quinta-feira, 15 de março de 2012

Oito.

Um grampo desprendeu do cabelo e caiu, arrancando consigo dois fios da raiz. Doeu só uma fisgadinha, uma centelha de pinicada, nada demais. Mas me fez chorar mesmo assim, como quase tudo nesses últimos meses têm feito, porque qualquer dor me lembra você. Aprendi em pouco tempo – tão pouco que chega a ser injusto - com quantos tropeços se faz um final. Oito. Oito tropeços contínuos e as coisas desabam. Não tente isso em casa. Eu resvalei e quase caí com cara, bunda e coração no chão por oito vezes, somadas em seu íntimo e expelidas todas de uma vez só. Foram doloridas para você, eu sei, mas também machucaram em mim. Muito. Você chorou porque eu não sou o que você pensava que eu era, por decepção. Eu chorei porque não estava dissimulando um coração quebrado e uma doença. Tudo sempre existiu de verdade, mas acabei ralando os joelhos e tudo mais mesmo assim. Oito, você enumera mil vezes e é como se mil fios de cabelo estivessem sendo arrancados com um grampo gigante que cai. Não, é pior. Porque não são fisgadinhas e pinicadas, é uma dor muito mais potente, dilacerante, que machuca dia após dia quando a lembrança vem. E ela sempre vem. No assento frio do carro quando uma rua escura inteira está pela frente e toca uma música triste no rádio. Na cama gigante quando só o edredom embolado em minha barriga não serve para tapar os buracos de medo e dor. No chuveiro, onde dá para chorar e ninguém fica sabendo porque as águas se misturam. Caminhando. Piscando. Fazendo qualquer coisa. Quase acreditando e aí desmoronando de novo. E em todos os outros minutos do dia. E nos pesadelos da noite também. Oito vezes, você diz e diz e diz, repete e repete e repete. E eu penso que certos mesmo estavam Tom Jobim e Vinícius de Moraes ao escreverem que “tristeza não tem fim, felicidade sim”.
O massacre dos oito precisa terminar ou então você leva contigo a última parte de mim que ainda era feliz. É irônico que o único cara em quem depositei toda a minha confiança de honestidade, de abrir o jogo mesmo, seja aquele que vai embora, mais cedo ou mais tarde, cuspindo o número oito em minha cara patética, apaixonada e agora roxa. É irônico que esse cara, que me conquistou com amor de rosas e gestos bonitos, hoje seja irônico comigo. Mais irônico ainda que o único cara que se dispôs a cuidar de mim tenha cansado desse propósito a ponto de esmagá-lo. Mas essa parte eu entendo; eu mesma já cansei de cuidar de mim há muito tempo. Comecei a tentar enxergar no escuro e, aos poucos, descobri tudo o que há lá. Não é bonito. Fechem os olhos na escuridão, eu digo. Fui eclipsada por uma estrela escura, talvez, mas sempre tentei brilhar para você o máximo que pude. Sou uma enegrecida tentando ser clara como você quer. Mas as coisas não são bem assim. Eu ainda tenho uma doença, um coração quebrado, talvez agora até um pouco mais, joelhos ralados e pedaços necrosados. 
Pode ser que eu tenha nos estragado, que a culpa tenha sido toda minha e que suas faltas não deveriam ter machucado o coração de aço que eu deveria ter. Ou, quem sabe, eu tenha apenas imaginado seus erros. E imaginado meus choros tristes durante a madrugada. Primeiro estraguei você. Meus defeitos foram mais fortes e minhas poucas qualidades não foram suficientes para salvar o que matei. Seu amor, seu abraço só meu, sua crença de que somos um só. Dilacerei tudo em você e por isso jamais me perdoarei. Mas ter