terça-feira, 22 de maio de 2012

Ônibus.


Eu voltei. Não sei se agora pra ficar porque lugar nenhum é meu e a ideia não é poética no meu caso. Voltei chorando já no caminho à pé para a rodoviária. Estive patética entregando a passagem ao motorista junto com um soluço triste. Poltrona sete, não fui eu que escolhi. Encostei a cabeça na janela do ônibus, só com o cachecol branco e fofinho entre o rosto e o vidro segurando um pouco o atrito conforme as rodas pulavam buracos na estrada. Um cubo de batatas Pringles, só que de outra marca – mas a gente sempre chama de Pringles mesmo -, chacoalhando na bolsa porque queriam muito que eu comesse alguma coisa antes de viajar, qualquer coisa, mas não funcionou. Sem você, sem fome, sem sono. Fui com a vontade de tentar, a certeza de nós dois, a ânsia de retomar o amor e, como prêmio, voltei para casa sem nada. Ou melhor, voltei para casa com uma enorme pedra de dor para segurar. De confusão. De mentiras ou decepções e qualquer coisa mais que tudo isso possa ser. Para combinar, eu não queria mais nada. E só me interessava mesmo pelas luzes da cidade porque elas estavam borradas de um jeito meio drogado, tudo amarelado pelos postes passando rápido nas ruas. Um ou outro nome de hotel em neon colorindo um pouco a cena. Não me droguei, claro. Mas a mistura de pílulas para dormir com as lágrimas derramadas sem pudor tinha o mesmo efeito. Não sei se com drogas os olhos ardem; os meus estavam ardendo de tanto jorrar sofrimento. O cara do assento ao lado era um desses gordos espaçosos que roncam logo que fecham os olhos, mas virei para o lado da janela, encolhida como um feto desprotegido e ele nem sequer existia mais. O mundo inteiro não existia mais depois daquela cena horrível de filme de algumas horas antes. O mundo inteiro morreu dentro de mim. Possivelmente para sempre.
Olhando para fora, todos os últimos instantes passavam como flashes na cabeça. Você olhando para baixo enquanto eu chorava. Você falando sobre os poucos sentimentos que restaram e que eles não eram mais suficientes. Você falando que agora quer ficar sozinho e eu, por outro lado, apavorada com a ideia de ficar sozinha. Implorando. Argumentando. Expondo toda a minha vida. E você saindo porta afora e dizendo “sinto muito” sem sentir realmente, entrando no elevador e virando para mim, talvez para que eu pudesse te ver de frente pela última vez. Sério. Lindo. Mas não mais meu. Eu conheço seus olhos. Não havia nem mesmo a tristeza do adeus neles. A última imagem que terei de você, provavelmente, será a do cara que mais amei indo embora para sempre, com a porta do elevador fechando em frente ao seu rosto. Rápido como um corte, sem slow motion. Dizendo me amar muito até três semanas antes e de repente mais nada. Ou não o suficiente. Dá na mesma. De repente tudo acabou. De repente tudo que eu aparentemente significava não significo mais. De repente você queria ficar sozinho e que eu ficasse segura. E eu ri. Segura. A palavra mais engraçada da noite. Retrocedendo no tempo, a hora em que te entreguei bruscamente de volta o álbum e o que quer que estivesse dentro daquele pacote de presente que você queria me dar só por desencargo de consciência, eu realmente queria ter jogado tudo com muita força direto na sua cara. Com sorte quebraria seu nariz. Queria isso por tantos motivos que é impossível descrever, mas, principalmente, por me fazer te amar em vão, a cada dia mais, sabendo de todos os meus problemas. Sabendo de como eu cairia de vez ao ser deixada por você como se fosse uma qualquer. Por me tornar louca por você para então dizer “não quero mais” e partir. Mas eu não sou assim. Não sou de tacar coisas. Se fosse assim, tacaria minha dor para você levar também e ver como ela é pesada. Tacaria minha vida que mais parece um trapo. Toma, leva tudo, eu diria. Não interessa se você quer ou não. Eu não me quero mais depois de tanto amar você, cansei. Tacaria tudo para que você jogasse no lixo mais próximo, com certeza. Afinal, guardar só ocuparia espaço no seu armário. No exato momento em que você me abraçou pela última vez (e foi bem forte, ou foi impressão minha?), se eu não fosse tão jovem, diria que estava tendo um infarto, tamanha a explosão de dor que tomou conta de mim. Mas sou jovem e a dor era de abandono mesmo. De adeus sem querer largar. 
Eu quis perguntar se essa foi a maneira que você usou para terminar com suas ex-namoradas também. Quero ficar sozinho. Você é a pessoa que mais se aproxima do que eu namoraria agora, mas quero ficar sozinho. Sou eu. Não é nada que você tenha feito ou deixado de fazer. Preciso focar nas minhas prioridades sem pensar nos outros. Ah, céus, tudo tão clichê para dizer não-quero-mais-porque-não-te-amo-mais-me-enganei-quando-disse-que-você-era-a-mulher-da-minha-vida. Minha madrinha diria que tudo isso tem nome. E eu acho até que sei as iniciais. Mas pode até ser que não tenha, tanto faz; de qualquer maneira, fiquei eu sem você. Eu, Christiane F. (aí vai meu nome, mas sempre me dizem para deixar as coisas que escrevo menos pessoais), chutada novamente. É assim que os vira-latas pegam medo dos humanos. Eles dão um pouquinho de amor, um pouquinho de comida e depois, quando conseguem a confiança, botam a chuteira para não errar o alvo. Eles são os maiorais e, quando se descobrem donos de tanto poder, o pequeno perde a graça. Que graça mais uma pessoa doente e problemática teria depois de ter feito todas as suas vontades, atendido todos os seus pedidos e dedicado todo o seu amor a você? Nenhuma, óbvio. Só não percebi antes porque gente que ama demais não enxerga nada. Ou talvez só eu seja cega assim, não dá para generalizar. Fui trouxa. Babaca. Idiota e tudo mais. Inclusive burra. Eu acreditei em algo que sempre disse a mim mesma para não acreditar porque não existia. E não só acreditei no ridículo e retardado amor e em todas as suas facetas, mas também em você. Acreditei quando você dizia que ficaria para sempre e agora via você dizendo o contrário. Você indo embora. Partindo na boa enquanto eu caía de joelhos no tapete para chorar. Mas que diferença faria? Era apenas mais uma chorando por você. Deve ser bacana, imagino, para a autoestima. Essa moça você enganou de jeito mesmo. Ela e todo mundo ao redor com seu rostinho e jeito de bom moço. Com a mentira saindo fácil pela boca, como você mesmo admitiu. Eu acreditei em você e jamais me perdoarei por isso.
Tive uma viagem inteira de volta para lembrar de coisas assim. De tudo que vivemos e de toda uma história que já não sei se foi real ou não. Gostaria que aquele último abraço tivesse durado uma eternidade a mais. Que o elevador tivesse demorado mais a fechar. Que você tivesse me avisado que eu deveria me despedir naquela terça antes de entrar no táxi, para que o beijo fosse mais longo e mais beijo daqueles de guardar para sempre mesmo. Para que eu segurasse sua nuca e seu rosto com carinho pela última vez e memorizasse cada traço minúsculo seu. Eu queria mais de todas as coisas sutis da nossa vida juntos, ainda que tudo fosse uma grande mentira. Queria mais colo com seus braços me segurando pelos lados e protegendo contra tudo, ainda que para você não significasse nada. E chega de enganar. O que eu queria mesmo, de verdade, lá do fundo dos meus quereres, era que o fim não tivesse acontecido. Que tudo que você disse e fez fosse verdade. Que eu não tivesse errado ao baixar a guarda como fiz. Que todo o amor que aceitei sentir e tudo de mim que aceitei doar não tivesse sido em vão. Que fosse amor porque era mesmo amor. E que você fosse quem parecia ser. Alguém que não desiste de um dia para o outro, como todos os outros fazem. Eu gostaria de você aqui, comigo, sem essa de querer ficar sozinho e me deixar sozinha. Queria que nada tivesse mudado, enfim, mas o ônibus chegou e eu desci as escadas dando de cara com o frio e com a realidade de não ter mais você. Quando achei que isso nunca mais aconteceria, me enxergo sozinha na rodoviária. Sozinha na vida. Você ficou há muitos quilômetros de mim. Como era antes, só que agora também com o coração. Ou quem sabe, talvez até ele sempre tenha estado distante do meu e eu não percebi. Afinal, não percebi nem mesmo o gosto do fim chegando. Talvez a culpa de tudo seja minha. Faltou percepção, faltou me botar no meu lugar e perceber que eu jamais poderia ser tudo aquilo que você dizia que eu era; não tenho cacife para tanto. Faltou manter os pés no chão porque voar com você era leve e trazia uma felicidade irreal. Faltou acreditar mais nos meus instintos lá no começo e menos nas suas lágrimas de não-me-deixe-porque-senão-eu-sei-como-voltarei-a-ser. Faltou rir quando você dizia que me amava. Eu devia ter rido. Faltaram as rédeas de mim que eu não soube manter perante todo o amor que tenho por você. Faltou enxergar por trás do seu jeito romântico e apaixonado. Faltou te amar um pouco menos. Ou muito menos. Ou nada. Porque o amor é mesmo deplorável e mais deplorável ainda é quem se deixa levar.

