domingo, 11 de dezembro de 2016

Ela é do jeito que sua mãe lhe ensinou a ser.

Ela era só mais uma garota, mas isso não existe, não é? Ninguém é apenas mais uma garota. O sorriso é o disfarce que o mundo exige, mas por trás dele sempre há uma história de vida. E por trás do brilho nos olhos, conquistas e desastres. Ela era apenas uma garota que, com tombos e desmoronamentos pessoais, aprendeu a ser mulher. Sua história é como um passeio de montanha-russa que termina com alguém alçando a garota para uma viagem de balão que não para de subir até atingir as nuvens. Nem por isso é fácil. Tem todas as subidas e descidas, tem ventania, tem rasgo no balão. Mas, eventualmente, as nuvens aparecem.
É importante ressaltar que a garota não comprou ingresso para a montanha-russa. Não pediu para estar lá. Foi jogada em uma jornada absurda e assustadora por um pai que gostava mais da filha da madrasta, que não era sua, do que da sua própria menina. Um pai que não se orgulhava de sua trajetória e que conseguiu o que poucos pais conseguem: que o melhor para ela fosse ficar longe dele. Foi jogada lá por namorados que foram apoio em determinados momentos, mas também tristeza em inúmeros outros. 
A vida não tem lógica mesmo e nunca pretendeu ter. A mãe da garota, seu ponto de segurança, faleceu depois de uma doença grave. O pai não fazia por merecer a filha que tinha. Um namorado desmontou seu coração como se fosse peça eletrônica que permite conserto posterior. Não permite. A superação ajuda, mas ficam emendas. Tempos depois, outro cara tostou outra metade do amor que ela tinha no peito. Sufocou, magoou, solidificou um mal estar que ela, garota linda e cheia de vida que era, não precisava sentir.
Se esta fosse uma crônica normal, acabaria mais ou menos com um parágrafo triste como este. Mas não. Esta não é a crônica de apenas mais uma garota, mas sim de uma que soube crescer com as dificuldades, abraçar sua dor e aprender com ela, afastar aquilo que machucava e virar o jogo. Esta é a crônica de uma garota que honra cada letra da palavra resiliência. Não é fácil deixar para trás as pessoas que amamos, mas é incrivelmente mais saudável perceber que aquelas que nos amam têm muito mais valor. Que o que importa é ter ao seu lado quem se orgulha de você e te ajuda a crescer, sem jamais te sugar ou puxar para baixo. O fundo do mar é lindo, mas ficar por lá é morte certa. A mãe dessa garota lhe mostrou como seguir em frente. Como batalhar e persistir. A mãe dessa garota lhe botava no colo, com a visão perdida para sempre, mas com a felicidade e a doçura resistindo com bravura. A mãe dessa garota lhe ensinou a ser tudo que ela é hoje.
Há algo muito interessante e estranho sobre decepções: elas são mesmo horríveis e possuem um amargor único. Causam ânsias, vertigens, vontade de vomitar o resto de vida que deixam. Mas, por outro lado, cada uma te faz sentir menos efeitos colaterais na próxima. Não é questão de se acostumar, mas de fortalecer seu coração e aquilo que lhe faz bem. Quando o primeiro namoro terminou, ela lembrou que, se conseguiu superar a morte da mãe, superá-lo seria a brincadeira de criança que seu pai não lhe ensinou. Quando o segundo namoro terminou, ela já estava mais forte. A vida faz essas coisas: entorta-nos até o limite, até o ponto de quebra, testando até onde vai nossa garra e capacidade de voltar. Ela reatou com o namorado, acreditando que tudo seria diferente. Quem nunca fez isso? Notícia urgente: dificilmente algo será diferente. Sua cura não vem do que te partiu em trilhões de pedaços, mas de você. Ela só precisou dessa segunda chance e alguns meses para entender isso. Para realmente assimilar que o que a salvaria seria seu amor próprio.
Não adianta permanecer como está se dói. Não adianta voltar para aquilo que só soube te dividir e estraçalhar. É preciso somar e saber enxergar o resultado positivo. É preciso procurar sua paz, onde quer que ela esteja. É preciso leveza, amor e um toque de felicidade. Não solidão, mas as pessoas certas. É preciso aceitar que muitas famílias não são feitas de pai e mãe, mas de amigos incríveis e uma tia ou outra que te acolhe como se mãe fosse.
Você pode pensar que, depois de tanto sofrimento, o coração dessa garota ficou em frangalhos. Mas eu te digo que não. Seu coração foi reconstruído com cuidado por todos aqueles que a amam e, principalmente, pelo amor que ela mesma soube se dar. Porque, sim, depois de tanto tempo, ela teve que reaprender o amor, a confiança, a autoaceitação. Você pode não acreditar em mim, mas eu te digo que hoje ela se sente completa com o que tem; pessoas, trabalho, vida, energias positivas e, acima de tudo, consigo. Não há ninguém, afinal, que possa lhe dar mais do que ela mesma. Hoje o sorriso dessa garota não é cenográfico. É mais real do que eu e você. E continua lindo. Porque ela não é só mais uma garota. Ela é a garota que teve garra para saltar da montanha-russa em direção ao balão. Ela é a garota que sobreviveu à tempestade e saiu dela encharcada, mas sabendo sorrir e com força e coragem para correr atrás dos seus sonhos... Do jeitinho que sua mãe lhe ensinou desde pequena. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Série da vida real.

