sábado, 12 de setembro de 2015

Epílogo.

Um poema. Uma canção. Um sonho. Uma tempestade. Nada é isolado. A vida não nos permite viver uma coisa de cada vez. Talvez breves momentos únicos, mas quase sempre terremotos bipolares de grandes tristezas e pequenas alegrias. Beleza e destruição, sol e temporal. E, no meio disso tudo, a parte mais difícil é deixar algo para trás. Deixar ir. Não é banal abandonar um amor, mesmo quando ele já não é mais nada daquilo que nasceu para ser. 
Amor é segurança, nós é que aceitamos o inseguro. É conhecer, aprender, aceitar. É respeito, ainda que nossa tendência seja compreender a rispidez. É insolente só até o ponto em que é divertido. É uma locomotiva lenta buscando um destino bonito, não velocidade que termina em acidente fatal. É muito, mas nos conformamos com pouco. É troca de curativos, não sal na ferida aberta. Amor é companhia, mas se traveste de solidão. É ter alguém que nos dê a mão quando tudo parece perdido, embora aprendamos a aceitar que a mesma mão pode se fechar logo ali ao lado. Amor é resiliência, especialmente quando tudo é obstáculo. Amor é vida, mas a dor do fim é morte brutal. Sangramento lento e agonizante. Tudo depende de até onde você está disposto a ir, mas nem sempre vale à pena ir tão longe assim. Eu caminhei por tanto tempo que já nem sei qual distância percorri. Não sobrou nada ao redor além da cegueira.
Com o passar dos anos, aprendi a criar personagens pelos quais me apaixonei. Todos com as suas características, seu jeito de ser. Defeitos e qualidades. Quando você disse adeus, sobrou só a escrita, aquilo que eu podia contar a mim mesma sobre nós, facetas suas que eu era capaz de colocar no papel. Mas, até que enfim, descobri qual é o meu limite. Até onde sou capaz de ir por você. Esperei muito antes de cruzar a linha que me diria com firmeza para desatar o laço que só eu ainda amarrava. Dei esse último passo hoje, depois do coquetel de remédios, entre uma taça e outra de vinho. Caminhei por um fim sem recomeços.
Não vou dizer que está tudo bem. Que não doeu ou não vai doer por muito tempo. Vai, é claro que vai. Você não foi qualquer amor; foi grande. Fechar as portas desse mundo parece, nesse exato momento, como se eu estivesse me impondo um suplício excruciante. É um cenário horroroso sobre o qual não sou capaz de escrever. Não sei por quanto tempo vou me sentir ferida e arisca, dolorida e maltratada pela minha própria decisão, mas sei que era tudo o que eu poderia fazer. Não dava mais pra te amar no escuro do quarto, com a solidão como companhia toda santa noite. Era impossível continuar carregando o peso de um amor sem resposta. Tudo na vida precisa de um encerramento. Da crônica para a qual não se consegue pensar em um bom último parágrafo às crônicas da vida real, essas que somos forçados a viver.
Suas imagens vão me perseguir para sempre, até porque não há no mundo quem controle o fantasma do amor. Mas foi isso que você se tornou: um fantasma que eu amo, mas não consigo abraçar porque não se materializa. Você se tornou o rosto da dor. E, por mais que eu queira que tudo seja diferente, amor não é isso. Não é olhar no espelho e enxergar as olheiras por noites mal dormidas, saudade, desespero. Amor é aquilo que está lá fora, longe do meu alcance. O romance do qual não sou merecedora. Venci a cota de amor que a vida me reservou. E, por mim, tudo bem. Quero mesmo um tempo desse martírio que usa fantasia de beleza. Quero decepar o que não me deixa fechar os olhos. Quero a tranquilidade de saber que fui capaz de te botar pra dormir para sempre depois de uma última cantiga de ninar.
Um poema. Uma canção. Um sonho. Uma tempestade. Quando eu era criança e a madrugada trazia um temporal, meu esconderijo era embaixo da mesa de mármore da cozinha. Em um apartamento com portas e janelas de vidro, sempre me pareceu possível que a fúria da natureza destruísse tudo e estilhaços voassem pelos ares. Então eu ficava quietinha embaixo da mesa, um silêncio que contrastava com o barulho das trovoadas. Hoje não me escondo mais. Encosto as mãos na porta da sacada e sinto o vidro balançar com a ventania. Tenho medos mais densos do que essa possível explosão que pode nunca acontecer. Eu já sobrevivi à nossa explosão. À nossa ventania tortuosa e barulhenta. Minha vida já estilhaçou muito antes da janela do quarto. Se tivessem me soprado aos ouvidos que sentar embaixo da mesa, em silêncio, teria salvo nosso amor do temporal que nos destruiu, eu teria obedecido. Teria até mesmo me trancado no banheiro por quanto tempo fosse necessário até o sol ressurgir. Mas acontece que, por mais triste que seja, algumas coisas não podem ser protegidas, afinal. E nós somos um belo, estúpido e melancólico exemplo disso.
Escrevo hoje nosso epílogo. Dou esse último passo. Cruzo essa linha com esperança de que o fim saiba ser fim e com a determinação de te deixar para trás, preso em um passado lindo, mas cruel demais. Entendo nosso amor como algo que se desenvolveu de forma muito diferente do que deveria. E espero, do fundo do coração, não sucumbir ao anseio de um novo prólogo sobre nós. Não merecemos um novo livro. Esse é nosso ponto final. 

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