segunda-feira, 1 de julho de 2013

Lâminas.

Cacos de vidro. Pedacinhos de uma taça de cristal que quebrou. Gilete. Faca com lâmina afiada. Qualquer coisa que corte. Não um rasgo profundo que cause morte. Apenas o suficiente para sentir dor em qualquer outro lugar que não seja o coração. É superficial. Traz fisgadas de dor, um pouco de sangue e, o que é o mais importante, esquecimento. Por alguns instantes, enquanto a pele está sendo perfurada, tudo o que me trouxe ao ponto a que cheguei vai embora. Os abandonos, as mentiras, enganos, hipocrisia. Tudo. Esqueço que não sou suficiente, que jamais serei o bastante para fazer alguém feliz e que toda pessoa que surge em minha vida vai embora. Sempre. Esqueço do escuro da minha alma. Nesses instantes paro de tentar entender os motivos das partidas. Onde eu errei, qual dos meus defeitos foi o decisivo, o que poderia ter sido diferente. E paro de imaginar como seria se a pessoa ficasse. Se, ao invés de ir, segurasse minha mão e simplesmente se deixasse ficar ao meu lado, sorrindo e fazendo planos, como qualquer pessoa normal. Tudo o que tumultua minha mente dia e noite, tudo o que não me deixa dormir nem fazer qualquer coisa com determinação, vira um borrão por alguns minutos.
É por isso que acontece a automutilação. É por isso que eu me corto. Não para morrer. É uma distração que manda embora as perdas, a mágoa, a tristeza que habita em mim. Esqueço que meu corpo não é como eu gostaria, que sou toda destruída por dentro, uma bagunça sem fim. Que sou sozinha e que ninguém consegue gostar de mim por muito tempo. Como poderiam? Tenho mais cortes – visíveis ou não – do que amigos e felicidades para contar. Nenhuma confiança em mim ou em qualquer pessoa. Tenho mais dor do que inteligência, destreza, beleza ou qualquer outra qualidade. Não culpo ninguém. Mas é por isso. É por tudo isso que cortar-se é uma distração. Porque, naquele exato momento, tudo o que meus olhos veem é a pele se abrindo superficialmente sob a lâmina e o sangue escorrendo de forma hipnótica. E a dor. Finalmente uma dor diferente, capaz de secar suas lágrimas e branquear seus pensamentos. É tão bom doer em outro lugar que não no peito destroçado e cheio de escombros que a sensação chega a ser extasiante. É uma dor que salva enquanto machuca. E machuca menos do que muitas pessoas já machucaram. Porque palavras podem ser como socos. Atitudes também. Silêncio também. Minhas cicatrizes podem provar.
Já não me sinto tão forte quanto era; fica mais difícil a cada dia que passa. A cada nova decepção – como se elas nunca parassem de surgir. Ser sozinha se tornou um fardo. Sentir que ninguém no mundo se importa é excruciante. Agora tenho medos que não tinha antes. Tenho medo de ficar sozinha para sempre, de morar na solidão e me acomodar nela. Medo de nunca conseguir ser o bastante para alguém. Medo de que os cortes se tornem vício. Porque, quando toda aquela tristeza e o aperto esmagador voltam, é inevitável pensar na lâmina. No corte. No esquecimento momentâneo. No apagão da mente. Fecho os olhos e vejo minha vida, uma desgraça sem rumo, e tudo fica cada vez pior. Solidão, vazio, a tristeza absoluta de todos os dias. E, quando fecho os olhos, não vejo um cenário diferente, uma perspectiva de que algo vai mudar. É tudo sempre escuridão e dor. É tudo sempre fim. Começos e meios não, só fim. Tem mais esse aspecto; os cortes tem começo, meio e fim. Dor intensa que depois diminui e se cura. A vida não. Entendeu? Cortar é tentar viver, quando tudo o que você quer é morrer.

2 comentários:

Anônimo disse...

Aí é que mora o segredo da felicidade, nunca estamos sozinhos, pois sempre estamos acompanhados de nós mesmos. Você pode fazer de si a melhor companhia do mundo ou a pior. A solidão pode ser vista como um castigo ou como um presente, é uma questão de escolha. Só quando acreditamos e aplicamos que o primeiro e último amor é o amor-próprio, estamos preparados para amarmos os outros e sermos amados. Aí o que parecia uma tristeza infinita, pode acabar sendo uma fase passageira!

obs: como não somos capazes de machucar os outros, não devemos ser corajosos de machucar a nós mesmos.

Já dizia Jesus: "ame o próximo como a ti mesmo"

Nina disse...

Deve ser meio "tristi" escrever algo, ninguém curtir e quando algum anônimo comenta: ele(a) fala de tudo, menos sobre o texto.

 
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