Depois de tanto tempo sozinha, me acostumei a ser certeira na hora de matar qualquer raiz de afeto que possa brotar e virar flor de gostar. Não dependo de ninguém, amo meu tempo e espaço. Aprendi que não preciso de um cara para me lamentar ou abraçar quando a vida fica difícil. Não me entenda mal; não sou desgostosa do amor, apenas não tenho certeza se o destino final sempre vale a tortuosidade da jornada. Eu me habituei a dizer não. É fácil pra mim e muito mais simples. Então, cada pequeno esforço meu para continuar te mantendo por perto deveria ser um enorme e ridículo sinal, escrito em neon com cristais reluzindo ao redor, de que estou disposta a tentar.
Talvez você me ache complicada demais. Insegura, meio louca, exagerada. Porque você não sabe o quanto eu preciso lutar, a cada sorriso que abro, para deixar meus fantasmas guardados em uma caixinha e focar apenas nos olhos do cara que gosta das mesmas séries que eu e com quem a conversa flui leve e descontraída. Possivelmente você não entendeu que eu gosto de te fazer cafuné, mas que só esse gesto já é um limite interno que eu mesma tive que me esforçar para cruzar. Consigo rir do que você diz e ao mesmo tempo sentir aflição porque não sei discernir o que é piada e o que é deboche. E tudo isso me assusta mais do que a hipótese de um apocalipse zumbi de fato acontecer.
Talvez eu esteja mesmo meio louca porque vejo em nós uma estranha sintonia que consegue se reconstruir depois de cada vez que você age como menino. Esse é o maior problema. Sou mulher, dona de mim, e, se for para abrir mão de parte da segurança da solidão por alguém, não pode ser pelo menino em você. Precisa ser pelo homem. 
Sabe, as coisas não são tão difíceis quando você realmente quer estar com alguém. Quando nada é construído só com frases feitas e convites não cumpridos. Quando não há empecilhos a cada esquina e o sumiço não dura mais do que a saudade da conversa boba. Eu não gosto de joguinhos. Minha vida não é uma partida de dominó. Não quero a demagogia de ter que pensar na frase certa e no jeito correto de responder à última mensagem. Tenho pavor dessa história de “deixar pra lá” para ver se sente falta, de fingir não se importar ou, pior, de demonstrar cuidado e carinho só quando é conveniente. De falta de espontaneidade. De vou-por-aqui-e-você-por-ali na esperança de que a vida cause um encontro qualquer. A vida não é tão parceira assim; dizem por aí que precisamos fazer nossa parte também. Detesto ser motivo de piada e também que você apareça só quando dá na telha porque, afinal de contas, tanto faz, mesmo que você diga o contrário. Aliás, me desanima o dizer e desdizer, o gostar controverso que não se mostra através do verdadeiro significado do verbo. Se for para querer, queira de verdade. Eu não sou mulher de mentirinha, não. 
Demoro, sim. Tenho muitos medos e muitos muros. Mas, se for para me entregar, é por inteiro. Não entrego metades, assim como não as aceito. A cada mágoa você me deixa escapar um pouquinho e desacreditar ainda mais. Se avanço uma casa, retrocedo duas em pouco tempo. E já não sei mais dizer se é porque sou assim, porque tudo que você fala parece mentira ou porque quase nunca fala, deixando lapsos imensos para uma imaginação negativa tão fértil quanto um campo de tulipas na primavera holandesa. Sou uma rocha de desconfiança, mas quando confio sou mais firme ainda. O problema é que você não se dá ao trabalho de tentar entre uma pisada na bola outra e o desgaste acaba sendo maior do que o jeito gostoso com que meu estômago embrulha quando você aparece. Você vai para lá e eu volto para cá, para dentro de mim, como sempre costuma ser.
Quero poder te admirar pelo que sei que você é e pelo que ainda pode ser, defeitos e qualidades incluídos no pacote. Mas essa não pode ser uma via de mão única e não há espaço para estacionar teatrinhos, falas bonitas e vazias e intenções mascaradas. Eu poderia ser muito mais do que a mulher para quem você resolve mandar uma mensagem de vez em quando e que te responde com bom humor. Mas, veja bem, não tenho interesse em gastar energia com trivialidades e hoje, sabendo o que me faz bem ou não, só quero mesmo o que me torna a melhor versão de mim. Posso ser fria ou quente, mas depende mais do que você vai aflorar em mim do que do meu querer. Não se engane. Pode parecer, mas não estarei sempre por aqui. Já te dei mil oportunidades, mas quem faz as escolhas da minha vida sou eu e logo as cartas brancas que eu guardo para você no bolso da calça jeans rasgada vão se esgotar. Se você perder de vez o pouco que conseguiu a culpa já não é mais minha.
