segunda-feira, 21 de maio de 2012

Correntinha.


Eu ia mandar apertar. Há meses ia mandar apertar porque ela ficava escorregando no meu dedo. Não mandei porque só de pensar em ficar alguns poucos dias longe do seu nome já me entristecia. E ela insistia em cair. E eu insistia em catar do chão e colocar de volta. E fechava e apertava a mão com força, segurando com a esquerda, para ter certeza que ela estava ali e que você estava ao meu lado. Eu, que sempre achei essas coisas meras banalidades desnecessárias, estava criando uma fixação. Porque ali, dentro dela, estava um pedacinho de você que me acompanhava aonde quer que eu fosse. E foi você que me ensinou isso quando tentou me convencer a usá-la. Depois de um tempo eu vi sentido. Era olhar para o dedo e sorrir, lembrando que eu era sua e que todo mundo sabia disso. Aprendi com você, assim como tantas outras coisas bonitas. Talvez fosse melhor não ter aprendido; a ignorância era prevenção contra a dor.
Ela caiu de novo, como sempre. Mas quando fui ajuntar, dessa vez, você me parou no meio do caminho, como se pudesse congelar cenas com as mãos. Não precisava mais. O esforço era inútil. Dava para ler nos seus olhos. E ver em seu dedo a falta dela. Chega. Não precisa mais pegar quando ela cair, esse foi o último tombo. E aí, então, quem caiu fui eu, incrédula, logo ao lado da aliança prata brilhando no chão. Caí de cara, quiquei de bunda e sei lá mais o que porque tudo dói. Éramos eu e ela ali no chão, uma brilhando e grande demais para o dedo, outra apagada e pequena demais por ser esmagada pelo fim. Tudo repentino demais. Não deu tempo de apertar a aliança, mas o coração estava sendo apertado até quase rasgar completamente. E rasgou. Rasgou quando você disse o que disse e que me dói lembrar, então não posso repetir. Porque você me amava como sempre amou até pouco tempo e falava sobre esse amor, sobre os beijos que te encantavam, sobre a minha disponibilidade a qualquer momento que você quisesse e sobre como ainda ficava feliz por me satisfazer. Sobre como eu era a namorada perfeita, como você escolheu bem e como não se arrependia nem com os problemas que vieram no pacote. Sobre como não queria me perder. E dizia com firmeza que isso não aconteceria. Firmeza até demais em alguns momentos. Um tanto quanto bruta. Que estaria ao meu lado mesmo que os terremotos continuassem acontecendo. Você prometeu que nós venceríamos. Que nosso amor conseguiria. Você disse mais de mil coisas lindas para depois destruir tudo dizendo que só falou o que sabia que eu queria ouvir. Logo no dia seguinte. E alguns dias mais tarde jogou uma boa bofetada de quero-ficar-sozinho na minha cara. Você me ensinou a amar a aliança como se ela fosse parte de nós para depois guardá-la em alguma caixa qualquer.
Mas as coisas que você disse até aquela terça foram as mesmas coisas lindas que você repetiu durante longos meses. Então você passou mais de um ano falando o que sabia que eu queria ouvir, mesmo que eu garantisse que não queria. Meses mandando rosas e dando beijos na testa só para sustentar as palavras doces. Parte de mim não consegue acreditar nisso. A parte que você conseguiu amolecer. A parte que aceitou usar aliança e que não conseguia tirá-la nem para mandar apertar. Essa parte não vê isso como opção. Uma mentira tão grande e de tanto tempo, parecendo tão real, não pode ser mentira. Essa parte acredita nisso. Mas ela, coitada, é a mesma que acreditou que seria para sempre quando você dizia que seria. Que aceitou pauladas seguidas por pedidos de desculpas. O resto, o pouco de ceticismo que restou, fica sussurrando um “viu, eu avisei” sarcástico que dá dor de cabeça. Avisou mesmo, lá no começo, quando seu rosto era só um rosto bonito com um sorriso maravilhoso e educação e gentileza de príncipe. Avisou outras tantas vezes e mesmo assim eu não fugi. E mesmo quando tentei, não consegui, sempre voltando os passos que andei nessa direção. Agora ele tem o direito de rir e, claro, de voltar com força total, recuperando todas as partes de mim, inclusive a amolecida. Cética, muito mais do que antes. Talvez agora meu primeiro nome seja Cética. Oi, como é seu nome? Cética. Você é linda. Ha-ha! Não era isso que eu queria para mim depois que você surgiu; estava feliz com as mudanças que fiz em mim por você. Mas agora me descubro sendo a mesma pessoa pré-você, com mais bagagem e uma quantia considerável de certeza de solidão. Porque eu disse para mim, para você e para mais algumas pessoas, acho, que você seria minha última tentativa. E parecia tão doce e tão verdadeiro que cheguei até mesmo a ficar feliz por ter escolhido tentar uma última vez. E por ter amolecido. Parecia. Feliz. Verdadeiro. Aliança. Palavras que não se conectam mais.
E, enfim, tudo se inverteu. Agora eu faço o que você sempre dizia que faria caso acabasse. Tirei a aliança como manda o término, mas não guardei naquela caixinha vermelha de veludo que você abriu para mim. Do dedo ela foi direto para perto do coração. Tirei o pingente de uma correntinha e coloquei a aliança no lugar. Ela continuará comigo todos os dias. Carregando o pedacinho de você. Agora, no entanto, é perto do peito e só para mim. As vezes ainda me assusto com o dedo vazio, achando que ela acabou mesmo caindo de tão grande. Me bate um terror ao sair do banho e procurar automaticamente a aliança na beirada da janelinha e não encontrar. Ou no balcão, depois de lavar a louça. E então, todas as vezes que isso acontece, seguro minha preciosidade-pedacinho-de-você e lembro que ela continua ali. Você não é mais meu, mas eu ainda sou sua, ainda que você não me mostre a ninguém. As vezes me agonia a falta que a presença dela em outro lugar confirma. Mas ela não vai sair. Não preciso mais mandar apertar, mas agora ela cuida do meu coração cheio de saudade e invadido pela solidão. Ela está cuidando de mim do melhor jeito que pode, servindo de guardiã de um coração destruído. Guardará para sempre minha última tentativa de amor. O rosto de pele macia que eu tanto admirava. As mãos suaves. O jeito lindo de fazer nada e olhar para mim. O amor da minha vida em um pedacinho de ouro branco.

2 comentários:

Vivian disse...

é pra chorar? pois chorei !!!
lindo !!
bj

Josiana Rezzardi disse...

Não sei para os outros Vivian, mas eu já escrevi chorando!
Beijo

 
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