é a vida. Você está cada vez mais livre e, segundo dizem, mais perto da felicidade sem mim. Eu te sinto como uma nuvem enorme que esconde o azul inteiro do céu, plácida e perfeita, mas sem peso algum. Você talvez me sinta como uma simples chuva de verão. Ou, julgando suas últimas palavras, como um sol traiçoeiro que queima e engana através dos mormaços.
No exterior de nós eu consigo enxergar todos os erros cometidos, meus e seus, todas as falhas acentuadas e apedrejadoras. Vejo a que ponto chegamos e para onde íamos com nosso planos incontáveis, mas não vamos mais. Tínhamos toda uma vida prometida de mãos dadas e corpos quentinhos – o seu fervendo e o meu gelado - dia sim e outro também. Agora não temos mais nada e sobrou só um quarto bagunçado e uma conta conjunta sem sentido. Não há mais ninguém para me chamar de pequena quando a carência chega. Estou sozinha com o frio do vento do ar-condicionado soprando direto em meus ouvidos. Quase posso ouvir o sussurro dizendo que fiz tudo da maneira mais incorreta e torta, ainda que fosse a melhor ao meu alcance. Nesse caso as paredes também falam. E, já meio louca, fico deitada encolhida do sofá como uma mocinha de comédia romântica, chorando de pouco em pouco, amando de muito em muito. Agora nossa doçura virou pó, nosso amor se tornou solúvel como café e meus passos estão gelatinosos e exaustos. Tento lembrar quantas vezes corri e saltei em seu colo para te abraçar mais de perto, mas antes de chegar ao final da conta lembro que essa cena não se repetirá nem hoje, nem no mês que vem. Não posso mais correr e saltar porque não há nada no outro lado. Eu já confiava o bastante em você para saltar sem medo de cair. E hoje só restou o tombo, um joelho ralado e o coração dilacerado. Não posso mais saltar nem correr e talvez por isso esteja estática como uma boneca de cera em tamanho real no mesmo ponto em que você me deixou. Tomara que ela fique bem, disseram. Não estou bem. Não conheço a sensação.
Mais um mês de namoro em breve, mas quem é que quer contabilizar? Agora nem mesmo um mísero dia extra para falar do quanto eu te amei ou para te abraçar e chorar porque você sempre vai embora e me deixa apenas com uma malinha de recordações doloridas e lindas e hematomas púrpuras chorosos. Eu rio porque o mundo todo olha e pensa que eu sou abençoada ou qualquer outra coisa nesse sentido, mas ninguém sabe a bagunça interna do meu peito e a confusão na qual vivo. Ninguém, exceto você e meu psiquiatra. Mas dizem que você não aguentaria muito tempo alguém como eu, tão cheia de pedaços quebrados. Dizem tanto que eu acabo acreditando que sou mesmo errada demais para alguém como você. Mas depois eu penso que é tanto amor para duas pessoas que pode dar certo de alguma forma, porque nós combinamos. E então volta o “íamos” para quebrar o raciocínio positivo. Íamos viajar juntos. Explorar o mundo juntos. Morar em uma quitinete juntos. Faríamos dezenas de coisas e eu aprenderia a jogar a bola do boliche em outro lugar que não a canaleta. Você estava lá na minha conquista, berrando alto seu orgulho como ninguém jamais fez, e hoje estou sozinha, sem orgulho ou amor-próprio algum. Dessa vez, quando chegar o dia, talvez eu olhe no espelho e diga para mim – e para nós – um leve e triste “feliz faríamos tudo se não tivesse sido o fim". Mas foi minha escolha e eu aceito suas consequências. 
Em meio aos pesadelos de olhos abertos eu me descubro ainda totalmente aberta a você, esperando por algo que possa nos salvar. Uma palavra, um passo, uma passagem, um encontro, um abraço. Tenho um limite enorme de amor para te dar. Na verdade não há limite algum. Limitados são meus conhecimentos e confianças. Você não acaba para mim, nem quando nós já acabamos. Você é o amor que eu quero sem fim. Você simboliza as corridinhas e saltos que ainda quero dar entre o corredor e a sala. Acho que é por isso que usam a palavra infinito. Algumas coisas não têm fim, mesmo quando já terminaram. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Decepção.