Nessa série da vida real, a brincadeira pode perder a graça em um piscar de olhos. No final das contas, eu posso ser qualquer versão da protagonista sem prejuízo pessoal algum: a que fica com o cara de caráter duvidoso para arriscar, a que parte para quem realmente demonstra se importar com ela ou, ainda, a que resolve ficar sozinha mesmo. Laser tag, trombeta azul ou foco na carreira. Tanto faz. Posso até ser as três versões em uma só. Quem está demorando para decidir qual personagem será e quanta diferença fará é você. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Aprenda a ser sozinho.

Sentei mais uma vez sozinha na minha cafeteria favorita em Curitiba. Escolhi uma mesinha de canto, como sempre faço; isso me permite observar a vida acontecendo ao redor enquanto aprecio a comida deliciosa, o café quentinho e o ambiente aconchegante. É incrível como as pessoas ainda estranham quando uma mulher chega sozinha para almoçar, jantar ou tomar um café, quase como se fosse  um crime abraçar o que se gosta sem ter alguém ao lado. Alguns grupos não estão nem aí, mas outros não conseguem segurar a curiosidade. O que a moça está fazendo ali sozinha? Ela está esperando alguém? Levou um bolo? Quando chega a hora da sobremesa, eles já se conformaram que, de duas uma: ou eu levei mesmo um bolo ou sou uma solitária sem amigos. E, céus, ela vai comer essa fatia enorme de cheesecake mesmo? Sim, vou. E vou comprar um café para viagem quando for pagar a conta também.
Talvez não passe pela cabeça dessas pessoas, que por horas olham de soslaio, que eu gosto de estar ali sozinha. Que um bom almoço em um lugar agradável é um presente que me dou de vez em quando. Que eu valorizo o silêncio e aprecio saborear novas experiências sem ter que tagarelar. Que o café tem um gosto diferente quando posso fechar os olhos ao tomar o primeiro gole e sentir o primeiro aroma. Existe um preconceito cultural que não assimila bem a independência feminina, até mesmo quando se trata de algo ínfimo como uma bebida. E aqui vem a “bomba”: estar sozinha não é sinônimo de ser solitária e solidão nem sempre é uma maldição.
Deixa eu te contar uma coisa, seja você homem ou mulher: você pode sorrir. Pode escolher não atender seu telefone por um dia (ou mais) e não responder as mensagens daquele crush. Pode passar quantas horas lhe aprouver degustando cafés, chás, sucos de frutas frescas ou lendo livros debaixo de árvores com os primeiros indícios de outono. Pode dançar, cantar, caminhar pela praia no inverno e escolher onde, quando e o que vai se permitir. E, principalmente, pode fazer tudo isso sozinho. Você vai, indubitavelmente, aprender muito com cada pequena experiência que possa chamar de sua. Vai tomar alguns cafés aguados e outros supremos. Vai descobrir lugares incríveis e outros que fazem um minuto parecer um suplício. E, mesmo assim, vale a pena se entranhar nessas descobertas desacompanhado. Eu amo andar por ruas desconhecidas levando apenas minha própria companhia, descobrindo novos lugares e sabores, me perdendo em meus pensamentos. E, se a vida me ensinou algo, é que não há nada de horripilante nisso. Não significa que ninguém gosta de você ou que o mundo te abandonou; significa apenas que você sabe aproveitar bons momentos sem a necessidade de ter alguém te agarrando constantemente pelo braço.
Ah, mais uma coisa. Entenda que isso tudo se aplica também aos amores. Assim como nos deparamos com boas e péssimas cafeterias nessas andanças, conhecemos boas e péssimas pessoas. Temos bons e péssimos relacionamentos. E, mais uma vez, para que isso se incruste em sua mente, assim como sentar em uma mesa sozinho e tomar um bom café, não há nada de errado em estar sozinho na vida. Você não precisa de alguém que te tome a vida inteira. Muito pelo contrário. Antes de pensar em amar outra pessoa, você precisa aprender a amar as lacunas da sua vida que serão preenchidas somente por você, não por ela. É errado entregar sua felicidade em outras mãos; ninguém tem a obrigação de carregar esse fardo.
Sério, faça um favor a você mesmo: liberte-se desse preconceito. Aprenda a ser sozinho antes de ser de mais alguém. Aceite pertencer a si mesmo e entenda que, na maior parte do tempo, você pode ser sua melhor companhia. Não adianta se jogar nos braços de qualquer um só para afirmar para o mundo e para seu cérebro monofóbico que você não é sozinho. Na verdade, esse tipo de complacência me dá um pouco de medo. Essa atitude de amar por amar – que nem é amar de verdade – e, com isso, aceitar qualquer opção e destino, é um dos motivos que me levam a desconfiar da sanidade do ser humano. Você pode namorar, casar, juntar as trouxas, viver momentos lindos e em outros só suportar. Se não for a pessoa certa, você estará desperdiçando o tempo de ambos simplesmente por não saber lidar com um pouco de solidão.
