segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O abraço perfeito de um amor.

Você era tão lindo. Ainda é, pra ser sincera, só que agora em outra realidade. Por vezes me senti obcecada pela paixão de simplesmente te observar. Tamanha beleza, doçura, fineza e amor em tantos pequenos e gigantes detalhes. Talvez sua imagem, reconfortante e bela em diversas formas, seja uma das coisas que hoje mais me atormenta.
As poucas luzes noturnas que entram pelas frestas da persiana do quarto me ensinaram a relembrar seus gestos. Indo, voltando, movendo-se ao mesmo tempo com a graça e virilidade de quem está confortável, mas ainda se importa o bastante para manter a postura elegante. Caminhando, tirando a roupa para dormir e vestindo-a para ir embora quando a hora chegava... Não sem antes um beijo e um “eu te amo” sussurrado em meu ouvido. Eu dormia sorrindo. Eu dormia. Os dias sem você me assombram, as noites sem você são de insônia desesperadora. É no escuro da noite que imagino estar ouvindo sua voz - tão nítida e límpida como se fosse real -, vendo seu sorriso deslumbrante, enganchando minhas pernas nas suas, deslizando a mão em seus cabelos macios e sentindo suas mãos nos meus até os olhos pesarem. Você era lindo, mas era muito mais do que isso. Você foi a pessoa mais doce que entrou em minha vida e, como tinha que ser, tudo que veio depois de você sempre pareceu amargo demais.
Nunca imaginei que aquele inverno seria o último. Quem poderia, além de você? Nunca imaginei, mas, assim que te vi ir embora, soube que as memórias de verão ficariam apagadas pela maré linda das nossas vidas tão difusas e tão desconcertantemente justapostas no frio. Nós dividimos uma manta de solteiro em um frio abaixo de zero, afinal, torcendo para que a conchinha quente fosse o suficiente para a noite. E ainda rimos disso. Você me acalentou por dezenas de vezes e hoje tudo que sobrou foram seus passos marcados fundo demais em uma neve imaginária de adeus. O adeus mais dilacerador da minha vida, aquele que eu nunca quis dizer e que me flagela até hoje.
Se eu pudesse te mostrar, talvez você ficasse surpreso com quão pouco mudou desde então ou até mesmo com quão pouco escapou de mim. Hoje há só desamparo e solidão onde antes havíamos nós - como se um edifício histórico tivesse sucumbido às rachaduras do tempo e das intempéries, colidido e vindo ao chão -, mas tudo que era nosso ainda está aqui. E tudo que vivemos ainda está por aí, dentro de mim e solto pelo vento da vida. Tudo está pálido porque toda a cor vinha de você, mas em pé. Até eu continuo em pé, sem motivo. As coisas que antes eram ensolaradas hoje muito se assemelham ao manto de escuridão do quarto onde tento incansavelmente dormir sem você, onde vivem mais acesas do que em qualquer outro lugar nossas memórias. Você era o sol e eu o tempo nublado. Hoje só sei chover. Sem tempo para fôlego ou uma pausa qualquer. Só chuva e sapatos e roupas e cabelos molhados; só chuva e coração encharcado.
Às vezes o fascínio da memória vívida me faz acreditar que estou realmente te vendo. Parece que nos enxergo novamente cruzando avenidas, cantando músicas bregas e rodando em abraços por aí. Parece que te vejo chorar por cada tempestade absurda e inútil que eu, tempo nublado, causei. Queria que você pudesse perdoar. Queria que pudesse lembrar de mim como aquela que não resistia jamais em sorrir ao ver seu rosto, mas acho que é do inferno que suas memórias são feitas. De qualquer forma, eu te amo como jamais serei capaz de amar de novo e espero que disso você se recorde vez-em-quando-quase-nunca.
Como eu ia dizendo, às vezes esse fascínio me faz te enxergar, mas racionalmente eu sei que você não está aqui há anos. Não há ninguém no meio da escuridão, exceto um vulto seu que nunca me abandonou. Esse vulto me abraça e eu sei que ele é constituído noventa por cento de saudade e dez por cento de você; talvez por isso seja congelante. Deveria ser assustador, mas não é. Eu poderia trancar a porta e ficar abraçada com o vulto pelo resto dos meus dias. É como se eu fosse morrer sufocada a cada abraço, mas estou mesmo morrendo um pouco a cada dia desde que você se foi, então tanto faz.
