quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma porção de paz e um café.

Tanta gente com medo de estragar o cabelo quando o clima fica úmido e tudo o que eu quero é tomar um banho de chuva sem hora para voltar. Por tempo demais eu procurei a felicidade. Como qualquer ser humano fadado ao fracasso nessa busca incessante e insana por aquilo que nem sabemos se existe ou que forma tem, tropecei, caí de cara no chão, ralei partes de mim, esfolei outras tantas e só encontrei frustração. Felicidade não se procura e muito menos se encontra. Ela existe, sim, mas é uma dessas coisas que vêm até você quando bem entende. Não aceita visitas e não oferece chá, mas toma um café de bom grado na hora que lhe convier.
Eu não achei a felicidade e ela também não me achou ainda. O que acontece é que, depois de muito correr e perseguir a pobre coitada, eu agora consigo entendê-la um pouco melhor. Ela é sobrecarregada. Todo mundo quer felicidade, mas nem todos estão dispostos a aceitar que ela está nas mais ínfimas coisas. No sorriso daquele cara (ou daquela moça, se você for o cara), no abraço de quem você ama, no começo de um novo amor, em um sorvete bem cremoso, na cerveja gelada com os amigos, naquele dinheirinho gasto em algo só para você ou em algo só para você que não precisa de dinheirinho algum porque não pode ser comprado. Em uma viagem, tempo em silêncio, bilhete, mensagem, afago. Seja o que for, a felicidade está naquilo que te faz perder o fôlego por alguns segundos. A felicidade é apenas esse segundo, um único instante em que o mundo parece encaixar todas as suas peças confusas. Não dá para querer que o universo não bagunce o quebra-cabeça em um de seus terremotos. Não dá para esperar felizes-para-sempre sem sequer saber até quando o sempre vai durar. Não dá para exigir eternidade das coisas que nasceram para ser passageiras. O que dá para fazer é ser feliz naquele instante e torcer para que ele dure um pouco mais. Que o banho de chuva seja mais longo, que o amor não acabe abruptamente, que você não perca as fotos daquela viagem incrível. Que o que acalma não tenha pressa e que o que faz sorrir não escape com tanta facilidade por entre os dedos.
Quando cansei de buscar uma felicidade que não me pertence, comecei a procurar por algo diferente: paz. Desde que tudo despencou, desde quando eu me vi sem saber o que fazer porque aquele cara tinha ido embora, tudo virou loucura. Noites insones, avalanches de pânico e tristeza, um buraco sombrio o tempo todo. Essa área escura continua ali, mas pela primeira vez eu quero – de verdade – deixar algumas frestas de luz forçarem suas entradas. Quero sorrir por nada, fazer o que amo, estar com quem amo e, quem sabe, até mesmo reaprender a amar. Se eu acredito tanto que as pessoas não são iguais, deveria ser a primeira a entender que pode ser que a vida me dê um tempo em algum momento. Que, se parece que vai dar certo, talvez tenha chance de dar. Que pode ser verdade e não só mais uma piada de mau gosto ou pegadinha.
O fato é que as coisas podem deixar de acontecer a qualquer momento. Em um segundo você está olhando com ternura para quem você pensou que fosse o amor da sua vida e no segundo seguinte ele está indo embora. Tudo pode ser perfeito agora e um desastre amanhã. Aceitar a instabilidade nos torna intimamente mais estáveis. Compreender que somos brisas e que mudamos a cada sopro que nos arrasta para um lado diferente é entender que, para as coisas essenciais, não temos controle remoto. E que é justamente aí que mora a beleza e a cor da vida.
Hoje não procuro mais aquela felicidade estereotipada. Procuro a liberdade de um amor tranquilo, de poder ser quem eu sou, de tomar um banho de chuva e ficar uma bagunça por fora que combine com o que sou aqui dentro. A felicidade está em algo como uma xícara de café quentinho; a paz está em poder fechar os olhos, segurar a xícara, sentir o aroma, beber um gole e sentir que absolutamente tudo se aquece naquele instante. Só por alguns segundos, mas é isso mesmo. Café também esfria, assim como o amor. Nunca estaremos cem por cento quentinhos ou seguros. A graça está justamente nesse inconstante quente-frio-quente-frio e, desde que não fique morno e estático, estamos no caminho certo. É claro que o quentinho do colo de um amor singelo ainda me fascina, mas não pode haver urgência naquilo que não podemos inventar. Amor não é válvula de escape e, se não for real, é melhor ter a paz da solidão até ele chegar.  
Hoje eu só quero deixar acontecer. Esquecer que meus dois pés estão sempre travados lá atrás e tentar dar um passo a frente, mas só um de cada vez para não tropeçar. Quero deixar a vida ser vida, torcendo para que seja melhor. Não perfeita, apenas melhor. Hoje eu entendo que se a felicidade nunca chegar, se ela realmente tiver ido embora e só tiver sobrado um ruído, vai ficar tudo bem. Em algum momento vou descobrir a paz e é com ela mesma que vou viver. De olhos fechados, braços abertos e sem medo da bagunça. Eventualmente, tudo se ajeita. Afinal, você sempre acorda em algum momento crucial do pesadelo.
Esperei tanto por tantas coisas... Que os planos se realizassem, que aquele cara ficasse, que eu pudesse guardar a felicidade bem segura dentro de mim. Esperei ser feliz sem saber como lidar com o que sentia. A segurança me deixou mais insegura do que nunca. Agora não espero nada exato e isso é infinitamente mais saudável. Não tenho grandes planos e não sei aonde quero chegar, mas sei que o caminho precisa ter um pouco de planície além das montanhas; não dá para sofrer a dificuldade da escalada o tempo todo. Não sei o que vai acontecer, mas sei que não quero mais ser a covarde que não corre atrás dos sonhos. Eu quero correr. Na chuva. Me sujando. Sorrindo. Torcendo para que tudo o que quero viver seja maior do que todos os medos que sinto. Quero correr atrás do meu sonho com uma mão segurando a minha ou completamente sozinha, tanto faz. Porque meu sonho, nesse momento, é só alcançar um pouco de paz. E, de quebra, uma xícara de café.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

A felicidade só existe, não raro tendo a crer, para quem enfim dela desiste.
GK

 
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