quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Garrafa de champagne.

É tarde e todo mundo já foi dormir. Sobrei eu, jogada no sofá com uma garrafa de champagne na mão e o vestido longo incomodando um pouco. Olhando para o nada e pensando em tanta coisa que nem sei dizer ao certo o que tenho em mente. Todo natal é assim. O povo reunido, comida boa, muita bebida e muita risada. Minha família não é dessas que se descabela nos encontros habituais de final de ano. Pelo contrário, somos cheios de amor e alegria. E até aí tá tudo bem. Eu capricho na maquiagem, arrumo o cabelo e escolho uma roupa bacana para ficar sentada na sala da casa da minha vó; minha família merece. Depois todo mundo vai dormir. E eu fico. Eu sempre fico.
Acontece que final de ano é uma época meio torturante pra mim. O natal me dá uma angústia impossível de explicar – embora, no fundo, tenha uma explicação muito plausível. Na virada de ano é a mesma coisa. Quando todo mundo vai dormir, algo se abate sobre mim. Não é só melancolia; é um caldeirão de tristezas, mágoas e arrependimentos de todos os anos. É um vazio brutal e cru. A cada ano que passa, um pouco mais é acrescentado à mistura. E ela chega com tudo. Eu encaro do jeito que dá. Me jogo no sofá com a tal garrafa de champagne, pronta pra algumas horas de solidão e uma espécie de desafio interno. É claro que, a essa altura, já não é mais a primeira garrafa. O telefone não toca, exceto por uma ou outra mensagem chegando. Nada demais.
Inconscientemente eu sei que fico com os olhos meio vidrados e distantes. Não dá pra esconder tudo o tempo todo. Eu devo ter passado a maior parte da minha vida tentando responder meus próprios problemas e criando ainda mais perguntas. Nunca busquei os métodos certos, tenho uma mania absurda de deixar tudo piorar achando que vai melhorar por conta própria. No final do ano esse tipo de coisa me acerta como um soco. Vem uma vontade de chorar, uma agonia, um peso no peito tão grande que parece que meu coração vai arrebentar.
O problema é que eu não sei o que é. Não sei se é solidão, falta de objetivo ou de amor. Talvez de amor-próprio mais até do que de outrem. Não sei aonde se cria tanto vazio. Não importa a situação em que me encontre, no final do ano o amargo engasgado na garganta é o mesmo. Realmente não sei e não tenho nem ideia de como começar a mudar. De quais caminhos traçar. Eu estudo, mas talvez devesse estudar mais. Não sei exatamente do que gosto... Ou mesmo de quem gosto. Tenho a vontade eterna de não fazer nada o dia todo. Se eu tivesse dinheiro, confesso que não sei se estaria passeando pelas ruas de Paris e fazendo pausas para cafezinhos ou se ficaria enfiada no meio dos cobertores para sempre.
Há algum tempo eu parei de me importar. Nesse natal eu não chorei. Talvez chore no réveillon, não faço ideia. Mas no natal eu não borrei a maquiagem. Só fiquei sentada, olhando para o céu lá fora através da janela grande da sala, pensando em um monte de gente e em ninguém. Em tudo o que quis ser, no que já fui, no que não consegui nem chegar perto de ser. Devo ter piscado algumas vezes, mas robotizei meus movimentos até a garrafa ficar vazia. Entre um gole e outro eu sempre acabo entendendo algumas coisas. Como o fato de que, nesse exato no momento, não há uma pessoa sequer no mundo que eu realmente ache que me faria algum bem. Que me traria algum conforto. Não tem ninguém em quem eu gostaria de me aninhar (e olha que eu sou pessoa que gosta do aconchego de um bom abraço). Não sei se isso é pra sempre. Talvez eu não tenha sido construída para o amor. Sei que já amei antes, mas não sei se sou capaz de amar de novo. Espero que sim. O problema maior é que parei de me importar. Perdi a paciência pra dezenas de coisas e passei a desistir muito fácil das pessoas. Se elas não cuidarem do afeto como eu cuido, esqueço. Não me importo. Eu não era assim e isso tem um lado bom, mas também tem um quê de terrível. Já fui de me entregar ao amor. Corpo, alma, tudo de mim entregue. Eu era cheia de coragem para isso. Hoje não tenho nem muita vontade de passar número de telefone. Não é só o medo da decepção e dos desamores, eu acabei ficando com preguiça de começar qualquer coisa. Eu era cheia de ondas gigantes de amor e entrega e hoje não passo de chuva rala que só deixa o tempo ainda mais abafado.
Quando subi a escada para dormir, parei em frente ao espelho e enxerguei meu desespero palpável. Um “socorro” tão grande estampado na cara que seria difícil ignorar. Fiquei encarando meu fantasma medíocre, imaginando onde estariam minhas lágrimas. Eu prefiro chorar. Prefiro sentir esse mundo horrível saindo de mim, apertando vísceras e me espancando por dentro para fugir. Mas dessa vez ficou tudo ali, batendo e martelando nos mesmos pontos; uma dor muito mais excruciante do que quando se bota pra fora. Vomitar sentimentos até que faz bem. Esse estado de sufocamento é muito pior.
São todas e tantas coisas. Eu vou seguindo com minha fotografia instantânea de sorriso amarelo dizendo que tá tudo certo. É mentira, não está. Estou implodindo, colapsando, enlouquecendo aos poucos. A cada dia mais um pedaço se esvai, como sangue escapando por uma ferida aberta. A verdade é que, no fim, fico largada no sofá sozinha porque sou sozinha mesmo. Cheia de tantas coisas, mas ainda mais vazia de outras. Sobra densidade, falta saber ser leve. Sobra liberdade, falta saber o que fazer com ela. Sobra amor, mas falta também. Fico, então, sozinha, sem saber ao certo quais são minhas prisões. Eu, minha garrafa e o vestido que incomoda. Até surge um sorriso em algum momento, quando estou quase pegando no sono. O natal acabou e eu sobrevivi de novo. Estou cada vez mais desfalcada, mas ainda viva. Ainda sinto cócegas nas entranhas, seja pra rir ou pra chorar. Sou como a garrafa de champagne borbulhante; vivo querendo transbordar, mas acabo apenas esvaziando. Sobra só uma gota lá no fundo dizendo que ainda dá pra encarar mais um pouco. E, de gota em gota, vou vivendo. Talvez não como deveria, mas do melhor jeito que posso.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Não é paixão, é maturidade.