Tudo aquilo que trazia pessoas até mim agora é uma selva impenetrável e secreta que só você transformaria em jardim suave. E que seja assim, não me importo. Quando me sinto um pouco mais disposta e menos doente de falta (já descobriram essa doença? Realmente deveriam...) vou sozinha aos lugares em que costumávamos ir, às ruas pelas quais passamos juntos, às cidades pelas quais viajamos. Tudo é carregado de você em qualquer lugar. É pesado e parece uma vida cheia de anomalias, mas é a minha vida.
Esta manhã, quando levantei, te vi mais uma vez. Senti vontade de vestir seu moletom como naquela primeira vez e logo em seguida cair de novo no seu abraço. Você se lembra? Você sorriu e disse que seu sonho era me ver vestida daquele jeito. Simples, verdadeira, sua. Senti vontade de reviver aquele momento, de sentir seu moletom quentinho em contato com a minha pele nua, mas, ao enxergar o reflexo vazio, assombroso e cheio de olheiras no espelho, percebi que era só mais uma ilusão. Sentei no chão, como milhares de outras vezes, e chorei desconsolada por tudo que perdi. Chorei por nós. Chorei pela certeza de que você será para sempre em mim, mas não comigo. Eu estava sozinha, é claro... Nunca há ninguém ali exceto o vulto.
Tenho a impressão, com frequência, de que o mundo já girou mais do que deveria. Todo mundo caminhou, todo mundo foi embora, você seguiu em frente rumo a outros amores e eu fiquei sozinha, presa no tempo, desejando algo impossível. Fiquei estagnada, torcendo para que as mesmas luzes noturnas que me trazem seu vulto tragam você de volta um dia. Esperando em vão por algo mais do que centenas de recordações. É como se o mundo tivesse me esquecido aqui sozinha. É como se a vida tivesse esquecido de roubar de mim algumas lembranças para que eu pudesse ao menos continuar sobrevivendo de forma mais sã. Depois de um tempo, quando você tenta um pouco de tudo e nada funciona, você desiste de tentar esquecer. Você se torna resignada, apenas mais um número na equação dos que sofrem por amor, dos que não nasceram para isso. E você aceita, embora não sem dor, que alguns dos melhores amores são feitos para não durar.
Me pergunto se você ainda se lembra de mim e do que vivemos. Talvez da madrugada em que eu disse sim, da primeira vez em que entendi que não conseguiria escapar do fato de te amava ou do primeiro filme que vimos juntos. Talvez da noite em que você fingiu ler minhas mãos e se enxergar nelas como o amor que eu estava destinada a viver. Mas acho que não. Acho que você não lembra e que talvez seja a vida quem decida quem é que fica com a dor quase insuportável das lembranças e quem é que vai embora para longe.
Tudo parecia mais simples naquela época. Eu sei, é loucura dizer isso quando, na verdade, foram tantos terremotos, furacões, lágrimas e desilusões. Mas, ao cair do dia, era “apenas” amor. Éramos nós e não o desamparo nem o mundo ao redor. Era a certeza, o abraço quente, o vento de certa forma a favor desde o primeiro dia. Era mais simples, não era? Acredito que sim. Porque éramos eu e você, sobrevivendo no mundo adulto daqueles que encontraram seu outro alguém, independente de qualquer outra coisa. E aí nos perdemos, é claro. Você me deixou ir e eu te deixei ir por não saber mais de que outra forma agir, mesmo que ambos soubéssemos do amor singular que corria em nossas veias. Talvez esse tenha sido o maior erro das nossas vidas. Ou talvez eu seja mesmo apenas uma louca que ainda vive no tempo em que você estava aqui ao meu lado. Talvez o amor turve minha visão e memória e me faça estar errada, mas a vida realmente parecia mais simples – complicada que fosse – cabendo no seu coração. Ouvindo você me dizer que amava quando eu tirava o salto alto porque, então, muitos centímetros mais baixinha, eu me encaixava perfeitamente no seu abraço, com a cabeça grudada no seu peito, como se tivéssemos sido construídos para aquele momento: o momento em mostrávamos ao mundo como é de verdade o abraço perfeito de um amor.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Muito prazer, eu sou o mar.

Eu hoje parei à noite em frente ao mar para ouvir as ondas quebrando. Ninguém caminha pela orla à noite; é tudo tão bonito, tão calmo e silencioso que parece magia. Eu gosto do vazio, talvez porque ele combine com o vazio dentro de mim. Parei ali. Ali é qualquer lugar, mas tinha areia e mar molhando os pés e maresia nas narinas e som de vida. O problema é que o som da minha vida é triste e acaba contaminando tudo. De repente a música mais linda do mundo – a água reunida em um espetáculo – virou nada mais do que o amontoado das minhas lágrimas. Nós não somos nada, apenas estamos tudo o tempo todo. E, mesmo sabendo que estar não é definitivo, que estar é uma dança maluca e inconstante de todos os dias, não há nada mais triste do que a dor do estar que não passa e não vira sou. Que transforma o mar, que é inteiro, em pequenas gotículas de todas as vezes que choramos por um pouco de sobrevivência e amor.
O mar bate em si mesmo com ondas violentas e eu me sinto um pouco mar também, de tanto deixar tudo quebrar e depois bater em mim mesma como castigo pela própria estupidez. É isso, sou mar. Sem a beleza, o frescor, a natureza rica, mas sou mar. A metade pesada e perigosa dele. Transformo sua alegria em melancolia com tudo que chove e quebra e leva pontapés dentro de mim. Sou a parte feia do mar. A parte formada por quem já chorou ali só para misturar seu salgado com o salgado do mundo e tentar ser menos salgado sozinho. A parte que engole felicidades por não acreditar nelas, que machuca por não saber mais viver sem cortes depois de tanto tempo apanhando, que destrói e derruba estruturas inteiras, como eu já derrubei tudo que me mantinha em pé. Sou a parte do mar que ninguém quer. O escuro que ninguém visita porque está tarde e ficar quentinho em casa é mais aconchegante. As áreas de perigo onde ninguém nada porque longe delas é mais seguro. Existe beleza na gélida água noturna, em sua brutalidade solitária – que só é bruta porque a natureza exige -, em todo o sentimento carregado em cada onda que se torna branca para tentar chamar a atenção. Existe alguma beleza em tremer os dentes de frio enquanto o som vem alto porque está grudado em você. Em ter valas nas quais se pode cair. Mas é uma beleza que ninguém vê e que ninguém quer ver. Porque é muito difícil achar beleza em algo tão complexo e arrebatador. É difícil querer algo que não seja manso, suave, ensolarado. Que não é quentinho porque falta luz.
Cansei de olhar aquilo que sou – em tamanho imensamente maior – e entrei no mar. De vestido. Molhei primeiro os pés nas águas rasas da maré baixa. Depois os joelhos, ao avançar um pouco. As coxas, o quadril, a cintura. Até aí as ondas ainda quebravam, voando por cima da cabeça, molhando os cabelos e ardendo os olhos. E continuava andando, inerte a tudo. Mas, de repente, eu estava imersa até o pescoço, com ondas apenas passando por mim naquela leveza de onde as coisas começam. E pensei seriamente que seria lindo se as mesmas coisas terminassem ali também. Pensei que poderia sumir, como tanto tenho tentado fazer. Desaparecer. Só mais alguns passos e eu me devolveria ao que, afinal de contas, era eu mesma.  Aquilo que ninguém queria. O amedrontador. Fechei os olhos e senti a brisa fria. Respirei fundo algumas vezes, toda molhada. Pele temperada, com gotas escorrendo e a face brilhando pela luz refletida da lua, me senti bonita como o espelho nunca mostrou. E então abri os olhos e olhei para o céu. Eu olho para o céu às vezes, à noite, como se quisesse desesperadamente acreditar em algo que não cabe em mim. Mas tudo o que vejo são estrelas, escuro e as luzes de uma cidade qualquer. E, nesse caso, o oceano preto ao redor, tão vasto que chegava a comprimir. Era tão lindo que, mesmo que não houvesse nada demais ali, a vida fluiu em mim. Mar, afinal, é vida em sua forma mais essencial, mesmo quando negro e rejeitado. E, se sou eu mesma mar, tenho que ser vida também, ainda que negra por dentro e rejeitada a cada passo.
Virei as costas para o horizonte que achei que estivesse me esperando e voltei, sentindo o vestido fluir lá embaixo, batendo levemente nas panturrilhas. Voltei para a areia, pesada e congelada, pensando que não quero ser a parte morta do mar, embora seja um jeito lindo de fazer parte dele – e de mim mesma, por consequência. Posso ter partes já mortas em mim, talvez muito mais do que partes vivas, mas ainda sou um pouco como as ondas que quebram violentas, esmurrando tudo com sua imponência. Elas estão protegendo algo, assim como eu. Por mais fraca que eu seja, sou de mim e de mais ninguém. Não pertenço nem mesmo ao mar. Quanta coisa eu já guardei esperando que um dia pudesse, por entre as frestas de um sorriso, deixar escapar a verdade. Mas não apareceu ninguém disposto a ouvir até o fim. A entender meu jeito de mar escuro, violento e protetor. Minhas maneiras de mar frio. Ninguém notou o fato de que só é frio aqui porque a luz esqueceu de chegar.
Sentei na areia e fiquei pensando em tudo o que já vivi, em tudo o que amei e perdi, em tudo o que a vida arrancou de mim. Percebi que você sempre vai estar em mim, mesmo que não esteja comigo. Como as conchas estão no mar, viajam para a areia de vez em quando – empurradas pela própria maré, como se o mar tentasse inutilmente se livrar delas -, mas acabam voltando, puxadas pelas ondas mais tranquilas. Você sempre estará aqui, em meu peito ora fraco, ora forte, que não baixa a guarda e luta incessantemente em busca de aquecimento para deixar de ser tão frio, de luz para deixar de ser tão escuro. Para ver se, de repente, alguém o aceita assim mesmo, com as ondas bravas que logo depois viram apenas ondinhas fracas e cabisbaixas porque não tem intensidade e respeito nenhum. Ondinhas que são apenas carentes de pés que façam mais do que chutar a água em uma brincadeira praiana. Sou cheia de ondas de todos os tamanhos e talvez o problema seja esse. Se eu fosse só aquela água rasa que molha a areia e volta ao seu lugar, talvez alguém aceitasse ficar. Mas sou mais do que isso e pelo menos eu já me aceitei assim, com todas as complexidades do mar onde marujos não se arriscam a navegar. Sou a mistura mais sincera de relutância, saudade, solidão, calmaria e amor impossível. Tudo ao mesmo tempo, como uma receita que deu errado desde o começo, mas que alguém insiste em continuar tentando acrescentar ingredientes. A vida faz isso; ingrediente novo dá errado, vai embora. Um segundo dá errado também, vai embora. O tempo todo.
Vestido molhado sujo de areia, pele grudenta e olhos tristes, levantei e fui embora, deixando o mar de mim para trás. Como sempre, fui embora. É o que sei fazer de melhor, como as ondas pequeninas que voltam até a solidez à qual pertencem. Eu vou embora, porque sou tão inundada de mágoas que não adianta querer ficar. Vou embora porque é assim que sou. Prefiro não ficar quando sei que o adeus é inevitável. E sempre é. Em breve você não vai mais pensar em mim todos os dias, seu “oi” vai escassear e seu sumiço vai doer. E, antes que isso aconteça, eu parto em silêncio. Meu silêncio é o barulho mais alto e ensurdecedor que alguém poderia ouvir, mas ninguém ouve. Ninguém percebe que, por trás de toda essa atitude forte de mar, há só uma ou outra marolinha frágil, delicada e sofrida. Parto para longe e parto o coração ao mesmo tempo, mas junto as malas e vou embora. Mesmo que, no nosso caso, sejam malas imaginárias e poéticas de memórias. Não é isso que o mar à noite é, afinal, além de vida escondida? Uma licença poética, um conjunto de memórias, uma fotografia na parede. Nada mais do que isso.
 
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