É claro que eu sei que a solidão pode ser horrível às vezes. Há dias em que meu coração parece prestes a arrebentar e há noites em que o frio se instala e não me deixa pregar os olhos por um segundo sequer. A saudade é devassadora mesmo, sempre com golpes certeiros, assim como a solidão em demasia. Mas viver não é fazer sempre parte de um dueto. Sua própria voz também pode ter charme se você permitir. Seu timbre também basta se você souber ouvi-lo. Os sons da sua vida podem ser bonitos por conta própria e nem sempre acordes alheios são necessários para uma boa canção. As melhores melodias surgem da verdade e é melhor uma verdade solitária do que um amor de mentirinha.
Você pode se empertigar no abraço de alguém e fazer de conta que encaixa e que te completa só para não precisar enfrentar a escuridão da noite sozinho ou uma manhã sem alguém para te desejar bom dia. Claro que pode. E é simples e fácil. Mas, a longo prazo, não compensa. Por outro lado, você pode se dar ao luxo de jantar sozinho em um bom restaurante. Ou de sentar em uma mesinha discreta de uma cafeteria e apreciar a companhia do café quentinho e dos seus próprios pensamentos. Pode parecer difícil no começo, mas é maravilhoso. Por mais que te olhem obliquamente, garanto que está tudo bem. Vai lá. Pede o que te agradar no menu e seja feliz. Ser feliz por conta própria, sem depender de ninguém. Tem poesia mais linda que essa?
Tudo isso para dizer algo que é muito simples, no final das contas. Aprenda a ser sozinho primeiro. Entenda que não é o fim do mundo se não tiver alguém para te mandar uma mensagem fora de hora. Aprenda a sorrir com as pequenas coisas que você se permite e entenda que, algumas delas, ninguém além de você pode se proporcionar. Aprenda a singeleza da solidão benéfica e então, quando encontrar a pessoa certa, você terá certeza. Diferente de quem pula de galho em galho para não arriscar a dureza do chão frio, você reconhecerá os olhos e o sorriso da pessoa certa. Se é que ela existe. Porque, cá pra nós, é perfeitamente natural que você seja feliz sozinho pelo resto da sua vida. Seja sua própria pessoa e, se outra pessoa aparecer, some-a à sua vida sem descartar o que já aprendeu ou anular sua sábia existência solitária. Somente quando tiver essa maturidade emocional você vai conseguir se jogar nos braços de alguém sem criar expectativas absurdas. Aprenda o silêncio. Aprenda o barulho. Aprenda a cantar e caminhar sozinho. A ter sua trilha sonora particular. A ir ao cinema sem companhia alguma. A tomar um café em um lugar que você gosta sem se preocupar se estão pensando que você levou um bolo. A ficar na cama sem precisar entrelaçar suas pernas com outras. A amar sem depender. A sentir suas dores individualmente. A chorar e a sorrir. A encontrar sua paz interior. Apenas aprenda a ser sozinho antes de ser de mais alguém. Sério. Aprenda a ser sozinho.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O último amor.

O amor é empático. Ela teve tal convicção quando ele a beijou com imensa cautela, inundado pelo receio de que ela saísse correndo. Ele a entendia e, mais do que isso, percebia o que ela poderia sentir naquela situação. Compreendia suas emoções, assim como ela compreendia as dele. Enquanto segurava seu rosto entre as mãos com leveza, ela via em seus olhos o verdadeiro cuidado com que ele conduzia os primeiros laços daquele romance. O amor é empático e altruísta. Ele queria o bem dela acima de qualquer coisa e ela queria que ele fosse feliz. Sabiam escutar o que nem mesmo haviam dito, seu envolvimento transcendendo qualquer experiência humana. Ela nem sabia se acreditava mesmo naquilo, mas estava acontecendo. Estar com ele trazia a paz que ela não tinha mais e estar com ela trazia o palpitar que o coração dele ainda não conhecia. Eram compatíveis. Enxergavam o passado um do outro e, mesmo assim, preferiam o presente. Foram feitos um para o outro; nada, além disso, poderia explicar o que aconteceu naquela noite.

Eles se conheciam há muito tempo, mas foi no meio de uma festa de casamento que a vida os tocou com a destreza que só ela tem. Estavam na mesma mesa, rindo sobre alguma bobagem aleatória, quando a troca de olhares sutilmente se transformou em algo mais do que a habitual amizade. Um brilho, uma faísca, um querer inesperado. Nenhum dos dois conseguiu deixar de lado a sensação estranha, por maior que fosse o esforço. A força daquele fascínio apenas aumentou no transcorrer dos quartos de hora.
Quando um cover melódico de “take me to church” começou a tocar ele a tirou para dançar com um sorriso no rosto. Uma espécie de brincadeira que acabou se tornando mais do que isso. Ele a puxou para perto e os dois riram enquanto dançavam suavemente – se é que se podia chamar aquilo de dança. Ela encostou o rosto no ombro dele até as risadas desaparecerem. De repente, estava tão ciente do toque em sua cintura e da proximidade de seus corpos que todo o resto ficou nebuloso. Ergueu os olhos e a barba por fazer dele estava tão perto que roçava em seu rosto, uma eletricidade intensa corroendo a ambos, os cheiros se impregnando para sempre. Ele sussurrou um pedido para que saíssem dali e a puxou pela mão até o espaço externo, onde um gazebo iluminado e cheio de flores estava solitário e esquecido. Ali era possível ouvir a música distante e abafada e o farfalhar da saia longa do vestido dela, mas, acima de tudo, o batimento cardíaco ridiculamente acelerado dos dois. A iluminação mais fraca ressaltou os olhos brilhantes dele e contornou sua feição maravilhosa. Por outro lado, ele teve certeza de que nunca a vira mais linda do que naquele momento, cercada por uma penumbra suave e amarelada. Os pontos cintilantes do vestido faziam com ela parecesse um anjo vestido de estrelas cadentes.