A palavra decepção surgiu na Grécia antiga quando uma mulher deveras apaixonada sofreu com as peripécias do homem amado. Ele não se importava, ditava seu falso amor ao vento e erguia outras saias brancas e esvoaçantes por aí, achando graça em qualquer detalhe dourado que prendesse cabelos compridos. A tristeza da mulher era tamanha que escolher uma palavra já existente no vocabulário para expressar sua dor se mostrou uma tarefa impossível. Assim, ela criou a decepção (do grego: decepar o coração), que logo tomou grandes proporções, já que muitas pessoas se identificaram com o novo nome dado a um velho e conhecido sentimento. Ela era perspicaz, ao menos.
Mentira. Não faço a menor ideia de como nasceu a palavra decepção, mas sei que foi muito bem parida; há aflições que só ela explica. Até poderia fazer uma busca pela origem no Google, acho, mas não sou exatamente do tipo que procura respostas para o que já está em mim desde que nasci. Não preciso de um dicionário nesse caso, obrigada. Investigando bem a fundo, a decepção é algo intuitivo que sempre esteve guardado em algum canto genético de nossos cérebros. Como uma pessoa que carrega um vírus desativado. E, de repente, um alguém externo vem cutucar feridas não tão limpas e higienizadas assim e, pronto, a decepção se instala. É para aprendermos como a antissepsia é realmente importante e pode prevenir. A decepção não se cria nem se desenvolve. Apenas surge. Assim, do nada mesmo. E aumenta, e como aumenta, alimentando-se de lascas de desafeto, amargura, desdenho... Qualquer coisa que venha de quem você menos espera. Quando sua dor é provocada por alguém a quem você daria sua vida ou algo mais ou menos assim – um braço já está valendo -, pode-se dizer que você está vivendo uma decepção. E, convenhamos, não há nada mais pesado do que estar decepcionado. É pior que tristeza porque tristeza dá e passa. Pode demorar e deixar cicatrizes, mas passa. Decepção fica. E nunca cicatriza nem clareia hematomas. Decepção é o lenço que a gente sempre carrega na bolsa ou no bolso, só que com muitos quilos a mais. Aquele tão grudado lá no fundo que dá preguiça de tirar. Outra coincidência: assim como os lenços, decepções também costumam carregar lágrimas com frequência. Não são cortes limpos e lisos como os de um cirurgião bem treinado, estão mais para cortes serrilhados e lentos de contrabando ilegal de órgãos. O que combina porque sempre parece que a decepção está mesmo levando um grande pedaço de você. Menos o fígado, porque ela sabe que você vai precisar muito dele depois de conhecê-la.
É diferente para cada pessoa. Eu, por exemplo, vejo decepção em cada passo que dou pelas avenidas de uma cidade. Ou ruelas menores, tanto faz. O ponto crucial vem dos passos, não do lugar. Um passado de fracassos, um presente de dúvidas e erros, um futuro sem futuro. A maneira mais fácil que já encontrei – sem querer, é claro – de viver uma decepção, foi olhando para meu próprio reflexo no espelho lá do quarto. Grande, comprido, feio, pavoroso. Entupido de arrependimentos, descrenças e medos. Rugas internas de uma mente velha que vive em um corpo jovem, gordo e flácido demais. É uma decepção em cada risquinho colorido da retina, como se eles fossem uma contagem histórica e depressiva de todas as adversidades inaceitáveis de uma vida. Eu já me decepcionei com eles, com elas, com você, com o andar da carruagem de meus dias sem graça. Já me decepcionei com tantas coisas que decorei a feição que a gente faz quando passa por isso. Mas nunca me decepcionei tanto quanto comigo mesma. Nunca tive nojo ou raiva dos erros alheios, apenas dos meus. E jamais desprezei uma imagem que não fosse a minha. Porque não ter sabido tomar conta de mim por tanto tempo e decepar meu próprio coração não tem perdão.
