segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Não é paixão, é maturidade.

Esta semana me perguntaram se eu estava apaixonada. Fiquei surpresa; não, não estou. Questionei o motivo e a pessoa me disse que era por causa do cabelo novo. Que eu tinha dado um “up” no visual, estava mais bonita e com um ar mais alegre e confiante. Dei risada, agradeci e respondi que não, definitivamente não tinha nada a ver com paixão. De fato, se mudei algo para a melhor foi justamente porque soube desapegar um pouco daquilo que mais me fazia mal. Das azias, enjoos e mal-estares que vêm das coisas que não posso consertar porque não estão ao meu alcance. Deixei de lutar por amores fracassados e passei a lutar somente pelo que vale à pena.
Me peguei pensando em quem me tornei. Não, não estou apaixonada, apenas convicta dos meus ideais. Posso não saber o que quero fazer do futuro e isso é um ponto fraco, sim, uma resposta que eu já deveria ter em mãos. Mas hoje sei muito bem pelo que me ergo e quais bandeiras levanto comigo. Levei uma picada de aranha na canela enquanto tentava resgatar dois gatinhos da pocilga em que foram abandonados. Passei horas debaixo de um sol de torrar tentando ganhar a confiança deles para trazê-los embora comigo. E consegui. Ficaria mais tempo se fosse necessário, suada e com as pernas doloridas. Hoje são dois animais a menos dormindo na rua. Enquanto lá fora está vindo tempestade, eles estão quentinhos e dividindo um abraço e um cobertor. Eu sou dessas que preferem os animais às pessoas. Cansei de explicar esse amor e nem acho que deveria. Esse é meu primeiro apelo: parem de colocar jaulas no amor. Ele não precisa fazer sentido, não requer conceituações, dispensa com prazer definições. O amor deve ser tão livre quanto nós.
Eu, que cresci cercada por amigos homens, hoje sou feminista. Sossegada, sem placas, mas engajada na conquista da igualdade de gêneros, na independência, no respeito. Não somos melhores, não queremos cortar a garganta dos homens que enxergamos pela frente, não pedimos nada além do que é nosso direito. Mas não se atenham às minhas palavras, existem muitas ativistas maravilhosas que podem explicar como dois e dois são cinco muito melhor do que eu. Passamos há muito tempo da concepção paranoica e objetificada de somas exatas – pelo menos na subjetividade da vida. Ok, com tudo que costumo escrever pode até parecer que sou dependente de homem, amor e outros entorpecentes intelectuais. Mas a verdade é que eu apenas romantizo o mundo. Na realidade só dependo de mim e estou em paz com a ideia da força que carrego. Entendi que nós podemos o que quisermos, inclusive não querer. Eu sou mulher. E, caramba, nunca gostei tanto disso. Aliás, em pleno século XXI ainda existem milhões de "matérias" sobre como conquistar um homem. Como devemos nos portar, o que devemos fazer, o que não devemos fazer, que maquiagem eles gostam, que tipo de roupa... Sério mesmo? Um grandessíssimo foda-se pra tudo isso. Vou me portar como quiser, fazer ou não fazer o que quiser e usar a cor de batom que bem entender. Se o cara curtir ou não é problema dele. Se isso vai conquistá-lo ou não é algo que não está nem remotamente entre as minhas preocupações. Isso não significa que não vou ser educada, agradável e ter bom senso. Significa apenas que farei tudo isso sem pensar se é o que está listado como “comportamento para ganhar um cara”, mas sim porque faz parte da minha personalidade.
Passei muito tempo em um relacionamento que me diminuía e me anulava. Dei o máximo de mim e tentei ser a melhor namorada possível, quando eu deveria ter focado em ser a melhor pessoa que minha integridade precisava. Permiti humilhações e traumas que talvez esse cara, que realmente se acha o senhor perfeito, não perceba que causou. Porque, no fim, a errada fui eu. Ou era o que parecia na época, ao menos. Se eu voltaria para esse amor hoje? Não sou de ferro e precisaria de uma força de Jessica Jones pra dizer não a ele e sim a mim, mas sei que conseguiria. Agora eu conseguiria. Porque agora eu entendi que qualquer coisa que venha será melhor do que o que passou, graças à força que aprendi a ter. Ou que apenas demorei a descobrir que tinha.