perdido sua paciência, compreensão e gentileza é coisa que não me cabe, porque é justamente em mim que a falta de tudo isso esbofeteia. Seu cansaço está entrando no lugar do amor, enquanto meu cansaço de tantos anos vai dando espaço para o amor. Estamos andando na contramão. Você precisa de alguém que não sinta tanta necessidade de chorar, alguém que esteja sempre disposta a te amar sem vírgulas e, principalmente, te ame mais depressa, mais urgentemente. Alguém que não te cause tantos transtornos e discussões, alguém que seja segura o bastante para não se incomodar com alguns dos seus erros que, infelizmente, para alguém como eu, são brutais. É o que você quer e é o que merece ter. E eu vou continuar sozinha porque tudo que toco termina estragado. Você, nós. A vida. Talvez porque eu mesma seja estragada demais.
Como uma cirurgia plástica ao contrário, cada corte meu foi mostrando cicatrizes e borrões que se perpetuam em mim. Você foi cutucando e não conseguiu aguentar a feiura de tudo, claro. Do meu jeito inconstante de precisar tanto de você, de querer desesperadamente seu amor e seu colo, de tropeçar a cada pouco tempo porque só agora, já bem adulta, estava aprendendo como era realmente ser amada e não sabia, como ainda não sei, lidar com isso. Nunca aconteceu antes. Não é possível saber o que jamais se fez presente. Eu estava aprendendo devagar e sempre voltando alguns passos por precaução. Devagar, mas indo. Retrocedendo por dor conhecida, como criança que mete a mão no forno quente e nunca mais repete. Estava caminhando com passos de bebê e tropeçando como um. Sem querer, várias vezes, machucando a mim mesma e abrindo o berreiro triste e sentido até chegar à etapa dos soluços. O único paliativo que funcionava em mim era você e agora voltei ao caos de quando você não existia, porque você lembra demais das vezes em que chorou e de menos das que eu chorei. Eu deixaria você arrancar todos os grampos e fios de cabelo possíveis se isso fizesse o número oito desaparecer do mundo ou, pelo menos, do pedaço do mundo em que vivemos. Porque esqueci muitas coisas, deixei para lá muitas coisas e, hoje, estou absorvendo muitas coisas sem exprimir sequer um por cento do quanto dói. Mas um oito é inesquecível para você. São muitos tropeços para uma pessoa só. E hoje eu entendi, relendo aquela mensagem em que você escreveu “tudo de bom para ti” como uma despedida por celular, que nunca seremos outro número senão oito. Posso te dar quinze alegrias em um dia, mas, no final, é daquele oito que você vai lembrar. Podemos sorrir vinte vezes, mas no fundo dos seus olhos vai estar esculpido um oito cheio de líquen, ficando velho, mas ainda ali. Entendi que vou me doer para sempre e ficar pensando em jeitos de escapar do que não tem escapatória. De te amar do jeito que você quer, quando ainda não cheguei sequer no patamar de aprender a me amar. Eu não me sei. Sei que te amo, mas a barreira é muito grande. "Tudo de bom para ti" é coisa de quem nunca mais quer ver. Se para você foram muitos tropeços, para mim hoje é dor que esquarteja aos poucos, doendo e doendo e doendo o dia inteiro. Estou procurando maneiras de nos salvar, mas hoje, relendo aquela mensagem e pensando em nossas conversas - antigamente tão despreocupadas e fáceis, agora tensas porque não sei mais exatamente o que devo ou não compartilhar -, descobri que você nunca vai conseguir deixar o oito tombar e virar o símbolo do infinito. 

