terça-feira, 13 de outubro de 2015

A pequena cama do escritório.

O silêncio é o grito mais alto de todos. Eu estou gritando o tempo todo, mas ninguém ouve. Provavelmente é melhor assim. Não importa quanto tempo passou; se foi um mês, um ano ou dez. Algumas coisas simplesmente terão, para sempre, a capacidade de nos fazer chorar, berrar e sentir a vida se esvaindo junto com a amargura das lágrimas por um breve momento. Algumas lembranças têm esse dom. Quem foi que disse, afinal, que todo dom é bom? Ou que toda lembrança é válida?
Pra tentar calar a intensidade dos meus próprios gritos calados, troquei de quarto por uns tempos. Não sei até quando, mas não aguentava mais respirar a atmosfera pesada e cheia de você, impregnada com seu cheiro e nossas lembranças. Foi no meu quarto que eu dormi no seu colo tantas vezes, que dei risada de coisas bobas, que te amei ensandecidamente. Foi lá que eu aprendi, talvez de forma errônea, que podia me entregar ao amor. Hoje, mesmo que nossas fotos e qualquer mínimo detalhe de nós dois estejam confinados em uma caixa bem guardada, meu quarto é feito de você. Tem seu rosto estampado em cada canto, seu nome, sua voz como uma onda etérea e persistente. Sua pele macia e quentinha espera por mim na cama, de braços abertos, em uma ilusão escancarada. No momento em que me deito, o frio é quase insuportável. Frio de solidão não há cobertor que aqueça.
Então, decidi me instalar por uns tempos na pequena cama do escritório. Uma cama de solteiro, cercada por estantes cheias de livros com outras histórias que não a nossa. Tenho dormido melhor; minimamente, mas já é alguma coisa. Você está aqui também, é claro; você está em todo lugar porque não sai de dentro de mim. Tenho pesadelos, você ainda me assombra, mas aqui sua presença não é tão forte. Aqui eu consigo respirar com um pouco menos de dificuldade, o ar é menos sufocante e rarefeito. Aqui, embora continue parecendo que duas garras estão esmagando meu coração, a dor é estável. Aqui me sinto em coma, enquanto lá, no quarto que já era nosso e não mais só meu, me sentia como a vítima estraçalhada em um acidente, que balbucia e não sabe dizer qual parte do corpo dói mais. Nesse quarto só caibo eu na cama. O fato de saber que estou confinada a um pequeno pedaço de colchão onde seu corpo não ficou marcado é embriagante. Um delírio de saudade que se ameniza por alguns instantes.
Mais do que qualquer outra coisa, na pequena cama do escritório estou cercada por todos os romances que nunca foram meus. Por tudo aquilo que deixamos de viver e que atormentou, enriqueceu ou aniquilou outros casais. Fictícios, mas mais felizes do que nós. Ou ainda mais imersos em tragédia. Tudo bem. Não é a nossa tragédia e isso já é mais do que eu poderia pedir à vida. Um breve descanso, uma dose de esquecimento momentâneo. Dores que não me pertencem. Dormindo aqui eu penso nas histórias de Elizabeth e Darcy, Winston e Júlia, Henry e Clare, Lancelote e Guinevere, Tristão e Isolda, Anna e Vronsky, Hazel e Gus. Até mesmo Heathcliff e Catherine e Werther e Charlotte parecem ter construído um final mais consistente para si do que o nosso. Fomos cheios de falhas e desencontros, ricos em amor e pobres em verdade e resiliência. E aqui esses espíritos saem das páginas e tomam conta de mim até o sono chegar. Pode parecer loucura, mas você repetiu tantas vezes que eu era louca que talvez estivesse certo, afinal de contas. Romeu acabou de me dizer que posso fechar os olhos e dormir. Ele e Julieta cuidarão do meu coração por algumas horas. 
Eu me apego aos livros que leio, não acho que um dia conseguiria vendê-los ou doá-los. E, entre tantos outros motivos, um deles é o fato de que cada pequeno conjunto de páginas me recorda algo que não somos nós e me afasta do nosso próprio livro não escrito. Do colchão que foi comprado quando você chegou. Dos abraços que viraram mera saudade. Das coisas que começaram a perder a forma. Da nossa história sem final, guardada para sempre na gaveta de um escritor preguiçoso que decidiu que alguma outra ideia – possivelmente clichê e com um elemento sobrenatural – valia infinitamente mais o esforço de ser explorada.
Resumindo, troquei de quarto e de cama por uns tempos. Estou no minúsculo escritório e toda noite parece que vai funcionar. Quando encosto a cabeça no travesseiro, vem a esperança de que será uma noite melhor e mais tranquila.  Mas sempre chega a hora da madrugada em que os personagens voltam a dormir e sobra só aquele do qual eu tanto tento fugir: você. É quando eu percebo que te escrevi muito mais do que gostaria e que mudar de cama não vai mudar o quanto você se impregnou em mim. Cada personagem mora em sua própria história, afinal. Por mais que eu queira fugir e procurar por outras alternativas, a verdade é que só existe você. Escrito, descrito, reescrito e manuscrito de todas as formas possíveis. Mesmo que hoje você já viva em outro livro, no meu o personagem é você. Meu par, minha história mais linda e triste, minha vida... Independente do cômodo em que eu tente dormir.

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