“Como eu não percebi antes que era você? Sempre foi você”, ele disse baixinho. Aconteceu do jeito simples que os melhores amores acontecem. O mundo congelou no momento em que ele segurou a mão dela e olhou em seus olhos mais uma vez, agora com a certeza sobrepondo a dúvida. Não havia espaço para dúvida, afinal, ou mesmo para ceticismo. Eles sabiam que aquele instante era apenas a conclusão da história gerada por um fio desencapado. Ele conhecia todos os receios dela, todo o passado que a tornara a ferida aberta que era e, mesmo assim, não havia questionamentos sobre aquela ser ou não a mulher da sua vida. Ela, por sua vez, deixava os dissabores e a languidez para trás ao lado dele. Aquele sorriso sempre fora capaz de fazê-la sorrir também e acreditar em uma vida melhor.
Ela tinha dezenas de ressalvas guardadas no peito, mas elas pareciam desvanecer lentamente enquanto ele a trazia para um abraço. “Você tem medo?”, ele perguntou. Ela fechou os olhos, ouvindo Sam Smith ao fundo, e deixou que seu coração vencesse a luta pela primeira vez em muitos anos. “Quando você me abraça, é como se meus antigos medos tivessem medo de você”, respondeu. “Million years ago” tocava quando ele a olhou e sorriu mais uma vez. Era estranho que, no meio de uma festa de casamento, tantas de suas músicas favoritas fossem tocadas, especialmente pela melancolia que tinham em comum.
Ele mudara seu futuro com a facilidade de quem quebra um graveto. Era uma noite fria, mas não havia vento que pudesse penetrar no calor que emanavam. Seus rostos se aproximaram, os lábios se tocando em um beijo suave, e ele a puxou contra si. Era quase como se pudessem fundir suas curvas, tão perfeitos eram um para o outro. Preenchiam-se de uma forma que, até aquele segundo, nem sabiam que precisavam ser preenchidos. Completavam-se. Sentiam a cumplicidade fluir enquanto entrelaçavam as mãos ao som de “here, there and everywhere”. Era sublime, como se tudo que viveram antes tivesse sido mera banalidade. Era certo como nada antes fora. Sentiam seus corações pulsando como se fossem explodir. Quando se olharam mais uma vez, na penumbra de luzes fracas e cheiro adocicado de flores, encontraram um no outro a certeza do amor que arranca o fôlego e que nem todos têm a chance de viver. Ele a beijou com imensa cautela, com receio de que ela saísse correndo... Mas ela jamais o faria. Estava tão certa de que aquele era o homem de sua vida quanto ele de que ela era seu destino. E, então, eram apenas três. Ele, ela e a batida ritmada da música.
“O amor é o remédio faixa preta que a vida te empresta sem prescrição ou exigência de receita, mas que tem tantos efeitos colaterais que acaba por te colocar no hospício de sua própria mente”, ela costumava dizer. Mas aquele amor parecia diferente. Parecia carregar a promessa de paz como efeito colateral. Ela queria paz. Ela o queria. “Como fazer se, de repente, me vejo encantada e estranhamente apaixonada por cada mínimo detalhe seu? O que fazer quando o amor chega assim, sem pedir licença, derrubando defesas e passados? Quando o amor diz: ‘esquece, tá na hora de começar de novo’ e escolhe por você, não há mais como ficar inerte. E aí não importa se você está aí e eu aqui. O encanto é maior do que isso”, ela balbuciou. “Eu aqui e você aí?”, ele respondeu com uma risada silenciosa, “isso não existe... Agora somos apenas nós”. Ela sorriu seu sorriso mais verdadeiro. Era ele, enfim, acariciando seus cabelos com a ternura suave do amor.

No quarto do hospital, branco, limpo e tão impessoal que era mais um golpe no estômago, a mãe da moça a olhava com tamanho afeto que poderia jurar que existia um resquício de sorriso em seus lábios. Era a imensa saudade provocando peças, é claro, mas era acalentador imaginar que, mesmo naquela situação, sua filha ainda era capaz de sorrir. Era uma noite fria e a mãe acariciava os cabelos da filha pela última vez, com a ternura suave do amor, quando o médico entrou. Os papéis já estavam assinados e restava a certeza de que nada mais poderia ser feito. Havia música ali, naquele pequeno quarto solitário. “Eu queria que ela ouvisse suas canções preferidas uma última vez”, explicou a mãe. “Take me to church”, “million years ago” e “here, there and everywhere”, além de outras tantas melodias, invadiam o espaço através de um pequeno aparelho. Músicas tristes, mas que abafavam o bipe incessante dos aparelhos de suporte à vida. O médico sorriu, compadecendo-se da tristeza do momento. Esperou que a mãe chorasse sobre o corpo inerte de sua filha e confirmasse que, enfim, estava pronta para o adeus. Ela acenou com a cabeça ao expulsar da garganta um soluço de dor.