Esta semana me perguntaram se eu estava apaixonada. Fiquei surpresa; não, não estou. Questionei o motivo e a pessoa me disse que era por causa do cabelo novo. Que eu tinha dado um “up” no visual, estava mais bonita e com um ar mais alegre e confiante. Dei risada, agradeci e respondi que não, definitivamente não tinha nada a ver com paixão. De fato, se mudei algo para a melhor foi justamente porque soube desapegar um pouco daquilo que mais me fazia mal. Das azias, enjoos e mal-estares que vêm das coisas que não posso consertar porque não estão ao meu alcance. Deixei de lutar por amores fracassados e passei a lutar somente pelo que vale à pena.
Me peguei pensando em quem me tornei. Não, não estou apaixonada, apenas convicta dos meus ideais. Posso não saber o que quero fazer do futuro e isso é um ponto fraco, sim, uma resposta que eu já deveria ter em mãos. Mas hoje sei muito bem pelo que me ergo e quais bandeiras levanto comigo. Levei uma picada de aranha na canela enquanto tentava resgatar dois gatinhos da pocilga em que foram abandonados. Passei horas debaixo de um sol de torrar tentando ganhar a confiança deles para trazê-los embora comigo. E consegui. Ficaria mais tempo se fosse necessário, suada e com as pernas doloridas. Hoje são dois animais a menos dormindo na rua. Enquanto lá fora está vindo tempestade, eles estão quentinhos e dividindo um abraço e um cobertor. Eu sou dessas que preferem os animais às pessoas. Cansei de explicar esse amor e nem acho que deveria. Esse é meu primeiro apelo: parem de colocar jaulas no amor. Ele não precisa fazer sentido, não requer conceituações, dispensa com prazer definições. O amor deve ser tão livre quanto nós.
Eu, que cresci cercada por amigos homens, hoje sou feminista. Sossegada, sem placas, mas engajada na conquista da igualdade de gêneros, na independência, no respeito. Não somos melhores, não queremos cortar a garganta dos homens que enxergamos pela frente, não pedimos nada além do que é nosso direito. Mas não se atenham às minhas palavras, existem muitas ativistas maravilhosas que podem explicar como dois e dois são cinco muito melhor do que eu. Passamos há muito tempo da concepção paranoica e objetificada de somas exatas – pelo menos na subjetividade da vida. Ok, com tudo que costumo escrever pode até parecer que sou dependente de homem, amor e outros entorpecentes intelectuais. Mas a verdade é que eu apenas romantizo o mundo. Na realidade só dependo de mim e estou em paz com a ideia da força que carrego. Entendi que nós podemos o que quisermos, inclusive não querer. Eu sou mulher. E, caramba, nunca gostei tanto disso. Aliás, em pleno século XXI ainda existem milhões de "matérias" sobre como conquistar um homem. Como devemos nos portar, o que devemos fazer, o que não devemos fazer, que maquiagem eles gostam, que tipo de roupa... Sério mesmo? Um grandessíssimo foda-se pra tudo isso. Vou me portar como quiser, fazer ou não fazer o que quiser e usar a cor de batom que bem entender. Se o cara curtir ou não é problema dele. Se isso vai conquistá-lo ou não é algo que não está nem remotamente entre as minhas preocupações. Isso não significa que não vou ser educada, agradável e ter bom senso. Significa apenas que farei tudo isso sem pensar se é o que está listado como “comportamento para ganhar um cara”, mas sim porque faz parte da minha personalidade.
Passei muito tempo em um relacionamento que me diminuía e me anulava. Dei o máximo de mim e tentei ser a melhor namorada possível, quando eu deveria ter focado em ser a melhor pessoa que minha integridade precisava. Permiti humilhações e traumas que talvez esse cara, que realmente se acha o senhor perfeito, não perceba que causou. Porque, no fim, a errada fui eu. Ou era o que parecia na época, ao menos. Se eu voltaria para esse amor hoje? Não sou de ferro e precisaria de uma força de Jessica Jones pra dizer não a ele e sim a mim, mas sei que conseguiria. Agora eu conseguiria. Porque agora eu entendi que qualquer coisa que venha será melhor do que o que passou, graças à força que aprendi a ter. Ou que apenas demorei a descobrir que tinha.
Depois de muitos anos acuada, hoje eu também acho que precisamos, sim, falar sobre a violência contra a mulher. Falar muito, aberta e exaustivamente, até entrar na cabeça das pessoas que essa é uma triste realidade. Ainda banalizada, mas uma realidade. Quando você menos espera já apanhou, já foi estuprada, já te abalaram física e psicologicamente. E se reerguer de qualquer forma de violência é uma tarefa árdua. Amor e submissão são coisas totalmente diferentes. Nenhum tipo de abuso é admissível. Nenhuma forma de agressão deve ser menosprezada. Nós podemos e devemos ter voz, especialmente porque muitas mulheres não têm. A gente nem imagina, mas elas precisam de nós. Eu já precisei. Talvez, no fundo, ainda precise.
Me disseram inúmeras vezes que eu não era capaz, que não conseguiria, que não daria conta; acabaram me convencendo. Mas apenas por um tempo. Parece que minha força não estava no cabelo, afinal, ao contrário de Sansão. Minha força reside dentro de mim, em um âmago muito mais profundo. Hoje eu tenho coragem para enfrentar obstáculos – muitos que minha própria mente faz questão de impor -, defender meus ideais e lutar pelo que acredito. Hoje não tenho vergonha de admitir que tenho depressão, ansiedade e síndrome do pânico e que é absolutamente horrível conviver com tudo. Hoje não sou mais capaz de silenciar minha voz para tentar em vão impressionar alguém que jamais me aceitaria do jeito que sou. Meu timbre é alto e ressonante e é assim que eu quero que seja. Sou pró tantas coisas que é mais fácil dizer que sou pró liberdade. Pró amor em qualquer de suas formas, pró família como quer que ela seja, pró diversidade, pró saiba-ser-único-e-não-se-esconda-em-um-personagem. Amor livre. Espírito livre. Decisões pessoais. Laicidade para nós mesmos, já que a do Estado não funciona. Já tem tanta coisa errada no mundo; homofobia, racismo, julgamentos, fofocas, machismo, bullying, dedo apontado para o outro, superioridade, maus-tratos contra animais, idosos e crianças... É tanta falta de empatia e compaixão que cada um disposto a defender algo precisa estar pronto para entrar num campo de batalha de dez contra um.
A coisa mais linda que eu vi essa semana foi minha prima, que tem dezesseis anos, falando sobre assuntos pesados e complexos como uma verdadeira mulher feita. Defendendo as minorias e apoiando causas. E, vejam só, para isso nem precisamos erguer o tom de voz, basta buscar o melhor dentro de nós. Bondade e gentileza são coisas impagáveis. Fechar os olhos para tudo o que está errado no mundo ou se juntar ao coro de vozes que difundem ódio gratuito não leva a lugar algum. A não ser, é claro, que você queira conviver com gente que não aceita nada diferente do seu umbigo (ah, ele, o centro do universo), do seu mundinho pequeno e babaca, da sua visão fechada por um antolho invisível. Mas, se for o caso, "você não tinha nem que estar aqui", como dizem.
Vocês ainda vão ler muita coisa sobre o vício do amor, sobre precisar de alguém, sobre decepções e amarguras. Mas esta não sou eu. Eu sou apenas a mulher por trás das crônicas. Aquela que toma um vinho quando dá na telha e cerveja com os amigos, escreve o que quer escrever e corta o cabelo do jeito que o humor mandar, sem tentar agradar qualquer pessoa que não seja ela mesma. E, principalmente, sem estar apaixonada. Muitas tristezas fazem parte da minha história e, sim, influenciam no resultado do que eu crio. Mas eu não sou só isso. Levei muito tempo para entender e aceitar que essa é apenas uma parte do todo. Aprendi a mudar por mim, porque mereço mudanças. Eu posso ser o que, quem e como eu quiser. Temos que ser nossos próprios heróis porque, no final das contas, ninguém vai lutar nossas batalhas por nós.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Ele e ela.