3 comentários:

Gugu Keller disse...

Todo fim de amor tem um quê de amputação.
GK

Francielle disse...

Dizer que sinto muito não é suficiente, mas eu sei muito bem como é perder um amor e ainda mais um amor que você sabe que nunca existiu pela parte dele, mas que por você sempre existiu e existirá...doí muito, mas muito mesmo, mas eu sei que é clichê isso, mas com o tempo começa a doer menos. não que não doa mais, mas a dor já é mais fácil de suportar. quem sabe um dia pode ser até esquecida? é o que eu peço a Deus todos os dias... que essa dor não exista mais e que eu não o esqueça nunca, mas que eu também não sofra por não te-lô ao meu lado...

Anônimo disse...

Não te conheço, mas pelos textos que você escreveu, penso que conheço um pouquinho.
E eu diria o seguinte:
Faltou foi amar mais a você e menos a ele.
Você é linda, inteligente e amorosa.
"Quero ficar sozinho"
Homem quando diz que quer ficar sozinho é porque quer só a buceta (como diria sua madrinha). Já viu homem sozinho? homem que quer focar em algo?
Cansou do comprometimento (do seu amor) mas é óbvio que não quer ficar sozinho.
Homem sozinho = homem "pegando geral".
Desculpe se essas palavras te ferem.
Mas falo com conhecimento de causa.

 
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