sábado, 29 de setembro de 2012

O pouco que vivemos.

Tenho tido dificuldade para escrever. Passei meses rabiscando bobagens e deixando as coisas sérias para lá, para o coração amenizar sozinho, porque até para escrever elas doíam mais. Ironia da vida; costumava escrever muito melhor em tempos de tristeza e solidão. Uma praia totalmente deserta no inverno, por exemplo, seria minha definição de paraíso para a criatividade. Nesses últimos meses, no entanto, estive mais abarrotada de tristeza do que nunca e não saiu uma palavra sequer. A verdade é que perdi a coragem. Virei uma covarde porque toda noite, quando tentava produzir algo, a angústia mais terrível entrava no meu quarto sem ao menos bater na porta. Perdi a coragem porque escrever é lembrar de você e lembrar de você machuca. É pensar no pouco que vivemos juntos e em tudo que passamos de ruim por minha culpa e eu perdi a habilidade de tirar isso de mim, tão grudado você ficou. Não sai. Não sei. Às vezes, num sopro, uma palavra ou outra, perdida em uma página branca. E geralmente eu começo a chorar, mancho o pobre do edredom e desisto. Falar sobre nós é como me apunhalar e, se não posso fazer isso na vida real para privar as pessoas de sofrimento alheio, também não vou fazer na vida escrita para agradá-los com textos. Perdi a tão importante ferramenta que me salvava, ao menos um pouquinho, porque toda vez que começo um texto desabo no choro. Como estou fazendo agora. Secando uma lágrima por palavra. Segurando um soluço por frase. Padecendo um pouco a cada parágrafo. Mas resolvi tentar mesmo assim, porque não escrever está cozinhando ainda mais minhas torturas aqui dentro.
A verdade é que surge um amontoado tão grande de coisas na cabeça que não dá para saber por onde começar e aí fica no nada mesmo. Daquele jeito: a gente pensa mil coisas e fala uma ou no máximo uma e meia. Pensa bonito e fala gaguejado. E entre essas duas coisas, fica toda uma coisa embaralhada e sem forma. Antes eu conseguia pensar uma coisa por vez e, se surgisse um pensamento no meio, ia parar em um tópico para depois. Agora não dá mais. Aí fico irritada pelos dedos pairando sobre o teclado ou segurando a caneta imóvel; prendo o ar nos pulmões só para perceber que em algum momento terei que soltar, assim como eu deveria soltar você e a vida de nós dois que nunca existiu. A pobre exterminada. A linda executada. Mas isso não; isso eu insisto em manter naquela aspirada bem profunda de nadador no momento antes do apito do mergulho. Seguro bem firme para não correr o risco de deixar escapar o que restou. Mas você não é leve como o ar, nós não somos. Somos pesados. E descobri que somos pesados porque já éramos concretos dentro de mim. Uma coisa só. Uma coisa grande, pesada, bonita e que não sai voando por aí porque simplesmente é e não precisa encontrar mais nada. Fico pensando nisso e em centenas de outras coisas e não consigo escrever. Não consigo escrever porque as palavras doem, saem ásperas, como se eu estivesse rasgando minhas tripas, cortando músculos e tendões com um bisturi e quebrando costelas. E porque não consigo organizar meus pensamentos, assim como não consigo organizar meu guarda-roupa e minha vida. São todos um verdadeiro caos. E eu sempre idealizo que amanhã vou dar um jeito nisso, mas as roupas continuam amontoadas e amassadas nas prateleiras, meus pensamentos continuam se misturando de forma indevida e minha vida? Indigna de comentários. Os pensamentos não entendem que você fica em um lugar e eu em outro, agora. Ainda acham que devíamos caminhar de mãos dadas. Tentar, pelo menos. A chance que nunca nos demos. A única certeza que eles têm é meu amor imenso. E pelo jeito são burros, porque não me deixam mais escrever. Meu único refúgio fugiu de mim.