Ela foi comprar um rímel e acabou saindo da loja de cosméticos com vários tons de batons e muitos pincéis. Ele queria um terno cinza, para ser original, mas acabou optando pelo preto mesmo. Ela queria cursar uma faculdade, mas escolheu outra. Ele queria deixar o cabelo crescer e usar coque, como tanto se tem visto por aí, mas mandou cortar rente como sempre. Ela era tímida e reclusa. Ele, um galanteador. Ela amava banhos de chuva, céu estrelado e praia deserta ao anoitecer. Ele achava tudo isso uma frescura. Ela tentou o amor inúmeras vezes e nunca deu certo. Ele também. Ela desistiu. Ele não.
Ela tinha olhos desesperados e tristes. Ele tinha os olhos mais cheios de doçura, esperança e brilho. Uma coisa eles tinham em comum: os olhos nunca mudavam, aprontasse o que quisesse a vida. Se fosse florida, os dela continuavam desiludidos e descrentes. Se fosse terrível, os dele continuavam dispostos e enérgicos. Se os olhos realmente dizem muito sobre as pessoas, os dele exalavam coragem e vontade, mas os dela expeliam cansaço e desistência. Ele era intensidade; ela, serenidade.
Ele sempre falava com o coração, enquanto ela fazia o possível para proteger o que ainda restava do seu. Ela gostava de inverno e vinho; ele até curtia vinho, mas preferia o verão. Ele vivia amores, sim, talvez até demais. Ela não vivia nenhum. O fato é que ele se contentava com os meros fascínios superficiais. Ela preferia a melancolia das boas músicas e livros a qualquer coisa que fosse rasa. Ele era a favor de toda e qualquer experiência. Ela, com o passar dos anos e tombos, tornara-se seletiva. Ele acreditava na história de que o mundo tem uma profusão de pessoas e possibilidades. Ela preferia acreditar que, geralmente, basta uma pessoa que se destaque dessa multidão.
A fila para ele sempre andava; ela preferia manter a sua estagnada. Ele não tinha medo de amores errantes que acabassem abrindo novas feridas; ela tinha medo até mesmo daquilo que já estava cicatrizado. Ele vivia abertamente e com paixão pela vida, enquanto ela raciocinava cada passo. Ele cuspia palavras porque acreditava que os sentimentos devem ser livres. Ela engolia a maioria dos seus, deixando tudo por dizer e acabando por se afogar em seu próprio mar de palavras não ditas. E, é claro, em toda a infelicidade que vem junto com elas. Essa era a maior e fundamental diferença entre os dois: ele era genuinamente feliz (ou, pelo menos, assim acreditava), enquanto ela apenas fingia sorrisos.
Ela se acostumou a permitir a destruição interna, a receber restos de amor, a ter aquela sensação de estômago revirado por tudo que soava errado o tempo todo. Ele tomava antiácidos para isso e seguia em frente. Ela colocava o silêncio seguro em um pedestal. Ele gritava para o mundo o que achasse necessário e, às vezes, até um pouco mais do que isso. Ela sentia seu brilho diminuir a cada dia, enquanto ia morrendo aos poucos por tudo o que não conseguia extravasar nem transpor. Ele brilhava cada vez mais. Ela dizia não para quase tudo, mesmo que depois se arrependesse. Ele dizia sim para quase tudo, mesmo que depois se arrependesse. Ela era sozinha, mas jamais tentou disfarçar sua solidão. Ele era sozinho – embora jamais fosse admitir - mesmo cercado de gente. Eles eram opostos, mas ao mesmo tempo semelhantes, cada qual à sua maneira. Na extremidade absoluta dos sentimentos não é possível encontrar paz.
Talvez, se eles tivessem se conhecido, ela poderia ter visto no fundo dos olhos dele aquilo que não encontrava mais em si: coragem. Coragem para enfrentar o espelho, a vida, o amor e o mundo. Autoconfiança. Talvez tivesse reacendido a faísca em seu olhar opaco. Talvez tivesse aprendido com ele que o amor-próprio é o melhor amor que pode existir. E, principalmente, que ele precisa existir para que outros amores tenham vez, até porque nenhum vem com garantia de duração. Por outro lado, talvez ele aprendesse com ela que a vida não precisa ser constantemente gritada a plenos pulmões. Que o que é superficial não é interessante por muito tempo. Que nem tudo precisa explodir para ser belo. Que olhos nos olhos podem ser muito mais do que palavras. O silêncio também tem sua poesia. Ele poderia ter reaprendido o sossego do amor tranquilo, do abraço longo, do escuro quieto em que os rostos se aproximam antes de dormir. Ela poderia ter lhe mostrado que um banho de chuva traz gargalhadas inesperadas; poderia ter se jogado em seu colo e ele sentiria que segurá-la contra si era a eletricidade que ele jamais experimentara antes – e aquela da qual nunca mais cogitaria abrir mão. Eles poderiam ter amado de verdade e, juntos, por mais redundante que seja, deixado de ser sozinhos.
Eles poderiam ter se encontrado e poderiam ter sido felizes. Poderiam ter construído o equilíbrio que faltava para ambos, somando impulsividade e cautela para chegar à felicidade. Mas a vida não corre assim e não quis assim. O vento carrega suas decisões. Ele foi para um lado e ela para o outro. Ele continuou gritando amores inconstantes e incompletos. Ela continuou no silêncio dos amores que não acontecem. Eles continuaram sozinhos, ele secretamente e ela de forma honesta. Opostos, exagerando cada vez mais em seus limites. A vida não os quis, ainda que, sem nem mesmo saber, eles quisessem um ao outro mais do que tudo. 

domingo, 15 de novembro de 2015

Agridoce.