Enquanto a última música tocava e as telas e máquinas ficavam uma a uma escuras e silenciosas, duas coisas aconteciam em algum plano diferente do mundo. A moça já não estava mais na festa; estava agora sentada em um confortável sofá, anos depois, derramando uma lágrima e dizendo “sim” ao pedido daquele que era o homem da sua vida. Ele, também naquele exato instante, andava pelas ruas da cidade - uma mão no bolso e a outra segurando um copo de café para espantar o frio da noite - imaginando, com a fé inabalável daqueles que ainda acreditam no amor, em qual esquina encontraria a mulher com quem fora destinado a viver.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Brigadeiro.

Eu já errei muitas vezes o ponto do brigadeiro até encontrar o jeitinho que quase sempre costuma funcionar. E mesmo assim tem o quase ali no meio. Não nasci sabendo. Já achei que estava enxergando o fundo da panela e era ilusão, assim como já deixei passar do ponto. Todo mundo erra, todos temos dias ruins. Vale para a vida e para o brigadeiro. Já fiz alguns que ficaram parecendo bala toffee de tão duros e outros que mais pareciam calda de bolo. Aí, com o passar do tempo, acabei pegando a manha, entendendo o tal do brigadeiro e descobrindo como ele gosta de ser tratado. Ele quer ingredientes de qualidade, isso é básico. Não dá pra usar chocolate hidrogenado esperando o mesmo resultado de chocolate belga. Margarina também não ajuda, vai por mim e confia na manteiga. Fogo muito alto não serve porque ele queima antes de ficar pronto ou vira aquele tipo de docinho chiclete que gruda nos dentes. Ele gosta de fogo baixo, de lentidão e paciência. Gosta de ir ficando pronto aos poucos, tem pavor de pressa. Espera ser mexido sem parar, especialmente quando já borbulha. Quando desgruda da panela, ainda precisa do seu próprio tempo para esfriar antes de ser modelado na forma que foi criado para ter; não adianta querer que ele tome jeito enquanto morno, não é assim que funciona. E, quando está tudo pronto, ainda é preciso escolher o confeito em que ele será mergulhado. Não dá para querer que o mais barato funcione; ou você capricha, ou o que era enfeite doce e lindo estraga o sabor.
Eu também errei muitas vezes o ponto do amor e até hoje não encontrei o jeitinho, a manha, o truque para que ele dê certo. Talvez porque isso não exista de fato. Encontrar o ponto do brigadeiro é infinitamente mais fácil do que o do amor, mas o que percebi, ao longo do caminho e das experiências desastrosas, é que em muitos aspectos ambos são idênticos. Já tive amores suaves como calda e outros duros como bala toffee; nenhum funcionou porque, afinal de contas, o ponto certo existe por um motivo. Um motivo que se chama equilíbrio. Amor também precisa de ingredientes de qualidade. Não adianta jogar ali desconfiança, ingratidão, desapego; ele quer resiliência, lealdade, o olhar mais bonito e o sorriso mais verdadeiro. É até mais fácil porque não custa caro como chocolate belga e não é necessário procurar em mercados... Essas coisas moram dentro de nós, mesmo que muitas vezes não queiram dar as caras. Mais uma vez, não dá pra usar mentiras esperando o mesmo resultado de sinceridade. Eu-te-amo de mentirinha também não ajuda, vai por mim e confia no eu-te-amo na hora certa, aquele que chega a sufocar de tão verdadeiro que é.
E tem a questão da temperatura do fogo. Amor puro não se cultiva com temperaturas altíssimas: isso é paixão. O amor se contenta com as pequenas brasas, com o fogo baixo e com a paciência que vem dele. Ainda que precise de faíscas constantes, o amor implora por paciência, assim como o brigadeiro. O fogo tem uma capacidade destrutiva que muitas vezes o amor, por mais forte que seja, não suporta. Ele odeia pressa. Quando a temperatura é muito mais alta do que o limite tolerável o amor endurece até o ponto em que não é possível sequer encostar uma colher... Ou um afago. Ele se constrói aos poucos, manhã após manhã, sorriso após sorriso, lágrima após lágrima. Amor requer a lentidão dos abraços quentinhos, o movimento constante dos toques de carinhos, a calma do colo e, principalmente, a compreensão de que ele vai borbulhar, amornar e esfriar. O esfriar de um amor muitas vezes não significa seu fim, apenas seu amadurecimento. É sua forma de dizer que está pronto, que já não é mais mera paixão. É quando, então, chega a hora de escolher os confeitos. E é aí que mora a grande diferença: enquanto o brigadeiro precisa daquele algo a mais, o amor dispensa. Não requer cores, novos sabores, cobertura. O amor é singelo e não precisa de ornamentos. Ele é bonito por natureza, simplesmente por ser amor. Se você enxerga no fundo dos olhos da pessoa o melhor sabor do mundo, é isso. Desgrudou da panela, tá no ponto certo.
