domingo, 15 de novembro de 2015

Agridoce.

Amar não é fácil. Se alguém disser que é está mentindo, ainda não amou de verdade ou é um desses poucos sortudos que ganham na loteria da vida. Partes do amor são fáceis. E lindas. Leves como uma pluma. Verdadeiros pores do sol em um cenário bonito. Mas amar exige muito daqui de dentro da gente. Amor precisa frequentemente de aposto - aquela explicação entre linhas para que o dito fique mais esclarecido e menos não dito -, mas quase nunca tem. E aí, nessa de amor difícil, eu estou dissolvendo. Tenho o sorriso dos loucos porque tudo o que você precisa para sobreviver é alguém que te ame de verdade e é coisa que não tenho. De verdade mesmo, do tipo que move montanhas e esmaga o que não está no lugar só para poder te amar. Você tem esse alguém; esse alguém sou eu, aquela que vai esperar por você até que o mundo não seja mais mundo. Tenho o sorriso dos loucos, mas, ao mesmo tempo, tenho mil motivos pelos quais você deveria voltar e ficar comigo para sempre. E poderia citar centenas deles, mas, no fim, o que importa é que seu lugar é ao meu lado. Então eu te diria para olhar para trás. É mais fácil olhar para frente, vislumbrar um futuro qualquer e tocar a vida, mas às vezes visitar o passado pode não ser uma ideia tão ruim assim. É no seu passado que eu moro. É aqui atrás, muito distante, que eu estou.
O amor não é fácil e você não está aqui. Sei que tenho que continuar, talvez até mesmo cuidar um pouco mais de mim, mas depois de te perder e chorar e esquecer de viver, tudo que tenho é desilusão. Parece até que vivi o bastante enquanto você esteve aqui e agora não é mais necessário; agora basta acordar e sobreviver. Eu amei como não se ama, como não se deve permitir amar. Amei com tudo de mim entregue a você e com todos os meus sorrisos sendo completamente seus. Amei com desespero, bom e ruim. Amei com pressa, com querer até a última gota de suor e o último pingo da nossa ilusão bonita. Amei com toda a dor mais intensa que um amor entrega. Sim, amei até as dores do nosso amor. Tudo. E talvez seja por isso que eu ainda ame, assim, com tudo de mim. Porque a perda não se vai. Amor e perda são sentimentos agridoces. A perda agora azeda será doce se um dia você voltar. O amor, antes doce, tem agora um estranho amargor residual. Minhas coisas ficaram para trás, perto de você. Suas coisas ficaram aqui. Lembretes de uma vida cheia de memórias. Não são apenas fotos e coisas para que recordemos um do outro. São partes de nós. Partes que jamais voltarão a não ser que fiquem juntas. Talvez seja por isso que o sentimento ainda esteja aqui, agridoce como é e como sempre tenderá a ser. Não existe amor de um gosto só. Amor não é fácil assim. Não se decifra com uma só garfada. Amor é paladar sofisticado. Nossa paixão ficou sem fim, sem cumprirmos todas as promessas que nossos olhos fizeram em silêncio no escuro e que nossas bocas procuraram também no escuro.
Estou carente de você. De tudo que o seu sorriso sempre representou. Não estou carente de pega daqui e pega de lá. Estou carente de ter alguém para quem cozinhar, para quem abrir a cervejinha de domingo, para quem sorrir meu sorriso mais enfeitado de veracidade. Carente dos seus olhos e da leveza que vinha com eles todos os dias. Do seu rosto que parece música. De ter com quem brigar. De ter por quem chorar. De ter besteiras para achar que fui magoada, só para no outro dia perceber que tudo o que mais quero não pode ser magoado. Porque amor não é fácil e é agridoce, mas é blindado, não se magoa e não se fere. A gente é que se machuca. O amor, quando é verdadeiro, fica ali, rindo e esperando que as duas crianças parem de pegar as pedrinhas no chão e tacar uma na outra para ver se machuca. Ou se a lancheira acertada na cara deixa um vergão vermelho. O amor fica rindo. Talvez nosso amor esteja rindo até hoje, contando no relógio quanto tempo o orgulho vai vencer, quanto tempo conseguiremos aguentar a solidão e a barra do silêncio. Estou carente desse amor brincalhão cheio de pegadinhas. Da sua boca destruindo meu juízo e tudo dentro e fora de mim. Da sua voz me dizendo coisas idiotas depois do sexo ou coisas lindas depois do amor. Dos seus braços me puxando para perto como um gesto automático de proteção. Eu, que sempre achei que me protegia tão bem sozinha, estou carente da proteção dos seus braços quando nada me ameaça além do escuro. Carente da sua respiração na minha nuca, do seu sono leve e do seu corpo quente tão colado ao meu quanto dois corpos podem estar. A solidão tem me abraçado com força a cada noite e andado ao meu lado a cada dia. Eu estou quebrada e dolorida, sem cura pela frente, mas aguentando as pontas.
Sem você eu sou só a metade de alguma coisa. Não sou metade nem de mim, apenas de alguma coisa disforme. De mim sou só um pouco, aquele tanto necessário para levantar da cama todos os dias pela manhã. Não sei viver se for só por mim. Se não tiver você do outro lado esperando por algo meu. Eu não sou poesia. Sou amor em forma de palavras porque nesse momento não sei ser mais do que isso. Mas sou amor de corpo inteiro e de todas as línguas quando você está aqui. Não o amor do “eu te amo”, mas o amor do “eu te amo para a vida inteira porque não há ninguém como você”. E tem horas que nem sei mais se sou eu que escrevo, que levanto da cama, que corro, que dilacero... Porque saudade é palavra que machuca só de soletrar. E então eu me sinto morta, destruída, sem uma parte sobrevivente sequer, como se estivesse soletrando eternamente a saudade e o seu nome. 
 
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