sexta-feira, 9 de março de 2012

Aborto espontâneo.

Engraçado como são as coisas. A camiseta do meu pijama anuncia, em letras roxas enormes, “the secret to have fun”. Irônica, como se estivesse querendo tirar uma com a minha cara. Sarcástica, sabendo que meu rebento acabou de morrer. Cínica, como se quisesse dizer que é um absurdo que alguém como eu vista uma blusa feliz. Alguém que destrói tudo por onde passa, mesmo sem querer. E é. Sempre completamente sem querer. A vida desmorona como um montinho de areia sendo soprado para longe pelo vento e sou só mais um grão no meio desse caos. Você está longe, talvez também soprado por ventos mais bruscos, tempestades de palavras burras e furacões de atitudes estúpidas. Eu me esforço para calar, para não agir, para sufocar tudo aqui dentro de mim. Para você enxergar apenas a parte bonita e feliz e não aquela que está apodrecendo e inchando. Me esforço como se a gravidade que prende a Terra no lugar dependesse disso. Me esforço sem motivos, acreditando honestamente que tenho milhares deles. Me esforço porque não durmo e sobra bastante tempo à noite para espremer os olhos e a merda toda. Me esforço para tentar ser a pessoa correta não só para você, mas para toda a sociedade ao redor do seu mundo. Estou lutando para crescer e saber de novo coisas que já não sei mais, como respirar com paciência ou prender lágrimas onde elas devem ficar. Talvez esse tenha sido o problema. Lutei contra tudo por tanto tempo que já não sei mais lutar a meu favor.
Gosto de cantinhos fechados e coração protegido e as pessoas sentem medo porque não sou um exemplo de felicidade. Se eu pudesse contar uma coisa, só uma, diria que a infelicidade não é ácido que queima a pele alheia ou sequer doença transmissível. Não a minha. A minha é calada e sozinha, não parasita outras solidões ou mágoas vizinhas. Dizem que só ficar perto de alguém triste já traz energias negativas, mas eu não tenho energias. Positivas ou negativas. Nada. Esgotei os estoques que ainda restavam tentando engolir as dores e asfixiar as tristezas. Estou exausta e suada, exaurida por carregar toneladas sozinha, sem poder abrir a boca para pedir ajuda. A preocupação de alguns vêm quando me enxergam sentada em um canto da cama, com os braços envolvendo joelhos dobrados e catatonia nos olhos. A de outros quando estou em um bar, supostamente rodeada por pessoas divertidas, e me perco em pensamentos que não divido nem por decreto. Mas a pior preocupação é a que julga sem saber. Essa afeta, machuca, mata o que era vivo e quente e feliz. As pessoas não entendem. Não aceitam. E repelem, discriminam e chutam para lá sem pensar duas vezes. Saia daqui, você só causa mal. Sua maior culpa é não ser feliz. Você não merece estar perto de nós. Somos todos superiores. De preferência mude de cidade para não infectar as ruas com sua estirpe triste e patética.
E depois de tanto correr, de tantos golpes, de tantas coisas frias, ainda sou eu aquela que deve se esforçar mais um pouco para provar às pessoas que minha índole é gentil e complacente. Sou eu que devo dizer uma coisa ao espelho, sentindo outra totalmente diferente. Sou eu que devo abrir um sorriso e pedir desculpas por ter levado um chute na bunda, uma rasteira e um puxão de tapete. Desculpem por isso, seja lá o que isso for. A verdade é que, depois de tanto tempo chorando por dentro e matando grossas partes de mim para manter o ar de felicidade que tranquiliza o mundo, desmoronei. Hoje a realidade caiu sobre meus ombros com uma pancada forte e a tristeza vem do que não somos mais e do que nos tornamos. Vem do fato de que eu deveria, mais uma vez, ter ouvido minha própria razão lá no começo. Lá, bem longe. Porque hoje eu carrego dor por mim e por nós e está ficando pesado demais. Sofrido demais. Mas eu criei algum tipo de destruição – sem querer e sem saber – e talvez esteja pagando o preço. Deve ser isso. Mas todos podem ficar tranquilos, afinal. Não existe mais menção alguma sobre mim. Estão livres, pobres atormentados.
Eu faria tudo para nos salvar, mas hoje não quero mais abraços e nem afagos, muito menos acreditar que tudo pode ser como antes. Quero só esquecer das coisas pavorosas que me cercam e parar de sentir ao menos essa dor, entre tantas outras, porque sei que não posso triunfar. Parabéns, vocês venceram. O passado se enfia continuamente em meu presente todos os dias, cutucando com ponta de bisturi. As lembranças boas e as terríveis também, muito mais duras e implacáveis. Perdi meu feto e o doei para uma faculdade de medicina onde, quem sabe, um universitário prodígio descubra o que levou a uma morte tão repentina. Talvez consigam a cura para as próximas gerações. Hoje ele está lá, pequeno e frágil, boiando em um pote de vidro cheio de formol onde antes deviam ficar biscoitos pintados com bolinhas coloridas, daqueles que só avós sabem fazer. Fico sentada, imóvel, pensando no luto que não tive tempo de viver porque o mundo tem pressa para tudo. “Morte súbita, sinto muito”, alguém diria. Ele ficou púrpura, parou de respirar, seus batimentos cardíacos reduziram drasticamente. Foi instantâneo, mas certamente a fraqueza já vinha de longo tempo. Porque a força não se esgota assim, da noite para o dia, deixando tudo vazio. A coragem não pega suas malas e parte sem dizer adeus. Perdi o feto de força que já vinha ficando cada vez mais diminuto dentro de mim. Ele morreu e foi expelido. E, apesar de tudo, continuo me esforçando. Por mim, por nós, para reaver meu instinto guerreiro. Não estou tentando nada a não ser, quem sabe, mudar minha própria maneira de pensar e ver e agir e amar. Não a sua. A minha. 
 
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