Depois de muitos anos acuada, hoje eu também acho que precisamos, sim, falar sobre a violência contra a mulher. Falar muito, aberta e exaustivamente, até entrar na cabeça das pessoas que essa é uma triste realidade. Ainda banalizada, mas uma realidade. Quando você menos espera já apanhou, já foi estuprada, já te abalaram física e psicologicamente. E se reerguer de qualquer forma de violência é uma tarefa árdua. Amor e submissão são coisas totalmente diferentes. Nenhum tipo de abuso é admissível. Nenhuma forma de agressão deve ser menosprezada. Nós podemos e devemos ter voz, especialmente porque muitas mulheres não têm. A gente nem imagina, mas elas precisam de nós. Eu já precisei. Talvez, no fundo, ainda precise.
Me disseram inúmeras vezes que eu não era capaz, que não conseguiria, que não daria conta; acabaram me convencendo. Mas apenas por um tempo. Parece que minha força não estava no cabelo, afinal, ao contrário de Sansão. Minha força reside dentro de mim, em um âmago muito mais profundo. Hoje eu tenho coragem para enfrentar obstáculos – muitos que minha própria mente faz questão de impor -, defender meus ideais e lutar pelo que acredito. Hoje não tenho vergonha de admitir que tenho depressão, ansiedade e síndrome do pânico e que é absolutamente horrível conviver com tudo. Hoje não sou mais capaz de silenciar minha voz para tentar em vão impressionar alguém que jamais me aceitaria do jeito que sou. Meu timbre é alto e ressonante e é assim que eu quero que seja. Sou pró tantas coisas que é mais fácil dizer que sou pró liberdade. Pró amor em qualquer de suas formas, pró família como quer que ela seja, pró diversidade, pró saiba-ser-único-e-não-se-esconda-em-um-personagem. Amor livre. Espírito livre. Decisões pessoais. Laicidade para nós mesmos, já que a do Estado não funciona. Já tem tanta coisa errada no mundo; homofobia, racismo, julgamentos, fofocas, machismo, bullying, dedo apontado para o outro, superioridade, maus-tratos contra animais, idosos e crianças... É tanta falta de empatia e compaixão que cada um disposto a defender algo precisa estar pronto para entrar num campo de batalha de dez contra um.
A coisa mais linda que eu vi essa semana foi minha prima, que tem dezesseis anos, falando sobre assuntos pesados e complexos como uma verdadeira mulher feita. Defendendo as minorias e apoiando causas. E, vejam só, para isso nem precisamos erguer o tom de voz, basta buscar o melhor dentro de nós. Bondade e gentileza são coisas impagáveis. Fechar os olhos para tudo o que está errado no mundo ou se juntar ao coro de vozes que difundem ódio gratuito não leva a lugar algum. A não ser, é claro, que você queira conviver com gente que não aceita nada diferente do seu umbigo (ah, ele, o centro do universo), do seu mundinho pequeno e babaca, da sua visão fechada por um antolho invisível. Mas, se for o caso, "você não tinha nem que estar aqui", como dizem.
Vocês ainda vão ler muita coisa sobre o vício do amor, sobre precisar de alguém, sobre decepções e amarguras. Mas esta não sou eu. Eu sou apenas a mulher por trás das crônicas. Aquela que toma um vinho quando dá na telha e cerveja com os amigos, escreve o que quer escrever e corta o cabelo do jeito que o humor mandar, sem tentar agradar qualquer pessoa que não seja ela mesma. E, principalmente, sem estar apaixonada. Muitas tristezas fazem parte da minha história e, sim, influenciam no resultado do que eu crio. Mas eu não sou só isso. Levei muito tempo para entender e aceitar que essa é apenas uma parte do todo. Aprendi a mudar por mim, porque mereço mudanças. Eu posso ser o que, quem e como eu quiser. Temos que ser nossos próprios heróis porque, no final das contas, ninguém vai lutar nossas batalhas por nós.

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