Vivo a decepção todos os dias, como a mulher da Grécia antiga deve ter vivido e como suas antepassadas também. Hoje não preciso sofrer um golpe a cada dia para me sentir assim. Hoje já aprendi a me resguardar e não deixar que me tomem por uma bobinha. Mas vivo a decepção de quem não sabe para onde ir ou sequer onde ficar. De quem não idealiza uma vida, de quem não difere certo e errado, de quem enxerga tudo como um grande tombo em direção ao abismo. De quem tenta, tenta e tenta uma terceira vez, sabendo que o resultado será sempre o mesmo. De quem enxerga os olhos vermelhos a cada dia, mas pinga um colírio e sorri para esconder a tristeza, porque é assim que o mundo quer. Não há nada pior do que decepcionar-se consigo mesmo. Porque você pode até dar um braço ou sua vida por alguém e esse alguém te matar de dor por algum tempo. Mas você se salva e sempre dá um jeito de se reerguer, nem que seja como em uma pintura falsa de meio sorriso. Mas quando você dá uma porrada em sua vida ou esmaga seu próprio braço, não há ninguém capaz de te puxar da escuridão. E então você apenas fecha os olhos e deseja com força a cadeira elétrica, porque é apenas isso que merece, enfim. E lembra que mora no Brasil. Não temos cadeira elétrica por aqui. E então você chora, porque a decepção não sabe ser contida como outros tantos sentimentos. Ela escorre mesmo e se acha o máximo, muito melhor do que você e sua fraqueza infinita.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fronhas.

Hoje eu troquei a fronha dos nossos travesseiros e desabei lembrando das tantas noites em que precisei fazer isso para que pudéssemos dormir juntos. Mas dessa vez a intenção não era a saúde dos seus olhos machucados e sim a saúde do meu sono tão bruscamente interrompido. Uma roupa de cama limpa, passada, lisa, cheirando a qualquer coisa que não fosse o desespero de estar sem você nas próximas noites. Dessa vez arranquei tudo e joguei direto na máquina de lavar como se pudesse lavar com sabão também minha vida. Troquei as fronhas por causa da sujeira escura e molhada dos borrões de lágrimas cheias de maquiagem. Da saudade traduzida em manchas pretas pela manhã. E quase desmaiei. O desmaio talvez seja o segundo passo de desabar; o primeiro é o desmoronamento interior, pedras rolando ladeira abaixo. E nem precisa ser um desmaio com tombo, olhos virados e tudo mais. As vezes é apenas sua alma caindo de joelhos e implorando por paramédicos com urgência.
Hoje eu deito ouvindo músicas que me fazem lembrar de você e de todos os nossos momentos – bonitos, trágicos ou teatrais -, noites claras de tranquilidade em seu peito seguro. Desacostumei dos travesseiros. Eles são frios demais, tristes demais e por vezes até ásperos demais. Só sei dormir em seu peito e a culpa é toda sua por ter a pele macia e branca e quente o bastante para me aconchegar como em um sonho de inverno embaixo de uma pilha de cobertores. Eu troquei as fronhas e elas já estão sujas de novo, porque é impossível deitar e não pensar que você deveria estar aqui, que este é mesmo o seu lugar e que sozinha a cama tem um buraco onde eu preciso cuidar a noite inteira para não cair. Porque, se cair, adeus superfície para sempre. E eu continuo aquela pessoa firme por fora, com um sorriso estabanado e meus fones de ouvido, porque é isso que o mundo inteiro espera de alguém que já aprendeu bons bocados de realidade. Por dentro a história é outra; estou arrebatada pela lamúria de dormir sozinha, pela carência do seu santo abraço de todos os dias, pelo esforço de ter que levantar todas as manhãs. Só você sabe o quão ridiculamente sozinha eu sou e nunca precisou ler Dostoiévski para me encantar e acabar com a parte mais visível dessa solidão. Só o pedaço mais superficial dela.
Quando estendi as fronhas no varal descobri que não posso verdadeiramente lavar minha vida. É hipocrisia pensar que alguém trazendo felicidade bate na porta da frente e a tristeza vai embora pela de trás. Mais do que isso, é ilusão. Os lençóis e tudo mais cabem na máquina, mas a vida não. Ela gira, sim, e sempre, mas não lá dentro; não dá nem para centrifugar uma parte dos sentimentos, secá-los para escorrer o que não pertence mais a esse lugar e depois guardá-los com cuidado em estantes organizadas. Minhas estantes sentimentais são caóticas e bagunçadas, sempre com perguntas incompreensíveis e respostas incompletas. Então, já que não posso lavar e expulsar, você vai continuar aqui, compacto e apertado dentro de mim, com sua liberdade lá fora. E eu comendo quadradinhos de chocolate para tentar suprir sua falta imensurável ou minha própria falta. E depois correndo loucamente para gastar as calorias e não pensar em você por uma hora ou duas de descarga de adrenalina. Sem beber as coisas parecem ainda piores e eu não tenho bebido nada porque sozinha não tem mais graça.  Nada tem graça. Nem acordar pela manhã sem você me ligando insistentemente, nem escolher uma roupa descolada, nem mesmo arriscar sorrisos durante a tarde. As coisas ficaram comuns e intoleráveis. Eu não me tolero mais, não suporto minha voz, meus olhos, minha pele. E tento arrancar tudo com as unhas e corto lugares de mim que nem existem só para tentar substituir a dor. Sinto falta de tudo em você. Suas piadas idiotas, suas compras absurdas, seu beijo de oi e seu sussurro de tchau quando eu já estava dormindo leve. Mas, acima de tudo, sinto falta do quão certo você era para mim. Porque agora, longe, tudo parece mais do que equivocado. Sei que te amo, mas e aí? Amor leva até certo ponto, o resto a gente precisa correr atrás e eu sinto que não tenho mais pernas nem pulmões para isso. Ainda lembro da primeira vez em que você me viu chorar. A primeira de outras centenas porque você se tornou o único capaz de exprimir de mim essa espontaneidade. Em todas as esquinas vejo você. Até o cara da novela que eu não assisto tem a sua cara. Mas eu sei conviver com isso. Não posso lavar essas coisas, mas posso manejá-las como sempre fiz. O problema é que, mais do que sentir falta de você, sinto falta de mim e do porto seguro que eu tinha em minha casca sempre grossa demais para que alguém pudesse entrar. Perdi a graça para mim e para a figura que me encara no espelho. Essas fronhas, as minhas próprias, estarão sempre sujas, dedurando noites terríveis e vida exausta. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pandora.

Estou escrevendo na cama onde tantas vezes eu e você estivemos juntos, brincando, rindo, chorando, dormindo, fazendo barulho. Pandora dorme em sua cesta aqui ao lado, bem perto do travesseiro, segurando entre suas patas minha mão esquerda. Escrevo só com a direita. Nada mais justo, já que sinto mesmo que falta metade de mim e que é justamente essa metade tudo o que não sei mais traduzir em palavras. Uma esquerda perdida, uma direita confusa e machucada, precisando do resto que desapareceu. De repente eu só queria trocar de vida com Pandora. Ser essa bolinha de pelos que não precisa gastar horrores com depilação, que se encolhe toda fofa em uma cestinha mesmo tendo uma cama inteira para seu próprio júbilo, que dorme sem preocupações por horas inteiras, que come sem medo de engordar. Que não tem depressão, não conhece a dor dos arrependimentos. Há quanto tempo não durmo por duas horas seguidas um sono ininterrupto já nem sei. O que as pessoas fazem com Rivotril não é exatamente dormir, é entrar em transe. E, curiosamente, sempre há algo para me acordar do tal transe. Um barulho qualquer que traga uma memória ruim. A cama de casal vazia e o buraco ali ao lado. O celular berrando fora de hora. E, principalmente, os pesadelos pesados e atordoantes. Eu acordo sempre assustada, sejam palhaços, sapos ou a morte em meus sonhos, e Pandora continua capotada ali ao lado, dormindo o sono de anjo que realmente merece dormir. Ela não tem nada a ver com a mitológica "caixa de Pandora". Tudo o que vem dela é suave e cheio de amor.