São tantos sabores e amores, cada qual com seu ponto e tempo de preparo corretos. Um brigadeiro de pistache não é igual a um brigadeiro de paçoca. E amor nenhum é igual a outro. Você pode acertar de primeira e acabar com o melhor sabor do mundo, como também pode errar e ficar com um doce amargo e um amor azedo. Ou mesmo ralo ou duro demais. E talvez a questão seja justamente essa: temos o direito de errar. Está tudo bem em não estar tudo bem. Não somos pacotes completos de ternura, alegria e certezas infalíveis. Temos falhas no meio do caminho. Muitas. Às vezes falta persistir um pouco mais, mexer com mais vigor o brigadeiro, aumentar o tempo de fogo ainda que o braço doa. Às vezes basta a percepção de que está na hora de deixar esfriar... Seja para que fique pronto ou para que a gente descubra que não deu certo mesmo e não tem cura. Porque amor, assim como brigadeiro, não tem remédio. E, mais importante do que tudo, ele não deve precisar de um. Amor é dúbio e difícil de prever, mas é ele mesmo sem precisar de paliativos. O verdadeiro amor é tão simples como morder aquele brigadeiro incrível. Você nem imagina todo o esforço e carinho que foram necessários para aquele resultado, mas, acredite, ele se construiu aos poucos. Foi aquele gesto que você nem percebeu que teve, aquela atitude que tomou sem pensar nas razões, aquele cuidado leve e demorado. Foi todo o tempo que você suou, dedicou e empreendeu naquela única coisa. Aquela única coisa que, de tão deliciosa, pode mudar suas percepções de mundo e transformar o impossível em algo próximo. Aquela única coisa cujo empenho te faz sorrir e aceitar expor fragilidades, uma miríade de emoções viscerais e imperfeições. É amor. Ou apenas um bom brigadeiro com café fumegante em uma tarde chuvosa.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Só uma canção e nada mais.

No fundo da minha mente há sempre uma canção momentânea e diferente, como se a vida tivesse trilha sonora. Às vezes a música é gentil e melancólica, outras vezes agitada e angustiante. Na maior parte do tempo, costuma ser somente o som da solidão; muita gente nunca reparou em quão sonora ela pode ser. Quando o som vazio e triste chega, como os primeiros acordes de uma partitura de Beethoven, eu deito e me encolho sozinha no travesseiro macio pensando em como a vida me enclausurou em minha carcaça. Com frequência apenas fecho os olhos e ouço os toques com a atenção de quem tenta aprender algo complexo. Em outras ocasiões o peso é tamanho que perco o foco da vida. Em raros momentos, pego-me querendo mais do que tudo que a voz que canta sem parar seja real. Que esteja logo ao lado, sussurrando com suavidade uma melodia em meu ouvido. Que haja alguém, com carinho e ternura, criando cânticos de afeto e não mais de utopias vazias.
No meio de uma canção alta demais, esse cara sentou ao meu lado para trocar uma ideia. Algo corriqueiro, já que nos conhecemos. Mas o sorriso dele é desses que fazem a cabeça surtar e a vista ficar um pouco turva. Ele tem aquele olhar embriagante que me faz impulsivamente querer puxar a cadeira mais para perto. Quero uma distância de poucos milímetros só pra ver se consigo transportar minha vida lá pra dentro porque parece ser melhor de alguma forma. Parece ter silêncio ao invés de canção e silêncio soa como se lá eu fosse estar tranquila de um jeito que aqui fora tem sido impossível. Quando sua cabeça não para de criar versos, dia e noite, silêncio é sinônimo de paz. Eventualmente, a proximidade vem. Uma leve encostada no ombro e uma provocação e logo passa. É só um momento, fugaz como tantos outros, mas a pele fica queimando como ferida que só um novo toque pode acalmar.
Houve uma piada idiota no meio do caminho e, sem que eu me desse conta e erguesse meus muros, ele me abraçou com o corpo quente no vento gelado. A música retumbou. Um abraço rápido, mas demorado o bastante para que eu fechasse os olhos e me sentisse segura e acolhida. Sim, tem segurança aí, me deixa mergulhar... Só um minutinho, eu sei nadar de volta para a superfície. Fique me queimando com a sua pele em brasa, independente das feridas que possam surgir depois. E aí eu acordo do transe e lembro que não pode ser assim, que deixei de saltar para mergulhos inconsequentes na madrugada há muito tempo. Então me afasto, mesmo sabendo que poderia habitar naquele abraço, naquele calor que só deixa o frio fora dele ainda mais arrepiante. 
Esse cara é um mistério. Ele tem a jogada de galanteador, mas não é como qualquer outro. Eu vejo algo diferente, mas não descarto a hipótese de ser a maldita mania de ilusão. Ele é uma mistura de tudo o que há de comum com tudo o que há de extraordinário. As conversas são melhores, o toque é gentil, existe sutileza nos detalhes. Ele é o cara bonito e carismático que ganha corações aleatoriamente, mas também é sério de um jeito muito particular. Ele dança e a música que exala dele é linda porque ele é desses caras apaixonados pela vida e pelos momentos que ela proporciona.
Ele chama a atenção por onde passa. Tão cheio de qualidades que pode até parecer arrogante, mas não é. Gosta de ouvir histórias de todos os tipos porque a vida em sociedade o encanta. Para ele não é bizarro que eu tenha traumas e inseguranças, é apenas humano. Nos últimos anos não conheci ninguém que pensasse assim, mas algo me diz que ele não dimensiona a palavra trauma exatamente como deveria. Ainda assim, são muitas coisas em comum e, ao mesmo tempo, tantas diferenças que fica difícil contabilizar. Ele tem uma armadura, assim como eu tenho a minha, muito mais rígida e pesada. Tem dúvidas, mas tem esperança. Ele busca a paz interior, mesmo que não saiba. E, acima de tudo, ele sorri e todo o resto vai embora porque emana dali uma cantiga de mansidão.
Antes que a noite acabasse, ele beijou minha mão e a segurou entre as suas por incontáveis e longos minutos. Um toque do qual costumo fugir, mas que parecia certo demais, ainda que sem motivo. Na verdade, até me deixei levar e sorri. As mãos encaixaram. O olhar me fez corar. Mas era fim de noite e ele foi embora. Junto dele foram os sons bonitos e voltaram os gritos do vazio.
Depois, já deitada no escuro, ouvindo mentalmente minha trilha sonora solitária, me descubro transformando “ele” em “você”. É incrível como um simples alguém vira um “você” nos meus fáceis e leves devaneios. Me pego, entre pensamentos, querendo você (já você) aqui. Querendo te beijar e te descobrir, querendo que você me beije e me descubra. Porque algo desconhecido grita bem alto que é você. E quem sou eu para silenciar meu próprio querer? Me descubro, acima de tudo, querendo que a voz real que tanto anseio seja a sua. Inesperadamente vejo em você minha trilha sonora. Sinto a urgência de cuidar do seu calor e ser cuidada. De amar e ser amada. Me acolhe nos seus braços com esse seu jeito único. Abre esse sorriso que me arrepia. Canta nos meus ouvidos, suave como um sussurro, uma canção para eu dormir. Me empresta seu colo, seu olhar e seu apreço. Eu não pensei que pudesse amar de novo e nem tenho certeza de que isso é possível, mas estou cansada de cantar para mim mesma até pegar no sono. Então canta pra mim. Só uma música ou duas, quem sabe. Se desafinar, não tem problema. É só um murmuro, um cochicho, um sussurro chiado. É só uma canção de verdade ao invés dessa loucura das melodias irreais que nunca cessam. Canta pra mim. Só uma canção e nada mais. E parafraseando Leminski, “vê bem onde pises, pode ser meu coração”.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Eu mereço mais do que você.

Quando terminou, ele me disse tudo que eu não era. Bradou aos quatro ventos algumas coisas e sussurrou outras, mas não deixou nada em branco. Falou tudo que faltava e tudo o que, por outro lado, estava presente em demasia. Ou um ou outro. Nada estava na metade do caminho, nada era como tinha que ser. Eu era a pior namorada do mundo. Já não era mais bonita o bastante, tinha emagrecido demais. Estava obcecada e insegura. Não era mais divertida ou boa companhia, toda a minha graça fora drenada para longe. Ele fez um “teste” para descobrir como seria viver comigo todos os dias e, como se fosse um desses questionários irônicos e mal formulados de internet, não gostou do resultado. Eu era alguém que o puxava para baixo em todos os sentidos. Estar ao meu lado o deixava mal perante todo mundo, mesmo que tudo que eu fizesse fosse para tentar fazê-lo sorrir. Eu não era boa o bastante para que ele lutasse por mim quando foi necessário. Quando o peso do mundo caiu sobre nossas costas, ele achou que eu deveria carregá-lo sozinha. E quando precisou escolher entre a garota que o amava ou o resto do mundo, escolheu o resto do mundo. Obviamente.
Eu mereci tudo de ruim que me aconteceu. Ao menos foi o que ele disse. Todas as dores físicas e emocionais, as pancadas e porradas, abstratas ou não. O olho roxo e o coração estraçalhado. Eu fiz por merecer. Em essência, eu era a catástrofe em pessoa. Mal sabe ele que a insegurança que eu sempre tive só cresceu durante nosso namoro. E isso, hoje eu sei, não é nem de longe minha culpa. Foi ele quem me fez acreditar em um amor que depois demonstrou aos poucos que nem sequer existia.
Eu simplesmente não era o bastante. Deveria parar de escrever, deixar de ser ridícula. Era introspectiva demais, misteriosa demais, mas, ao mesmo tempo, expunha muito nos meus rabiscos. No começo ele amava - tanto o mistério intrínseco quanto os escritos - mas depois encheu o saco. Eu era chata. Assistia futebol, lutas, séries, filmes e qualquer outra coisa com entusiasmo real, só por serem coisas que curto, mas mesmo assim era entediante. Saía pra beber com ele e também o deixava sair com os amigos numa boa; era parceira, mas depois isso também encheu o saco. Não era o tipo de namorada que a família dele queria; eu não era, nem de longe, uma princesa, sendo que eles precisavam de uma. