sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Olhos de oceano.

É possível que seus olhos não sejam tão azuis quanto a memória me faz crer, no final das contas. Tudo que tenho hoje são lembranças e, depois de algum tempo, elas acabam envoltas em névoas. Lembro das pequenas ruguinhas que apareciam no canto dos seus olhos quando você sorria e como você os esfregava e franzia a testa quando estava nervoso ou destruído. Lembro da sua pele, do seu toque, dos seus cabelos entre meus dedos. E dos seus olhos azuis. Ou seriam verdes? Castanhos? Não, tenho certeza de que eram azuis. Está tudo distante demais agora, mas a nuance ficou. No meio dos meus pesadelos sempre aparece seu rosto sério me encarando com aquela expressão de adeus. E os olhos azuis e tristes. Tão tristes que cada recordação quebra um pouco mais do que resta de mim.
Eu fui aprendendo aos poucos. Quando as semanas viraram meses e os meses viraram anos, passei a acreditar que você não voltaria. Como se um lampejo de racionalidade tivesse surgido depois de tanto tempo, entendi que não podia mais viver me segurando na corda praticamente arrebentada da certeza de que um dia estaríamos juntos novamente. O passar de mais de 27 mil horas me fez entender que você já está distante demais para um dia virar o volante e fazer o retorno. Toda essa ausência me obrigou a aceitar que, por mais que tenha sido amor, hoje é algo diferente. É saudade, melancolia, coração arrebentando, mas é também a calmaria da compreensão do fim. Você já ama outro alguém e eu estou aprendendo a respirar fundo e seguir em frente, ainda que sem paixão pela vida. Estou zangada, impaciente, niilista. Bebendo café demais durante o dia para sobreviver aos trancos e barrancos e vinho demais em algumas noites para tentar aplacar com a tontura a falta de você. Há noites em que ainda choro também, confesso. Às vezes são lágrimas esparsas em um rosto catatônico, outras vezes é um choro compulsivo e soluçante, como se estivesse escapando do mais íntimo de mim. Essa tristeza absurda e implacável me corrói a cada dia, mas hoje, depois de travar batalhas nas quais sempre perdi, acabei fazendo uma trégua comigo mesma. Se hoje sinto falta de alguém mais do que de você, é tão somente da pessoa que eu era ao seu lado. Mas não é de todo ruim. Talvez um dia eu possa ser melhor sozinha do que jamais fui sob a sua sombra.
Nas mais absurdas situações, tudo em que consigo pensar é no pousar suave e certo que seu olhar tinha sobre mim a cada instante. Como te olhar por alguns segundos e sentir a eletricidade da sua presença foi a melhor parte da minha vida. Hoje já consigo colocar as coisas em perspectiva: basta saber que você me amou um dia. Ter um mundo nosso para lembrar, poder pensar nos seus olhos e em como tudo isso um dia foi meu será para sempre a coisa mais importante que aconteceu na minha vida.
Hoje eu acho que consigo seguir em frente, vacilante e com o plácido caminhar de quem não sabe direito para onde vai, mas não se importa muito. Seus olhos sempre estarão comigo, assim como o amor adormecido em algum canto onde não se machuque e também não possa me machucar demais. Te amei tanto que por muito tempo pareceu impossível admitir outra coisa que não fosse a saudade de você. Ainda é difícil assimilar que encerrar esse capítulo da minha história não significa necessariamente encerrar também o livro. Pode ser que nas próximas páginas continue tudo branco ou com borrões de solidão, mas lá na frente pode haver algo mais. Outro par de olhos, quem sabe mais azuis e mais belos que os seus. Ou verdes, castanhos, pretos, comuns. Tanto faz. Apenas um par de olhos que não vá embora.
Fui sincera com meu próprio amor e com você e isso já é um conforto. Expliquei todos os meus sentimentos e hoje aprendi que preciso respeitar os seus, que já não me incluem. Então vivo em silêncio e já não te espero mais. Já não creio que você um dia vá voltar. Não podemos forçar alguém a nos amar de novo e nem amar por dois, por mais urgente que nos pareça. Estou em paz com essa percepção agora. Entre a bagagem de lembranças que guardo do que imagino que foi um grande amor estão vários detalhes nítidos e outros desfocados, mas que existem com igual ternura. A sobrevivência me fez tentar esquecer e encher de precariedade os espaços preenchidos por você, mas o tempo me mostrou que o que eu vivi nem todo mundo tem a chance de viver. A autopreservação levou embora algumas de nossas linhas, mas você estará sempre aqui, mesmo que não volte. 
Posso já não ter mais certeza sobre o tom exato dos seus olhos, mas tenho certeza de que era amor. E acho que se eu me envolver em completo silêncio e escuridão, ainda sou capaz de recordar. Não, eles não eram mesmo tão azuis assim. Tinham um tom de oceano fechado e denso, pronto para a tempestade, rico em profundezas. Cheio de armadilhas. Um azul discreto e escuro, suave e intenso como você. Talvez não fossem os olhos mais azuis do mundo, mas eram, sem sombra de dúvida, os mais belos e doces. Os únicos que já me olharam com réstias de amor. Eram os seus olhos. Os do homem que eu amei até a última gota da minha sanidade.

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