Aí penso no pouco que vivemos e acabo vivendo, agora sozinha, de pura nostalgia molhada de lágrimas. É um pouco de lembrança de cada singelo momento que vivemos com um pouco de imaginação - sempre ela - do que poderíamos ainda estar vivendo. E imaginação, quando se mistura com lembrança, é como um fardo enorme de saudade que nunca fica leve. Escrever virou esse fardo pesado, porque escrever é lembrança viva sua, como se você estivesse aqui ao lado.  É viver carregando esse fardo como se houvesse algum destino lá longe - como um mochileiro sem destino - e ninguém te desse um copo de água no meio do caminho. Já ganhei copos de água. E de absinto, mojito, cerveja estupidamente gelada e outras coisas também. A cada copo tentam me trazer para a realidade e arrancar algum sorriso honesto, mas é na minha cachola com lembranças que você vive e, por mais que pese, é ali que quero ficar. As pessoas não entendem e eu parei de explicar. Hoje só sorrio sem honestidade, visto uma roupa bacana, vou aonde querem que eu vá e tenho as atitudes que todos esperam de mim. A atitude de alguém que superou. Até consigo gargalhar de maneira falsa, embora para isso eu tenha treinado um pouco em frente ao espelho, confesso. E as pessoas ficam felizes e sorridentes porque, vejam só, ela está ótima agora. Quem sabe de tanto fingir que superei e que sei sorrir eu acabe mesmo superando e aprendendo a sorrir. Mas não era isso que eu queria. Porque mesmo que a imaginação recordativa de nós doa às vezes, muitas vezes, aliás, ela também é o pouco que restou de você em mim. Não tenho mais seus beijos, mas tenho a lembrança do primeiro, suave e cuidadoso, e de todos os outros que trocamos. Cada um novo como um novo dia. Não tenho seu abraço, mas lembro exatamente da delícia que era estar escondida nele. Não posso mais mexer no seu cabelo, mas lembro exatamente onde você gostava do carinho. Não tenho nada de você e continuo tendo tudo. Você está lá e aqui ao mesmo tempo e nem sabe. E esse tudo aqui dentro de mim é o que continua me mantendo em pé. É o que não me deixa dormir, escrever ou comer com parcimônia. É sempre tudo exagerado, para mais ou para menos. Pelo menos assim não posso mais te machucar ou causar transtornos. Você está curado de mim, o possível mal da sua vida.
Mas, pensando bem, acho que dor de amor sincero é isso mesmo. É não superar só porque as pessoas exigem; é lembrar, relembrar, doer, chorar, querer ficar na cama o dia inteiro, mesmo sem tempo pra isso. É querer morrer todos os dias porque a cada dia se morre um pouquinho. E é difícil de curar. Tão difícil que você desiste e acaba só mentindo que está curada porque é mais fácil. E aí a questão é outra: não é que eu esteja confortável em pé ou tão firme quanto meus passos sugerem; é só o fato de que caminhar é necessário e não quero mais tropeçar no caminho. A não ser que o tropeço seja em você. E que você estenda a mão, sorria e me pegue no colo. Se for assim não me incomodo nem mesmo de ralar os joelhos ou sofrer uma fratura exposta.
Como sei que isso nunca vai acontecer, sigo tentando erguer o rosto contra o sol que já não me agrada mais, sair debaixo da coberta que me protege dos monstros da vida – já que dentro dela tudo parece irreal -, botando uma perna na frente da outra para andar quando a vontade é que elas fiquem imóveis na cama que tem o buraco meio afundado do meu corpo no centro. Continuo tentando, mas está tudo tão quebrado que a cada passo que dou encontro um minúsculo pedaço que já não encaixa mais em lugar algum. E o pior de tudo é saber que vou morrer caminhando em busca da nossa vida perdida, tentando ajeitar esses pedaços quebrados e escrevendo textos ruins como este. Textos que já não mexem com o coração das pessoas como os outros faziam, porque são meras tentativas sem você. Textos-lixo. É isso que são. Palavras amontoadas tentando ganhar um significado, unzinho sequer, quando na cabeça são múltiplos. É tudo tão confuso aqui dentro que não tem como colocar no papel. Mas até que é justo e todos hão de concordar: textos-lixo estão para uma vida-lixo assim como meu querer está para você. A diferença é que meu amor acabou virando lixo também. No final das contas, a moral da história é que sou inteira lixo. Um lixo com moral em sua história. Um lixo cheio de amor. Mas, ainda assim, um lixo e nada mais.

2 comentários:

Flávio disse...

Nossa, que dó de você

Gugu Keller disse...

Vc ficou tanto tempo sem escrever... E é impressionante o quanto voltou muito mais talentosa... Rainha das letras! Poetisa da prosa! Definitiva dona da beleza em palavras!
GK

 
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