Descobri há pouco, depois de muito analisar a situação, de onde vem essa leveza invejável; a questão é que Pandora não te ama. Gosta de você, claro, até sobe em seu colo, arranha suas calças e solta miados pedantes de carinho. Mas não te ama do fundo do coração. Não sente sua falta quando você não está, nem precisa de você para se sentir segura. Ela tem outras pessoas para afagá-la e tem sua cesta – tremenda barragem contra monstros – enquanto eu tenho um edredom que não afasta nada do que é ruim, um pijama velho e confortável e zero sono. Pandora ronca, ainda segurando minha mão esquerda, toda contorcida, tapando os olhos porque a luz ainda está acesa. E eu, louca que sou, olho para seus olhos amarelos e seu focinho geladinho a uma distância de no máximo dois centímetros e sussurro: “ei, meu amor, quer trocar de vida comigo, só por uns dias? Sabe como é, sua mamãe tá precisando de umas férias dessa coisa absurda que nós humanos chamamos de vida, amor e decepção. Quem sabe você, com a rapidez que te permite agarrar uma lagartixa, consiga correr para longe desse desastre maior que ouvir uma música linda e não entender a letra. Ou entender a letra e não ouvir a melodia. Talvez com sua esperteza você elabore um plano que nos salve dessa enrascada. Só eu e você. E então vamos fugir para o mundinho da sua cesta segura e passar lá o resto dos nossos anos. Não, deixa para lá. Não vamos trocar de vida porque eu jamais deixaria que o ser mais sincero e carinhoso do mundo passasse por tudo isso que é sofrer em todos os sentidos livres da palavra. Eu te amo, minha princesa".
O problema é que eu não gosto de ser eu. Pandora gosta de ser Pandora, tenho certeza. Se eu tivesse apenas um pedido para fazer seria: quero ser Pandora 2. Bem igual. Ela é pura. Seus olhinhos doces têm amenizado um pouco da tristeza dos últimos tempos, ainda que as vezes pareça que ela está pegando a dor para si quando me vê chorar, lambe minhas lágrimas e deita perto do meu rosto. E eu tenho vontade de gritar e pedir que ela não beba minhas lágrimas amargas de solidão e desespero, porque deve haver veneno aí depois de tantos anos. Mas não tenho forças e não consigo falar, então tudo que faço é abraçá-la. Por alguns instantes desejo que o abraço dure para sempre. Um para sempre de verdade, desses que nem existem. Porque para humanos “para sempre” pode ser apenas até amanhã. Mas para Pandora “para sempre” é para sempre. Ela é superior. Ama apenas a quem deve amar, respeita apenas a quem deve respeitar. Não finge amor, não mascara sentimentos, não foge da raia. Não se aflige quando algo está errado. Pandora é tudo o que eu queria ser e tem tudo o que eu queria ter. Começando pela mente totalmente limpa de memórias dolorosas. Ela foi tirada da rua com menos de um mês e talvez até tenha resquícios de lembranças desse tempo difícil, mas nunca foi traída, nem abandonada, nem reprimida em qualquer de seus sentimentos. Pandora tem a liberdade de amar e odiar a quem quiser, concordar ou discordar do que quiser, tudo sem consequência alguma. E, caso esteja incomodada, tudo o que faz é se retirar do aposento e ir tranquilamente dormir em outro cantinho confortável. Ela gosta de cantinhos seguros. Eu também. Ela os têm. Eu não.
Pandora é o sonho de consumo de qualquer pessoa solitária como eu. Ela está sempre ali, esticando o corpo e fazendo um dengo, pronta para dormir a noite inteira e miando baixinho como um convite ou mesmo um ombro amigo. Até bateu um falso sono só de ver sua serenidade. Já chega por hoje, ela diz com seus trejeitos. E tem razão. Esse foi o texto mais demorado que já fiz, apesar de não ser dos mais longos. Porque escrever com uma mão só é exatamente como te amar com oitocentos quilômetros de distância: metades, pedaços. Um desvio doce e malévolo de tempo incerto. 


Pandora, há alguns anos.
 
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