Amar não é fácil. Se alguém disser que é está mentindo, ainda não amou de verdade ou é um desses poucos sortudos que ganham na loteria da vida. Partes do amor são fáceis. E lindas. Leves como uma pluma. Verdadeiros pores do sol em um cenário bonito. Mas amar exige muito daqui de dentro da gente. Amor precisa frequentemente de aposto - aquela explicação entre linhas para que o dito fique mais esclarecido e menos não dito -, mas quase nunca tem. E aí, nessa de amor difícil, eu estou dissolvendo. Tenho o sorriso dos loucos porque tudo o que você precisa para sobreviver é alguém que te ame de verdade e é coisa que não tenho. De verdade mesmo, do tipo que move montanhas e esmaga o que não está no lugar só para poder te amar. Você tem esse alguém; esse alguém sou eu, aquela que vai esperar por você até que o mundo não seja mais mundo. Tenho o sorriso dos loucos, mas, ao mesmo tempo, tenho mil motivos pelos quais você deveria voltar e ficar comigo para sempre. E poderia citar centenas deles, mas, no fim, o que importa é que seu lugar é ao meu lado. Então eu te diria para olhar para trás. É mais fácil olhar para frente, vislumbrar um futuro qualquer e tocar a vida, mas às vezes visitar o passado pode não ser uma ideia tão ruim assim. É no seu passado que eu moro. É aqui atrás, muito distante, que eu estou.
O amor não é fácil e você não está aqui. Sei que tenho que continuar, talvez até mesmo cuidar um pouco mais de mim, mas depois de te perder e chorar e esquecer de viver, tudo que tenho é desilusão. Parece até que vivi o bastante enquanto você esteve aqui e agora não é mais necessário; agora basta acordar e sobreviver. Eu amei como não se ama, como não se deve permitir amar. Amei com tudo de mim entregue a você e com todos os meus sorrisos sendo completamente seus. Amei com desespero, bom e ruim. Amei com pressa, com querer até a última gota de suor e o último pingo da nossa ilusão bonita. Amei com toda a dor mais intensa que um amor entrega. Sim, amei até as dores do nosso amor. Tudo. E talvez seja por isso que eu ainda ame, assim, com tudo de mim. Porque a perda não se vai. Amor e perda são sentimentos agridoces. A perda agora azeda será doce se um dia você voltar. O amor, antes doce, tem agora um estranho amargor residual. Minhas coisas ficaram para trás, perto de você. Suas coisas ficaram aqui. Lembretes de uma vida cheia de memórias. Não são apenas fotos e coisas para que recordemos um do outro. São partes de nós. Partes que jamais voltarão a não ser que fiquem juntas. Talvez seja por isso que o sentimento ainda esteja aqui, agridoce como é e como sempre tenderá a ser. Não existe amor de um gosto só. Amor não é fácil assim. Não se decifra com uma só garfada. Amor é paladar sofisticado. Nossa paixão ficou sem fim, sem cumprirmos todas as promessas que nossos olhos fizeram em silêncio no escuro e que nossas bocas procuraram também no escuro.
Estou carente de você. De tudo que o seu sorriso sempre representou. Não estou carente de pega daqui e pega de lá. Estou carente de ter alguém para quem cozinhar, para quem abrir a cervejinha de domingo, para quem sorrir meu sorriso mais enfeitado de veracidade. Carente dos seus olhos e da leveza que vinha com eles todos os dias. Do seu rosto que parece música. De ter com quem brigar. De ter por quem chorar. De ter besteiras para achar que fui magoada, só para no outro dia perceber que tudo o que mais quero não pode ser magoado. Porque amor não é fácil e é agridoce, mas é blindado, não se magoa e não se fere. A gente é que se machuca. O amor, quando é verdadeiro, fica ali, rindo e esperando que as duas crianças parem de pegar as pedrinhas no chão e tacar uma na outra para ver se machuca. Ou se a lancheira acertada na cara deixa um vergão vermelho. O amor fica rindo. Talvez nosso amor esteja rindo até hoje, contando no relógio quanto tempo o orgulho vai vencer, quanto tempo conseguiremos aguentar a solidão e a barra do silêncio. Estou carente desse amor brincalhão cheio de pegadinhas. Da sua boca destruindo meu juízo e tudo dentro e fora de mim. Da sua voz me dizendo coisas idiotas depois do sexo ou coisas lindas depois do amor. Dos seus braços me puxando para perto como um gesto automático de proteção. Eu, que sempre achei que me protegia tão bem sozinha, estou carente da proteção dos seus braços quando nada me ameaça além do escuro. Carente da sua respiração na minha nuca, do seu sono leve e do seu corpo quente tão colado ao meu quanto dois corpos podem estar. A solidão tem me abraçado com força a cada noite e andado ao meu lado a cada dia. Eu estou quebrada e dolorida, sem cura pela frente, mas aguentando as pontas.
Sem você eu sou só a metade de alguma coisa. Não sou metade nem de mim, apenas de alguma coisa disforme. De mim sou só um pouco, aquele tanto necessário para levantar da cama todos os dias pela manhã. Não sei viver se for só por mim. Se não tiver você do outro lado esperando por algo meu. Eu não sou poesia. Sou amor em forma de palavras porque nesse momento não sei ser mais do que isso. Mas sou amor de corpo inteiro e de todas as línguas quando você está aqui. Não o amor do “eu te amo”, mas o amor do “eu te amo para a vida inteira porque não há ninguém como você”. E tem horas que nem sei mais se sou eu que escrevo, que levanto da cama, que corro, que dilacero... Porque saudade é palavra que machuca só de soletrar. E então eu me sinto morta, destruída, sem uma parte sobrevivente sequer, como se estivesse soletrando eternamente a saudade e o seu nome. 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A pequena cama do escritório.

O silêncio é o grito mais alto de todos. Eu estou gritando o tempo todo, mas ninguém ouve. Provavelmente é melhor assim. Não importa quanto tempo passou; se foi um mês, um ano ou dez. Algumas coisas simplesmente terão, para sempre, a capacidade de nos fazer chorar, berrar e sentir a vida se esvaindo junto com a amargura das lágrimas por um breve momento. Algumas lembranças têm esse dom. Quem foi que disse, afinal, que todo dom é bom? Ou que toda lembrança é válida?
Pra tentar calar a intensidade dos meus próprios gritos calados, troquei de quarto por uns tempos. Não sei até quando, mas não aguentava mais respirar a atmosfera pesada e cheia de você, impregnada com seu cheiro e nossas lembranças. Foi no meu quarto que eu dormi no seu colo tantas vezes, que dei risada de coisas bobas, que te amei ensandecidamente. Foi lá que eu aprendi, talvez de forma errônea, que podia me entregar ao amor. Hoje, mesmo que nossas fotos e qualquer mínimo detalhe de nós dois estejam confinados em uma caixa bem guardada, meu quarto é feito de você. Tem seu rosto estampado em cada canto, seu nome, sua voz como uma onda etérea e persistente. Sua pele macia e quentinha espera por mim na cama, de braços abertos, em uma ilusão escancarada. No momento em que me deito, o frio é quase insuportável. Frio de solidão não há cobertor que aqueça.
Então, decidi me instalar por uns tempos na pequena cama do escritório. Uma cama de solteiro, cercada por estantes cheias de livros com outras histórias que não a nossa. Tenho dormido melhor; minimamente, mas já é alguma coisa. Você está aqui também, é claro; você está em todo lugar porque não sai de dentro de mim. Tenho pesadelos, você ainda me assombra, mas aqui sua presença não é tão forte. Aqui eu consigo respirar com um pouco menos de dificuldade, o ar é menos sufocante e rarefeito. Aqui, embora continue parecendo que duas garras estão esmagando meu coração, a dor é estável. Aqui me sinto em coma, enquanto lá, no quarto que já era nosso e não mais só meu, me sentia como a vítima estraçalhada em um acidente, que balbucia e não sabe dizer qual parte do corpo dói mais. Nesse quarto só caibo eu na cama. O fato de saber que estou confinada a um pequeno pedaço de colchão onde seu corpo não ficou marcado é embriagante. Um delírio de saudade que se ameniza por alguns instantes.
Mais do que qualquer outra coisa, na pequena cama do escritório estou cercada por todos os romances que nunca foram meus. Por tudo aquilo que deixamos de viver e que atormentou, enriqueceu ou aniquilou outros casais. Fictícios, mas mais felizes do que nós. Ou ainda mais imersos em tragédia. Tudo bem. Não é a nossa tragédia e isso já é mais do que eu poderia pedir à vida. Um breve descanso, uma dose de esquecimento momentâneo. Dores que não me pertencem. Dormindo aqui eu penso nas histórias de Elizabeth e Darcy, Winston e Júlia, Henry e Clare, Lancelote e Guinevere, Tristão e Isolda, Anna e Vronsky, Hazel e Gus. Até mesmo Heathcliff e Catherine e Werther e Charlotte parecem ter construído um final mais consistente para si do que o nosso. Fomos cheios de falhas e desencontros, ricos em amor e pobres em verdade e resiliência. E aqui esses espíritos saem das páginas e tomam conta de mim até o sono chegar. Pode parecer loucura, mas você repetiu tantas vezes que eu era louca que talvez estivesse certo, afinal de contas. Romeu acabou de me dizer que posso fechar os olhos e dormir. Ele e Julieta cuidarão do meu coração por algumas horas. 
Eu me apego aos livros que leio, não acho que um dia conseguiria vendê-los ou doá-los. E, entre tantos outros motivos, um deles é o fato de que cada pequeno conjunto de páginas me recorda algo que não somos nós e me afasta do nosso próprio livro não escrito. Do colchão que foi comprado quando você chegou. Dos abraços que viraram mera saudade. Das coisas que começaram a perder a forma. Da nossa história sem final, guardada para sempre na gaveta de um escritor preguiçoso que decidiu que alguma outra ideia – possivelmente clichê e com um elemento sobrenatural – valia infinitamente mais o esforço de ser explorada.
Resumindo, troquei de quarto e de cama por uns tempos. Estou no minúsculo escritório e toda noite parece que vai funcionar. Quando encosto a cabeça no travesseiro, vem a esperança de que será uma noite melhor e mais tranquila.  Mas sempre chega a hora da madrugada em que os personagens voltam a dormir e sobra só aquele do qual eu tanto tento fugir: você. É quando eu percebo que te escrevi muito mais do que gostaria e que mudar de cama não vai mudar o quanto você se impregnou em mim. Cada personagem mora em sua própria história, afinal. Por mais que eu queira fugir e procurar por outras alternativas, a verdade é que só existe você. Escrito, descrito, reescrito e manuscrito de todas as formas possíveis. Mesmo que hoje você já viva em outro livro, no meu o personagem é você. Meu par, minha história mais linda e triste, minha vida... Independente do cômodo em que eu tente dormir.

sábado, 12 de setembro de 2015

Epílogo.

Um poema. Uma canção. Um sonho. Uma tempestade. Nada é isolado. A vida não nos permite viver uma coisa de cada vez. Talvez breves momentos únicos, mas quase sempre terremotos bipolares de grandes tristezas e pequenas alegrias. Beleza e destruição, sol e temporal. E, no meio disso tudo, a parte mais difícil é deixar algo para trás. Deixar ir. Não é banal abandonar um amor, mesmo quando ele já não é mais nada daquilo que nasceu para ser. 
Amor é segurança, nós é que aceitamos o inseguro. É conhecer, aprender, aceitar. É respeito, ainda que nossa tendência seja compreender a rispidez. É insolente só até o ponto em que é divertido. É uma locomotiva lenta buscando um destino bonito, não velocidade que termina em acidente fatal. É muito, mas nos conformamos com pouco. É troca de curativos, não sal na ferida aberta. Amor é companhia, mas se traveste de solidão. É ter alguém que nos dê a mão quando tudo parece perdido, embora aprendamos a aceitar que a mesma mão pode se fechar logo ali ao lado. Amor é resiliência, especialmente quando tudo é obstáculo. Amor é vida, mas a dor do fim é morte brutal. Sangramento lento e agonizante. Tudo depende de até onde você está disposto a ir, mas nem sempre vale à pena ir tão longe assim. Eu caminhei por tanto tempo que já nem sei qual distância percorri. Não sobrou nada ao redor além da cegueira.
Com o passar dos anos, aprendi a criar personagens pelos quais me apaixonei. Todos com as suas características, seu jeito de ser. Defeitos e qualidades. Quando você disse adeus, sobrou só a escrita, aquilo que eu podia contar a mim mesma sobre nós, facetas suas que eu era capaz de colocar no papel. Mas, até que enfim, descobri qual é o meu limite. Até onde sou capaz de ir por você. Esperei muito antes de cruzar a linha que me diria com firmeza para desatar o laço que só eu ainda amarrava. Dei esse último passo hoje, depois do coquetel de remédios, entre uma taça e outra de vinho. Caminhei por um fim sem recomeços.
Não vou dizer que está tudo bem. Que não doeu ou não vai doer por muito tempo. Vai, é claro que vai. Você não foi qualquer amor; foi grande. Fechar as portas desse mundo parece, nesse exato momento, como se eu estivesse me impondo um suplício excruciante. É um cenário horroroso sobre o qual não sou capaz de escrever. Não sei por quanto tempo vou me sentir ferida e arisca, dolorida e maltratada pela minha própria decisão, mas sei que era tudo o que eu poderia fazer. Não dava mais pra te amar no escuro do quarto, com a solidão como companhia toda santa noite. Era impossível continuar carregando o peso de um amor sem resposta. Tudo na vida precisa de um encerramento. Da crônica para a qual não se consegue pensar em um bom último parágrafo às crônicas da vida real, essas que somos forçados a viver.
Suas imagens vão me perseguir para sempre, até porque não há no mundo quem controle o fantasma do amor. Mas foi isso que você se tornou: um fantasma que eu amo, mas não consigo abraçar porque não se materializa. Você se tornou o rosto da dor. E, por mais que eu queira que tudo seja diferente, amor não é isso. Não é olhar no espelho e enxergar as olheiras por noites mal dormidas, saudade, desespero. Amor é aquilo que está lá fora, longe do meu alcance. O romance do qual não sou merecedora. Venci a cota de amor que a vida me reservou. E, por mim, tudo bem. Quero mesmo um tempo desse martírio que usa fantasia de beleza. Quero decepar o que não me deixa fechar os olhos. Quero a tranquilidade de saber que fui capaz de te botar pra dormir para sempre depois de uma última cantiga de ninar.
Um poema. Uma canção. Um sonho. Uma tempestade. Quando eu era criança e a madrugada trazia um temporal, meu esconderijo era embaixo da mesa de mármore da cozinha. Em um apartamento com portas e janelas de vidro, sempre me pareceu possível que a fúria da natureza destruísse tudo e estilhaços voassem pelos ares. Então eu ficava quietinha embaixo da mesa, um silêncio que contrastava com o barulho das trovoadas. Hoje não me escondo mais. Encosto as mãos na porta da sacada e sinto o vidro balançar com a ventania. Tenho medos mais densos do que essa possível explosão que pode nunca acontecer. Eu já sobrevivi à nossa explosão. À nossa ventania tortuosa e barulhenta. Minha vida já estilhaçou muito antes da janela do quarto. Se tivessem me soprado aos ouvidos que sentar embaixo da mesa, em silêncio, teria salvo nosso amor do temporal que nos destruiu, eu teria obedecido. Teria até mesmo me trancado no banheiro por quanto tempo fosse necessário até o sol ressurgir. Mas acontece que, por mais triste que seja, algumas coisas não podem ser protegidas, afinal. E nós somos um belo, estúpido e melancólico exemplo disso.
Escrevo hoje nosso epílogo. Dou esse último passo. Cruzo essa linha com esperança de que o fim saiba ser fim e com a determinação de te deixar para trás, preso em um passado lindo, mas cruel demais. Entendo nosso amor como algo que se desenvolveu de forma muito diferente do que deveria. E espero, do fundo do coração, não sucumbir ao anseio de um novo prólogo sobre nós. Não merecemos um novo livro. Esse é nosso ponto final. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Olhos de oceano.

