quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pandora.

Estou escrevendo na cama onde tantas vezes eu e você estivemos juntos, brincando, rindo, chorando, dormindo, fazendo barulho. Pandora dorme em sua cesta aqui ao lado, bem perto do travesseiro, segurando entre suas patas minha mão esquerda. Escrevo só com a direita. Nada mais justo, já que sinto mesmo que falta metade de mim e que é justamente essa metade tudo o que não sei mais traduzir em palavras. Uma esquerda perdida, uma direita confusa e machucada, precisando do resto que desapareceu. De repente eu só queria trocar de vida com Pandora. Ser essa bolinha de pelos que não precisa gastar horrores com depilação, que se encolhe toda fofa em uma cestinha mesmo tendo uma cama inteira para seu próprio júbilo, que dorme sem preocupações por horas inteiras, que come sem medo de engordar. Que não tem depressão, não conhece a dor dos arrependimentos. Há quanto tempo não durmo por duas horas seguidas um sono ininterrupto já nem sei. O que as pessoas fazem com Rivotril não é exatamente dormir, é entrar em transe. E, curiosamente, sempre há algo para me acordar do tal transe. Um barulho qualquer que traga uma memória ruim. A cama de casal vazia e o buraco ali ao lado. O celular berrando fora de hora. E, principalmente, os pesadelos pesados e atordoantes. Eu acordo sempre assustada, sejam palhaços, sapos ou a morte em meus sonhos, e Pandora continua capotada ali ao lado, dormindo o sono de anjo que realmente merece dormir. Ela não tem nada a ver com a mitológica "caixa de Pandora". Tudo o que vem dela é suave e cheio de amor.
Descobri há pouco, depois de muito analisar a situação, de onde vem essa leveza invejável; a questão é que Pandora não te ama. Gosta de você, claro, até sobe em seu colo, arranha suas calças e solta miados pedantes de carinho. Mas não te ama do fundo do coração. Não sente sua falta quando você não está, nem precisa de você para se sentir segura. Ela tem outras pessoas para afagá-la e tem sua cesta – tremenda barragem contra monstros – enquanto eu tenho um edredom que não afasta nada do que é ruim, um pijama velho e confortável e zero sono. Pandora ronca, ainda segurando minha mão esquerda, toda contorcida, tapando os olhos porque a luz ainda está acesa. E eu, louca que sou, olho para seus olhos amarelos e seu focinho geladinho a uma distância de no máximo dois centímetros e sussurro: “ei, meu amor, quer trocar de vida comigo, só por uns dias? Sabe como é, sua mamãe tá precisando de umas férias dessa coisa absurda que nós humanos chamamos de vida, amor e decepção. Quem sabe você, com a rapidez que te permite agarrar uma lagartixa, consiga correr para longe desse desastre maior que ouvir uma música linda e não entender a letra. Ou entender a letra e não ouvir a melodia. Talvez com sua esperteza você elabore um plano que nos salve dessa enrascada. Só eu e você. E então vamos fugir para o mundinho da sua cesta segura e passar lá o resto dos nossos anos. Não, deixa para lá. Não vamos trocar de vida porque eu jamais deixaria que o ser mais sincero e carinhoso do mundo passasse por tudo isso que é sofrer em todos os sentidos livres da palavra. Eu te amo, minha princesa".
O problema é que eu não gosto de ser eu. Pandora gosta de ser Pandora, tenho certeza. Se eu tivesse apenas um pedido para fazer seria: quero ser Pandora 2. Bem igual. Ela é pura. Seus olhinhos doces têm amenizado um pouco da tristeza dos últimos tempos, ainda que as vezes pareça que ela está pegando a dor para si quando me vê chorar, lambe minhas lágrimas e deita perto do meu rosto. E eu tenho vontade de gritar e pedir que ela não beba minhas lágrimas amargas de solidão e desespero, porque deve haver veneno aí depois de tantos anos. Mas não tenho forças e não consigo falar, então tudo que faço é abraçá-la. Por alguns instantes desejo que o abraço dure para sempre. Um para sempre de verdade, desses que nem existem. Porque para humanos “para sempre” pode ser apenas até amanhã. Mas para Pandora “para sempre” é para sempre. Ela é superior. Ama apenas a quem deve amar, respeita apenas a quem deve respeitar. Não finge amor, não mascara sentimentos, não foge da raia. Não se aflige quando algo está errado. Pandora é tudo o que eu queria ser e tem tudo o que eu queria ter. Começando pela mente totalmente limpa de memórias dolorosas. Ela foi tirada da rua com menos de um mês e talvez até tenha resquícios de lembranças desse tempo difícil, mas nunca foi traída, nem abandonada, nem reprimida em qualquer de seus sentimentos. Pandora tem a liberdade de amar e odiar a quem quiser, concordar ou discordar do que quiser, tudo sem consequência alguma. E, caso esteja incomodada, tudo o que faz é se retirar do aposento e ir tranquilamente dormir em outro cantinho confortável. Ela gosta de cantinhos seguros. Eu também. Ela os têm. Eu não.
Pandora é o sonho de consumo de qualquer pessoa solitária como eu. Ela está sempre ali, esticando o corpo e fazendo um dengo, pronta para dormir a noite inteira e miando baixinho como um convite ou mesmo um ombro amigo. Até bateu um falso sono só de ver sua serenidade. Já chega por hoje, ela diz com seus trejeitos. E tem razão. Esse foi o texto mais demorado que já fiz, apesar de não ser dos mais longos. Porque escrever com uma mão só é exatamente como te amar com oitocentos quilômetros de distância: metades, pedaços. Um desvio doce e malévolo de tempo incerto. 


Pandora, há alguns anos.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Creia-me, doce amiga... Ninguém desgosta de si mesmo. Tal impressão, por sinal incrivelmente freqüente, nada mais do que um sinal de na verdade não o temos sido. E é óbvio que não há como se gostar desse então outro eu intruso.
GK

Anônimo disse...

Nossa! Que trágica!!!! Lembrei do Fernando Pessoa: "o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chcega a fingir que é dor. A dor que deveras sente....."
Beijo

Vini disse...

Pandora @.@ A felina mais suave que existe aushaushauhs
=**

 
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