segunda-feira, 28 de maio de 2012

Scotty McCreery e a caixa.


Meu sorriso é triste sem você. A coisa toda se resume a isso. Sem você eu me transformo naquela menininha assustada, escondida atrás da porta do quarto, que esquece que o mundo vai além da esquina mais próxima. Muito além. A mulher esmorece, quase escapa de mim. Resta a menininha e uma coisa disforme que são todos os meus sentimentos embolados. Scotty McCreery canta bem alto “please remember me” usando, com sua voz country, as exatas palavras que eu gostaria de dizer. E eu choro por não ser Scotty McCreery e estar tão longe de pedir para que você, por favor, lembre-se de mim. Longe de ser realmente lembrada. Choro porque Scotty McCreery certamente pensa em alguém ao cantar essa música e pode dizer tudo através dela, enquanto eu penso em você e não posso nem mesmo fazer uma ligação. O telefone funciona. Minha voz falharia, mas funcionaria. Para dizer oi, tudo bem, sinto muita saudade de você. Te amo demais. Funcionaria. Mas você não atenderia, então parei de tentar. Parei de tentar ser Scotty McCreery e voltei a ser eu. A menininha assustada e sem coragem. Aquela para quem o telefone não funciona, muito menos a voz. Porque crianças não sabem como discar e o que dizer e é como eu me sinto agora que você se foi, perdida em uma encruzilhada cheia de neblina. Sozinha. Acompanhada apenas pela dor insana da falta do amor que eu julgava como a única certeza da minha vida. Lembro do cartãozinho em que você dizia que, dentro de todas as minhas dúvidas, eu deveria guardar o espaço para a certeza do seu amor por mim. E eu guardei. Salvei um espaço de dentro dos destroços só para guardar você em uma redoma de vidro em meu coração. E agora o que eu guardo não é mais a certeza do seu amor, mas sim a inexistência dele.
E guardo também nossas coisas. Tudo aquilo que ficava me olhando dia e noite de cima das estantes de vidro do quarto. Todas as pequenas coisas que me torturavam de saudade, agonia e medo de nunca mais te ter. Comprei uma caixa grande e firme e, enquanto Scotty McCreery continuava cantando – part of you will live in me, lálálá – guardei presente por presente com o mesmo cuidado que teria ao segurar um bebê. Guardei as canequinhas ainda formando nossos nomes mesmo ali dentro. E junto com elas a cumplicidade de todos os submarinos que tomamos para roubá-las. Os cartões que vieram com as rosas; só eu sei como gostaria de ter guardado uma delas dentro de um livro até secar. Talvez aquela primeira que me fez parar de respirar por alguns segundos. Deitei Edward Mãos de Tesoura e, ao seu lado, a pequena e fofa Marylin que você comprou como presente de nove meses porque achou parecida comigo. Só porque ela é loira e eu também sou. Essa foi a mais difícil de guardar porque não dá para esquecer o sorriso que você abriu naquela noite enquanto atravessava a rua e eu esperava encostada no carro. “Foi como ficar com você de novo pela primeira vez”, você disse. Estava frio e o abraço foi de matar saudade e todo o resto que não fosse amor entre nós. Você me deu a Marylin e eu a botei para dormir agora. Guardei os dois perto um do outro, como namorados que eram na estante, como representantes de nós dois olhando direto para mim. Guardei a caneca do Lynyrd Skynyrd e comecei a pensar se na época em que a ganhei o seu amor já havia começado a evaporar. Ou o que eu acreditava ser amor. Porque amor de verdade não evapora, ainda que tudo esteja quente demais; problemas, distância, interferências. Tudo quente, mas o amor não evapora. Disso tenho certeza porque, não fosse assim, o meu amor estaria evaporando junto com tanta tristeza fazendo ebulição dentro de mim. Mas não. Ele continua intacto. Então guardei tudo. Tudo o que ganhei das suas mãos, sempre junto com um sorriso. Tudo o que me encarava durante a noite. Tudo o que trazia você na cabeça com a velocidade da luz. Inclusive o porta-retratos grande com a nossa foto preferida. Aquela em que você parece um galã de novela. Tudo. Até mesmo sua foto três por quatro que ficava na carteira e o bilhetinho com seu desenho lindo de bonequinhos de palito no qual eu carregava a lenha para o seu fogo acender, como na música. Tudo. E então guardei a caixa também. E chorei. Sentei no chão do quarto e chorei por horas. Não por não poder cantar para você como Scotty McCreery, mas por ter que guardar nossas coisas, nossos momentos, a materialização da nossa vida juntos. Chorei mais do que quando você olhou nos meus olhos e disse que o que sentia não era mais o bastante para continuar. Que nos últimos tempos esteve fingindo amor. Chorei mais porque guardar tudo é reconhecer o fim. É destruir todos os planos. E reconhecer um fim que não estava neles e que está matando por dentro dói. Dói o peito, falta ar. Toda vez que falta ar é porque aumentou a falta de você. A lembrança da sua voz dizendo o que eu nunca esperei ouvir. Sempre foi assim com você. Tudo que nunca imaginei ouvir de tão lindo no começo e durante e tudo que jamais pensei que ouviria de você no fim. 