É possível que seus olhos não sejam tão azuis quanto a memória me faz crer, no final das contas. Tudo que tenho hoje são lembranças e, depois de algum tempo, elas acabam envoltas em névoas. Lembro das pequenas ruguinhas que apareciam no canto dos seus olhos quando você sorria e como você os esfregava e franzia a testa quando estava nervoso ou destruído. Lembro da sua pele, do seu toque, dos seus cabelos entre meus dedos. E dos seus olhos azuis. Ou seriam verdes? Castanhos? Não, tenho certeza de que eram azuis. Está tudo distante demais agora, mas a nuance ficou. No meio dos meus pesadelos sempre aparece seu rosto sério me encarando com aquela expressão de adeus. E os olhos azuis e tristes. Tão tristes que cada recordação quebra um pouco mais do que resta de mim.
Eu fui aprendendo aos poucos. Quando as semanas viraram meses e os meses viraram anos, passei a acreditar que você não voltaria. Como se um lampejo de racionalidade tivesse surgido depois de tanto tempo, entendi que não podia mais viver me segurando na corda praticamente arrebentada da certeza de que um dia estaríamos juntos novamente. O passar de mais de 27 mil horas me fez entender que você já está distante demais para um dia virar o volante e fazer o retorno. Toda essa ausência me obrigou a aceitar que, por mais que tenha sido amor, hoje é algo diferente. É saudade, melancolia, coração arrebentando, mas é também a calmaria da compreensão do fim. Você já ama outro alguém e eu estou aprendendo a respirar fundo e seguir em frente, ainda que sem paixão pela vida. Estou zangada, impaciente, niilista. Bebendo café demais durante o dia para sobreviver aos trancos e barrancos e vinho demais em algumas noites para tentar aplacar com a tontura a falta de você. Há noites em que ainda choro também, confesso. Às vezes são lágrimas esparsas em um rosto catatônico, outras vezes é um choro compulsivo e soluçante, como se estivesse escapando do mais íntimo de mim. Essa tristeza absurda e implacável me corrói a cada dia, mas hoje, depois de travar batalhas nas quais sempre perdi, acabei fazendo uma trégua comigo mesma. Se hoje sinto falta de alguém mais do que de você, é tão somente da pessoa que eu era ao seu lado. Mas não é de todo ruim. Talvez um dia eu possa ser melhor sozinha do que jamais fui sob a sua sombra.
Nas mais absurdas situações, tudo em que consigo pensar é no pousar suave e certo que seu olhar tinha sobre mim a cada instante. Como te olhar por alguns segundos e sentir a eletricidade da sua presença foi a melhor parte da minha vida. Hoje já consigo colocar as coisas em perspectiva: basta saber que você me amou um dia. Ter um mundo nosso para lembrar, poder pensar nos seus olhos e em como tudo isso um dia foi meu será para sempre a coisa mais importante que aconteceu na minha vida.
Hoje eu acho que consigo seguir em frente, vacilante e com o plácido caminhar de quem não sabe direito para onde vai, mas não se importa muito. Seus olhos sempre estarão comigo, assim como o amor adormecido em algum canto onde não se machuque e também não possa me machucar demais. Te amei tanto que por muito tempo pareceu impossível admitir outra coisa que não fosse a saudade de você. Ainda é difícil assimilar que encerrar esse capítulo da minha história não significa necessariamente encerrar também o livro. Pode ser que nas próximas páginas continue tudo branco ou com borrões de solidão, mas lá na frente pode haver algo mais. Outro par de olhos, quem sabe mais azuis e mais belos que os seus. Ou verdes, castanhos, pretos, comuns. Tanto faz. Apenas um par de olhos que não vá embora.
Fui sincera com meu próprio amor e com você e isso já é um conforto. Expliquei todos os meus sentimentos e hoje aprendi que preciso respeitar os seus, que já não me incluem. Então vivo em silêncio e já não te espero mais. Já não creio que você um dia vá voltar. Não podemos forçar alguém a nos amar de novo e nem amar por dois, por mais urgente que nos pareça. Estou em paz com essa percepção agora. Entre a bagagem de lembranças que guardo do que imagino que foi um grande amor estão vários detalhes nítidos e outros desfocados, mas que existem com igual ternura. A sobrevivência me fez tentar esquecer e encher de precariedade os espaços preenchidos por você, mas o tempo me mostrou que o que eu vivi nem todo mundo tem a chance de viver. A autopreservação levou embora algumas de nossas linhas, mas você estará sempre aqui, mesmo que não volte. 
Posso já não ter mais certeza sobre o tom exato dos seus olhos, mas tenho certeza de que era amor. E acho que se eu me envolver em completo silêncio e escuridão, ainda sou capaz de recordar. Não, eles não eram mesmo tão azuis assim. Tinham um tom de oceano fechado e denso, pronto para a tempestade, rico em profundezas. Cheio de armadilhas. Um azul discreto e escuro, suave e intenso como você. Talvez não fossem os olhos mais azuis do mundo, mas eram, sem sombra de dúvida, os mais belos e doces. Os únicos que já me olharam com réstias de amor. Eram os seus olhos. Os do homem que eu amei até a última gota da minha sanidade.

domingo, 24 de maio de 2015

Só mais um dia.

Andei me questionando sobre amor nos últimos tempos. Eu, que nunca mais amei ninguém depois de você, fiquei com medo. Tinha me acostumado com a ideia de ser sozinha para sempre. Mas aí bateu um calafrio, depois de tanto tempo. E se eu cansar dessa solidão, o que será de mim? Eu, que já nem sei mais o que é ir jantar fora com alguém interessante. Que troquei qualquer vaidade por pijamas velhos e confortáveis. Que desaprendi a olhar com curiosidade para outras pessoas. Por enquanto a solidão me cai bem. Veste como uma luva. Sempre gostei de ter meu tempo, meu silêncio, minha taça de vinho ou xícara de café sozinha. Tenho minhas esquisitices e, cheia de defeitos, estou longe de ser linda ou um crânio. Mas tudo o que eu era fora da solidão, era com você. Sabia sorrir porque minha vontade de abrir os lábios vinha de você. Sabia encostar a cabeça no ombro, me permitir abraços, toques, carinhos. Hoje, mais nada. Desaprendi a ser amada enquanto aprendia a te guardar bem dentro de mim. Me fechei para o mundo ao mesmo tempo em que te fechava aqui, da melhor maneira possível, tentando preservar o máximo de nós.
Talvez seja bonito isso de querer lembrar de nós dois a qualquer custo. Talvez tenha seu valor não querer te expulsar de mim, embora só eu consiga enxergar. O problema é que machuca. Você pincela minha mente em grande parte das vinte e quatro horas do dia, sete dias por semana. Tempo integral. Estou exausta. Saudade cansa mais que maratona, lembrança do que não pode ser ensandece mais do que doença. Minha cabeça não aguenta mais, meu coração está ficando menor a cada dia e meu corpo não se sustenta direito. E, encarando o escuro do quarto, sempre sozinha, vem o medo. Porque, por mais que eu jamais vá te esquecer, não sei se aguento o frio de nunca mais ter um abraço com um pingo de amor e de quero-cuidar-de-você. Sou forte e sei tratar meus ferimentos, mas, às vezes, quatro mãos estancam melhor um sangramento intenso do que duas. Eu preciso de cuidado e admitir não é a parte difícil... Permitir é que é. Ou acreditar que um dia ainda haverá alguém. Não me assusta estar só, não sou dessas pessoas que precisam de companhia para se reafirmar. Meu medo é solidão eterna. É exteriorizar para sempre a forma como me sinto hoje. Nunca mais amar ou ser amada.
Depois que você partiu, eu não fui mais capaz de encontrar a moça em mim que até se achava bonitinha usando um batom colorido ou qualquer coisa assim. Eu me sinto nada e provavelmente não há sensação pior do que a de ser nada. Por enquanto estou de acordo com meu mundo vazio e sem graça, mas tenho medo de abrir os olhos em alguma manhã, depois da habitual noite escura e sem esperança e me sentir apavorada pelo que, por agora, já me acostumei. E se a solidão me desgastar? Me deixar mais dura, mais distante, mais retesada do que sempre fui? E se me fizer perder qualquer habilidade de carinho? Eu já não permito mais que me abracem ou toquem em meu ombro. Carinho no rosto, então, é desesperador. Não posso, não consigo, me enlouquece de pavor. Tudo parece irreal, nada é confiável e, se um dia eu sentir o tremor de um olhar que pareça honesto, acho que minha reação será fugir para longe. Isso é o que mais me apavora. O fato de ter erguido ao meu redor muros tão altos que ninguém será capaz de transpassar. Ou sequer se dar ao trabalho de tentar, porque o risco não vale à pena. Até eu desisti.
Tudo isso já me fez te odiar por um breve momento. Mas o ódio está tão próximo do amor que não fez diferença. Já amaldiçoei você, confesso. Hoje só amaldiçoo as madrugadas em que não consigo dormir porque o peito está queimando de dor. Amaldiçoo a mim mesma por ainda lembrar de você. Amaldiçoo o dia que está por vir porque será mais um cheio de incertezas e pesares. Tem sido uma vida com lema de alcoólatra em reabilitação: só mais um dia. Eu posso aguentar por mais um dia. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma porção de paz e um café.

