sábado, 19 de dezembro de 2015

Ele e ela.

Ela foi comprar um rímel e acabou saindo da loja de cosméticos com vários tons de batons e muitos pincéis. Ele queria um terno cinza, para ser original, mas acabou optando pelo preto mesmo. Ela queria cursar uma faculdade, mas escolheu outra. Ele queria deixar o cabelo crescer e usar coque, como tanto se tem visto por aí, mas mandou cortar rente como sempre. Ela era tímida e reclusa. Ele, um galanteador. Ela amava banhos de chuva, céu estrelado e praia deserta ao anoitecer. Ele achava tudo isso uma frescura. Ela tentou o amor inúmeras vezes e nunca deu certo. Ele também. Ela desistiu. Ele não.
Ela tinha olhos desesperados e tristes. Ele tinha os olhos mais cheios de doçura, esperança e brilho. Uma coisa eles tinham em comum: os olhos nunca mudavam, aprontasse o que quisesse a vida. Se fosse florida, os dela continuavam desiludidos e descrentes. Se fosse terrível, os dele continuavam dispostos e enérgicos. Se os olhos realmente dizem muito sobre as pessoas, os dele exalavam coragem e vontade, mas os dela expeliam cansaço e desistência. Ele era intensidade; ela, serenidade.
Ele sempre falava com o coração, enquanto ela fazia o possível para proteger o que ainda restava do seu. Ela gostava de inverno e vinho; ele até curtia vinho, mas preferia o verão. Ele vivia amores, sim, talvez até demais. Ela não vivia nenhum. O fato é que ele se contentava com os meros fascínios superficiais. Ela preferia a melancolia das boas músicas e livros a qualquer coisa que fosse rasa. Ele era a favor de toda e qualquer experiência. Ela, com o passar dos anos e tombos, tornara-se seletiva. Ele acreditava na história de que o mundo tem uma profusão de pessoas e possibilidades. Ela preferia acreditar que, geralmente, basta uma pessoa que se destaque dessa multidão.
A fila para ele sempre andava; ela preferia manter a sua estagnada. Ele não tinha medo de amores errantes que acabassem abrindo novas feridas; ela tinha medo até mesmo daquilo que já estava cicatrizado. Ele vivia abertamente e com paixão pela vida, enquanto ela raciocinava cada passo. Ele cuspia palavras porque acreditava que os sentimentos devem ser livres. Ela engolia a maioria dos seus, deixando tudo por dizer e acabando por se afogar em seu próprio mar de palavras não ditas. E, é claro, em toda a infelicidade que vem junto com elas. Essa era a maior e fundamental diferença entre os dois: ele era genuinamente feliz (ou, pelo menos, assim acreditava), enquanto ela apenas fingia sorrisos.
Ela se acostumou a permitir a destruição interna, a receber restos de amor, a ter aquela sensação de estômago revirado por tudo que soava errado o tempo todo. Ele tomava antiácidos para isso e seguia em frente. Ela colocava o silêncio seguro em um pedestal. Ele gritava para o mundo o que achasse necessário e, às vezes, até um pouco mais do que isso. Ela sentia seu brilho diminuir a cada dia, enquanto ia morrendo aos poucos por tudo o que não conseguia extravasar nem transpor. Ele brilhava cada vez mais. Ela dizia não para quase tudo, mesmo que depois se arrependesse. Ele dizia sim para quase tudo, mesmo que depois se arrependesse. Ela era sozinha, mas jamais tentou disfarçar sua solidão. Ele era sozinho – embora jamais fosse admitir - mesmo cercado de gente. Eles eram opostos, mas ao mesmo tempo semelhantes, cada qual à sua maneira. Na extremidade absoluta dos sentimentos não é possível encontrar paz.
Talvez, se eles tivessem se conhecido, ela poderia ter visto no fundo dos olhos dele aquilo que não encontrava mais em si: coragem. Coragem para enfrentar o espelho, a vida, o amor e o mundo. Autoconfiança. Talvez tivesse reacendido a faísca em seu olhar opaco. Talvez tivesse aprendido com ele que o amor-próprio é o melhor amor que pode existir. E, principalmente, que ele precisa existir para que outros amores tenham vez, até porque nenhum vem com garantia de duração. Por outro lado, talvez ele aprendesse com ela que a vida não precisa ser constantemente gritada a plenos pulmões. Que o que é superficial não é interessante por muito tempo. Que nem tudo precisa explodir para ser belo. Que olhos nos olhos podem ser muito mais do que palavras. O silêncio também tem sua poesia. Ele poderia ter reaprendido o sossego do amor tranquilo, do abraço longo, do escuro quieto em que os rostos se aproximam antes de dormir. Ela poderia ter lhe mostrado que um banho de chuva traz gargalhadas inesperadas; poderia ter se jogado em seu colo e ele sentiria que segurá-la contra si era a eletricidade que ele jamais experimentara antes – e aquela da qual nunca mais cogitaria abrir mão. Eles poderiam ter amado de verdade e, juntos, por mais redundante que seja, deixado de ser sozinhos.
Eles poderiam ter se encontrado e poderiam ter sido felizes. Poderiam ter construído o equilíbrio que faltava para ambos, somando impulsividade e cautela para chegar à felicidade. Mas a vida não corre assim e não quis assim. O vento carrega suas decisões. Ele foi para um lado e ela para o outro. Ele continuou gritando amores inconstantes e incompletos. Ela continuou no silêncio dos amores que não acontecem. Eles continuaram sozinhos, ele secretamente e ela de forma honesta. Opostos, exagerando cada vez mais em seus limites. A vida não os quis, ainda que, sem nem mesmo saber, eles quisessem um ao outro mais do que tudo. 

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