Chorei e muito. Mas, dentre todos os motivos, chorei principalmente porque não existe caixa para guardar seu amor quando o da outra parte acaba. Ele fica. Então eu guardei, sim, todas as nossas coisas, mas percebi no mesmo instante que isso não faria diferença alguma. Agora eu choro por ver as estantes vazias, onde antes estava tudo de nós dois. Elas ficaram tão solitárias quanto eu fiquei sem você. Eu choro aqui da cama, olhando para elas, querendo desesperadamente colocar tudo no lugar e nos colocar no nosso lugar comum também. Juntos. Como Edward e Marylin ao som de Scotty McCreery, desta vez cantando “I love you this big”, porque meu amor é enorme mesmo e não mudou uma vírgula. Ele canta que os olhos nunca viram amor tão grande, que ninguém nunca sonhou um amor enorme assim. Sou eu. Mas não tenho voz para cantar para você. E não tenho onde guardar meu amor enquanto não inventarem uma caixa que retire essa droga de dentro da gente. Todo o sofrimento, toda a saudade; nada disso sai do peito para uma caixa invisível.
Choro porque guardar coisas não é a solução. O que realmente preciso é me guardar dentro dos seus braços. Preciso de você sorrindo para mim e guardando meu sorriso junto com o seu. Preciso que meu amor fique guardado e protegido aí dentro de você. Eu te dei meu coração e junto com ele tudo de mim. Quando eu brincava que um dia cantaria “Someone like you” para você era brincadeira. Por favor, desligue o som do carro e volte. Quando eu dizia que seria sua penúltima namorada não estava falando sério. Porque, aos poucos, tudo o que você queria para a vida inteira se tornou o que eu também queria para a vida inteira. Tudo mudou. E quando Scotty McCreery canta a parte da música que diz que você encontrará um amor melhor, mais forte, mais tudo, eu me desespero, enlouqueço e choro até desidratar. Você não pode achar um amor melhor. Eu te desejo, sim, o amor mais lindo do mundo, mas comigo. Eu sou seu amor melhor. Mais profundo, mais tudo que Scotty possa cantar. Ele abre mão de seu amor e pede apenas que ela se lembre dele. Eu não posso abrir mão. Deixar ir é tão difícil quanto continuar sozinha depois. Preciso que você se lembre de mim toda manhã ao olhar para o meu rosto e enxergar todo o amor que existe em mim. Ou ao escrever uma mensagem de bom dia ou boa noite. Quero que você não precise se lembrar de mim porque eu sempre vou estar ali com você. 
A música me derrete de tristeza, a caixa também, todo o vazio do quarto sem você também. Até mesmo comer sopa de palmito me deixa triste. Tudo o que minha vida se tornou com você todos os dias, mesmo quando a distância apertou. Tudo doendo e derretendo minha força. Eu quero aquela nossa vida que parecia tão certa e tão bem resolvida. Quero que você não tenha fingido amor. Que não tenha ido embora. Quero estar apenas vivendo o pior pesadelo da minha vida; aquele que, de tão ruim, você não consegue me puxar para fora nem chacoalhando meu corpo e gritando meu nome. Quero botar tudo de volta no espaço que você foi ganhando com o tempo e que agora jogou fora. Quero que você não tenha enjoado de mim, cansado do meu jeito de ser. Quero deixar a caixa vazia. Quero poder ouvir Scotty McCreery e apenas achar a música linda, não uma sentença de solidão como agora. E se eu puder ter tudo isso, se eu puder ter você e um espaço seguro para o meu amor novamente, nunca mais peço nada ao mundo. Mundo, só quero isso. É meu único pedido. Só o meu amor, nos dois sentidos. Dou três pulinhos se precisar. Pulo sete ondas no mar. Faço promessa. Qualquer coisa, manda que eu faço. Tudo para que as lágrimas sejam de alegria ou emoção. Tudo e qualquer coisa para ser Scotty McCreery por alguns minutos, sair da caixa e conseguir tocar seu coração até você voltar para mim e me guardar bem apertada e pequena dentro do seu abraço para sempre.

2 comentários:

Anônimo disse...

“Sorria, brinque, chore, beije, morra de amor, sinta, sonhe, grite e, acima de tudo, viva. O fim nem sempre é o final. A vida nem sempre é real. O passado nem sempre passou. O presente nem sempre ficou e o hoje nem sempre é agora. Tudo o que vai, volta. E se voltar é porque é feito de amor.”

Josiana Rezzardi disse...

Tomara que seja feito de amor, Anônimo!

 
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