Tanta gente com medo de estragar o cabelo quando o clima fica úmido e tudo o que eu quero é tomar um banho de chuva sem hora para voltar. Por tempo demais eu procurei a felicidade. Como qualquer ser humano fadado ao fracasso nessa busca incessante e insana por aquilo que nem sabemos se existe ou que forma tem, tropecei, caí de cara no chão, ralei partes de mim, esfolei outras tantas e só encontrei frustração. Felicidade não se procura e muito menos se encontra. Ela existe, sim, mas é uma dessas coisas que vêm até você quando bem entende. Não aceita visitas e não oferece chá, mas toma um café de bom grado na hora que lhe convier.
Eu não achei a felicidade e ela também não me achou ainda. O que acontece é que, depois de muito correr e perseguir a pobre coitada, eu agora consigo entendê-la um pouco melhor. Ela é sobrecarregada. Todo mundo quer felicidade, mas nem todos estão dispostos a aceitar que ela está nas mais ínfimas coisas. No sorriso daquele cara (ou daquela moça, se você for o cara), no abraço de quem você ama, no começo de um novo amor, em um sorvete bem cremoso, na cerveja gelada com os amigos, naquele dinheirinho gasto em algo só para você ou em algo só para você que não precisa de dinheirinho algum porque não pode ser comprado. Em uma viagem, tempo em silêncio, bilhete, mensagem, afago. Seja o que for, a felicidade está naquilo que te faz perder o fôlego por alguns segundos. A felicidade é apenas esse segundo, um único instante em que o mundo parece encaixar todas as suas peças confusas. Não dá para querer que o universo não bagunce o quebra-cabeça em um de seus terremotos. Não dá para esperar felizes-para-sempre sem sequer saber até quando o sempre vai durar. Não dá para exigir eternidade das coisas que nasceram para ser passageiras. O que dá para fazer é ser feliz naquele instante e torcer para que ele dure um pouco mais. Que o banho de chuva seja mais longo, que o amor não acabe abruptamente, que você não perca as fotos daquela viagem incrível. Que o que acalma não tenha pressa e que o que faz sorrir não escape com tanta facilidade por entre os dedos.
Quando cansei de buscar uma felicidade que não me pertence, comecei a procurar por algo diferente: paz. Desde que tudo despencou, desde quando eu me vi sem saber o que fazer porque aquele cara tinha ido embora, tudo virou loucura. Noites insones, avalanches de pânico e tristeza, um buraco sombrio o tempo todo. Essa área escura continua ali, mas pela primeira vez eu quero – de verdade – deixar algumas frestas de luz forçarem suas entradas. Quero sorrir por nada, fazer o que amo, estar com quem amo e, quem sabe, até mesmo reaprender a amar. Se eu acredito tanto que as pessoas não são iguais, deveria ser a primeira a entender que pode ser que a vida me dê um tempo em algum momento. Que, se parece que vai dar certo, talvez tenha chance de dar. Que pode ser verdade e não só mais uma piada de mau gosto ou pegadinha.
O fato é que as coisas podem deixar de acontecer a qualquer momento. Em um segundo você está olhando com ternura para quem você pensou que fosse o amor da sua vida e no segundo seguinte ele está indo embora. Tudo pode ser perfeito agora e um desastre amanhã. Aceitar a instabilidade nos torna intimamente mais estáveis. Compreender que somos brisas e que mudamos a cada sopro que nos arrasta para um lado diferente é entender que, para as coisas essenciais, não temos controle remoto. E que é justamente aí que mora a beleza e a cor da vida.
Hoje não procuro mais aquela felicidade estereotipada. Procuro a liberdade de um amor tranquilo, de poder ser quem eu sou, de tomar um banho de chuva e ficar uma bagunça por fora que combine com o que sou aqui dentro. A felicidade está em algo como uma xícara de café quentinho; a paz está em poder fechar os olhos, segurar a xícara, sentir o aroma, beber um gole e sentir que absolutamente tudo se aquece naquele instante. Só por alguns segundos, mas é isso mesmo. Café também esfria, assim como o amor. Nunca estaremos cem por cento quentinhos ou seguros. A graça está justamente nesse inconstante quente-frio-quente-frio e, desde que não fique morno e estático, estamos no caminho certo. É claro que o quentinho do colo de um amor singelo ainda me fascina, mas não pode haver urgência naquilo que não podemos inventar. Amor não é válvula de escape e, se não for real, é melhor ter a paz da solidão até ele chegar.  
Hoje eu só quero deixar acontecer. Esquecer que meus dois pés estão sempre travados lá atrás e tentar dar um passo a frente, mas só um de cada vez para não tropeçar. Quero deixar a vida ser vida, torcendo para que seja melhor. Não perfeita, apenas melhor. Hoje eu entendo que se a felicidade nunca chegar, se ela realmente tiver ido embora e só tiver sobrado um ruído, vai ficar tudo bem. Em algum momento vou descobrir a paz e é com ela mesma que vou viver. De olhos fechados, braços abertos e sem medo da bagunça. Eventualmente, tudo se ajeita. Afinal, você sempre acorda em algum momento crucial do pesadelo.
Esperei tanto por tantas coisas... Que os planos se realizassem, que aquele cara ficasse, que eu pudesse guardar a felicidade bem segura dentro de mim. Esperei ser feliz sem saber como lidar com o que sentia. A segurança me deixou mais insegura do que nunca. Agora não espero nada exato e isso é infinitamente mais saudável. Não tenho grandes planos e não sei aonde quero chegar, mas sei que o caminho precisa ter um pouco de planície além das montanhas; não dá para sofrer a dificuldade da escalada o tempo todo. Não sei o que vai acontecer, mas sei que não quero mais ser a covarde que não corre atrás dos sonhos. Eu quero correr. Na chuva. Me sujando. Sorrindo. Torcendo para que tudo o que quero viver seja maior do que todos os medos que sinto. Quero correr atrás do meu sonho com uma mão segurando a minha ou completamente sozinha, tanto faz. Porque meu sonho, nesse momento, é só alcançar um pouco de paz. E, de quebra, uma xícara de café.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Se eu te amar.

