sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fronhas.

Hoje eu troquei a fronha dos nossos travesseiros e desabei lembrando das tantas noites em que precisei fazer isso para que pudéssemos dormir juntos. Mas dessa vez a intenção não era a saúde dos seus olhos machucados e sim a saúde do meu sono tão bruscamente interrompido. Uma roupa de cama limpa, passada, lisa, cheirando a qualquer coisa que não fosse o desespero de estar sem você nas próximas noites. Dessa vez arranquei tudo e joguei direto na máquina de lavar como se pudesse lavar com sabão também minha vida. Troquei as fronhas por causa da sujeira escura e molhada dos borrões de lágrimas cheias de maquiagem. Da saudade traduzida em manchas pretas pela manhã. E quase desmaiei. O desmaio talvez seja o segundo passo de desabar; o primeiro é o desmoronamento interior, pedras rolando ladeira abaixo. E nem precisa ser um desmaio com tombo, olhos virados e tudo mais. As vezes é apenas sua alma caindo de joelhos e implorando por paramédicos com urgência.
Hoje eu deito ouvindo músicas que me fazem lembrar de você e de todos os nossos momentos – bonitos, trágicos ou teatrais -, noites claras de tranquilidade em seu peito seguro. Desacostumei dos travesseiros. Eles são frios demais, tristes demais e por vezes até ásperos demais. Só sei dormir em seu peito e a culpa é toda sua por ter a pele macia e branca e quente o bastante para me aconchegar como em um sonho de inverno embaixo de uma pilha de cobertores. Eu troquei as fronhas e elas já estão sujas de novo, porque é impossível deitar e não pensar que você deveria estar aqui, que este é mesmo o seu lugar e que sozinha a cama tem um buraco onde eu preciso cuidar a noite inteira para não cair. Porque, se cair, adeus superfície para sempre. E eu continuo aquela pessoa firme por fora, com um sorriso estabanado e meus fones de ouvido, porque é isso que o mundo inteiro espera de alguém que já aprendeu bons bocados de realidade. Por dentro a história é outra; estou arrebatada pela lamúria de dormir sozinha, pela carência do seu santo abraço de todos os dias, pelo esforço de ter que levantar todas as manhãs. Só você sabe o quão ridiculamente sozinha eu sou e nunca precisou ler Dostoiévski para me encantar e acabar com a parte mais visível dessa solidão. Só o pedaço mais superficial dela.
Quando estendi as fronhas no varal descobri que não posso verdadeiramente lavar minha vida. É hipocrisia pensar que alguém trazendo felicidade bate na porta da frente e a tristeza vai embora pela de trás. Mais do que isso, é ilusão. Os lençóis e tudo mais cabem na máquina, mas a vida não. Ela gira, sim, e sempre, mas não lá dentro; não dá nem para centrifugar uma parte dos sentimentos, secá-los para escorrer o que não pertence mais a esse lugar e depois guardá-los com cuidado em estantes organizadas. Minhas estantes sentimentais são caóticas e bagunçadas, sempre com perguntas incompreensíveis e respostas incompletas. Então, já que não posso lavar e expulsar, você vai continuar aqui, compacto e apertado dentro de mim, com sua liberdade lá fora. E eu comendo quadradinhos de chocolate para tentar suprir sua falta imensurável ou minha própria falta. E depois correndo loucamente para gastar as calorias e não pensar em você por uma hora ou duas de descarga de adrenalina. Sem beber as coisas parecem ainda piores e eu não tenho bebido nada porque sozinha não tem mais graça.  Nada tem graça. Nem acordar pela manhã sem você me ligando insistentemente, nem escolher uma roupa descolada, nem mesmo arriscar sorrisos durante a tarde. As coisas ficaram comuns e intoleráveis. Eu não me tolero mais, não suporto minha voz, meus olhos, minha pele. E tento arrancar tudo com as unhas e corto lugares de mim que nem existem só para tentar substituir a dor. Sinto falta de tudo em você. Suas piadas idiotas, suas compras absurdas, seu beijo de oi e seu sussurro de tchau quando eu já estava dormindo leve. Mas, acima de tudo, sinto falta do quão certo você era para mim. Porque agora, longe, tudo parece mais do que equivocado. Sei que te amo, mas e aí? Amor leva até certo ponto, o resto a gente precisa correr atrás e eu sinto que não tenho mais pernas nem pulmões para isso. Ainda lembro da primeira vez em que você me viu chorar. A primeira de outras centenas porque você se tornou o único capaz de exprimir de mim essa espontaneidade. Em todas as esquinas vejo você. Até o cara da novela que eu não assisto tem a sua cara. Mas eu sei conviver com isso. Não posso lavar essas coisas, mas posso manejá-las como sempre fiz. O problema é que, mais do que sentir falta de você, sinto falta de mim e do porto seguro que eu tinha em minha casca sempre grossa demais para que alguém pudesse entrar. Perdi a graça para mim e para a figura que me encara no espelho. Essas fronhas, as minhas próprias, estarão sempre sujas, dedurando noites terríveis e vida exausta. 

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Chorei.
GK

Vini disse...

Texto ímpar amor. A saudade é grande =\
Beijos eu amo voce

 
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