Se eu criar coragem e te convidar para jantar, você promete sorrir e segurar a minha mão só por alguns minutos? Tem sido difícil fugir da rotina enfadonha da vida, da solidão dentro da garrafa de vinho, do sofá vazio e da falta de amor. É mais difícil ainda aceitar que não poderei ser sozinha para sempre, esperando por algo que nem eu entendo. Insisto que não quero amar e repito que não quero amor, mas olhando para o seu sorriso tenho me dado conta de que estou mentindo para mim mesma. Então, se eu te convidar para jantar, você topa? E se eu aceitar me jogar, você se joga também? Não quero mesmo um amor que só venha ou só vá, precisa ser um que saiba andar nas duas direções.
Para que você possa refletir um pouco, anotei algumas coisas para te dizer sobre como será se, por acaso, eu te amar. Vou me arrumar às vezes e passar horas em frente ao espelho tentando ficar bonita porque você merece. Vou me arrumar de graça, mesmo que você nem sempre dê valor ou que nossos planos incluam apenas um filme e um Nespresso sabor baunilha. Outras vezes vou te receber vestindo meus pijamas mais velhos, meu rosto de ressaca, cansaço ou carência, torcendo para que você me ache bonita mesmo assim. Vou usar salto alto, mas também vou andar com os pés descalços pela casa, colocá-los displicentemente sobre o sofá ou no seu colo e esperar que você não se importe. 
Se eu te amar, vou te admirar pelo seu jeito de ser e por suas qualidades. Vou comemorar cada pequena ou grande conquista sua e ficar feliz quando seus sonhos se realizarem ou quando você conseguir algo que almejava muito. Não vou querer que você seja perfeito e, mais do que isso, vou saber aceitar seus maiores defeitos. Não sem antes brigarmos uma vez ou outra, é claro, porque não sou de ferro. Só peço que não me faça de boba. Você tem todo o direito de sair com os seus amigos, mas preferir o bar com eles todas as noites, em detrimento do aconchego do meu coração cheio de amor, é tortura. O segredo é respeitar a individualidade e, ao mesmo tempo, saber ser um só. Eu também preciso do meu espaço, então entenderei o seu. Isso se chama maturidade. Mas sumiços de uma semana não sustentam relacionamento algum. O diálogo é tão importante para a saúde de um amor quanto o olhar apaixonado no meio de uma tarde quente ou o carinho no escuro da noite.
Às vezes vou surtar, seja qual for o motivo. Um ciúme bobo, a maldita TPM, o jeito estranho com que você me olhou ou agiu em algum momento inoportuno. Mas vou me debruçar em todas as maneiras possíveis para tentar reverter o problema. Ou simplesmente pedir desculpas, também não tenho problemas com isso. Vou tentar corrigir meus erros, especialmente com as lições que aprendi no passado. Vou ser rabugenta de vez em quando, até mesmo insuportável. E você vai desejar nunca ter me conhecido, eu sei. Mas espero que, no fim do dia, você acredite que eu fui a melhor coisa que aconteceu na sua vida. 
Se eu te amar, muitas vezes vou chorar no seu colo e você não conhecerá os motivos. Não preciso desabafar, só um carinho no cabelo já está de bom tamanho. Em compensação, quando você precisar chorar eu estarei pronta para te receber, enxugar suas lágrimas, te abraçar apertado, fazer um cafuné e te beijar de leve até você reaprender a sorrir. Se eu te amar, vou cuidar de você, cozinhar seus pratos preferidos e fazer o possível para enxergar seus olhos brilharem de felicidade. Vou parecer uma palhaça, vou ser anjo e demônio em uma só pessoa.
Vou abraçar com vontade e nunca mais querer sair do abraço. Vou faltar na academia às vezes só para ficar esparramada na cama com você, no quentinho do seu amor. Vou saber apreciar o fato de que, com o mundo inteiro de gente lá fora, você escolheu estar comigo. Dormir comigo, cantar comigo, fazer nada, viver loucuras, aguentar minhas crises inevitáveis, confiar em mim e a acordar ao lado do meu cabelo despenteado e da cara amassada de todas as manhãs. Se eu te amar, nós viajaremos juntos, beberemos, riremos um do outro e do mundo. Você vai perceber que vou te olhar como ninguém jamais te olhou. Mas é que eu sou assim; enquanto te observo, provavelmente imersa em paixão, estarei longe, pensando em como seria o mundo se você não estivesse nele ou se não estivesse ao meu lado. 
Se eu te amar, prometo não fechar os olhos para as coisas boas e encantadoras, para os pequenos gestos que sempre aumentam o tempo de vida útil do amor. Já fiz muito isso e sei que é fatal. Prometo dar valor a tudo, mesmo que seja só com um esboço de sorriso se eu estiver em um dia ruim. Vou apreciar a leveza de estar com alguém como você e vou te querer sempre mais. 
Não vou te ligar porque odeio telefonemas, mas isso não significa que eu não queira contato, apenas que prefiro qualquer minuto pessoalmente e que até uma mensagem me deixa mais feliz do que um “alô”. Também não sou do tipo que liga se você não reparar no novo corte de cabelo ou se algo está diferente, desde que você perceba o quanto de mim estou te dando, o quanto estou entregando para que nosso amor funcione e como abrir mãos desses pedaços é difícil para mim. Me torno incompleta para nos completar, se for preciso. 
Sabe, continuarei achando alguns atores e cantores absurdamente lindos e não vou me importar se você for louco pela Angelina Jolie, Jennifer Lawrence ou Scarlett Johansson. Nada disso significa que eu te amo menos ou que você não tem olhos para mim. Demonstra apenas que confiamos um no outro. Aliás, vou demorar muito a confiar em você e já peço desculpas por isso. A vida me deixou desconfiada e machucada demais, mas sei que se eu te amar conseguirei fechar os olhos com paz em algum momento. Também vou demorar a me declarar e assumir que te amo. E talvez isso aconteça no momento mais improvável, em uma noite qualquer, sem nada especial acontecendo ao redor. Talvez venha do impulso, talvez do álcool, talvez do desespero de uma discussão. Não importa. Quando eu disser que te amo, será a coisa mais verdadeira que você ouvirá da minha boca pelo resto dos nossos dias juntos. Vou demorar a deixar o gelo derreter e as pedras quebrarem, sou meio dura na queda mesmo. Mas, quando aceitar que te amo, farei tudo o que estiver ao meu alcance para demonstrar. Farei de tudo para dar certo. Não me incomodo com pouca coisa, desde que eu não seja um segundo plano. Desde que você deixe claro sempre que vale à pena ficar, que vale à pena o esforço.
Não vou pedir mais do que você pode dar e espero o mesmo em troca. Algumas coisas são difíceis para mim. Na verdade, amar é difícil para mim, assim como aceitar amor. Então, para ser sincera, o que espero é que você tenha paciência comigo. Eu dirijo pelos caminhos do amor na mesma velocidade de quem está passando pela lombada da rua em frente a uma escola.
Se eu te amar, tentarei deixar tudo perfeito, mesmo sabendo que perfeição não existe. Não sou flexível em relação ao amor; se não amo, não amo e pronto. O sentimento não vai surgir só pelo fato de eu pensar: “ele é um ótimo cara, vida, deixa que eu o ame, por favor”. Para mim não serve alguém só para dizer que tenho estabilidade. Precisa ser amor... E amor não se encontra em qualquer esquina da vida. Precisa ser leve, mas leveza não se compra.
O problema é que o amor é tão escasso que eu já nem sei se acredito nele ou não. O que é preciso fazer para ser insubstituível? Como se tornar a pessoa certa quando você nem sabe como não errar? Como conseguir essa magia que é amar alguém e ter alguém que te ame da mesma maneira? Não quero amar de novo para descobrir tarde demais que era uma mentira. Não acredito em amor pela metade e não vivo de utopias. Por isso mesmo, se eu te amar, você terá a parte mais linda de mim: aquela que ainda acredita, que ainda sonha, que entende os erros como formas de crescimento e que ainda vê beleza na vida.
Se eu te amar, não pedirei nada em troca. Espero apenas que você aceite meu amor do jeito que eu souber entregá-lo e que me ajude a fazê-lo crescer. Que se entregue também, sem reservas e segredos. Que sinta prazer em ir me conhecendo aos pouquinhos, um detalhe por dia, enquanto eu aprendo e memorizo tudo o que amo em você. Que não tome proveito dos meus deslizes e do meu jeito trôpego de amar e que não machuque a parte mais frágil de mim, quase toda despedaçada. Que a gente vá desvendando o véu de nós dois em sincronia e colando os caquinhos um do outro. Se eu te amar, espero que você sorria e segure a minha mão. Só por alguns minutos... Ou, quem sabe, por toda uma vida.
 
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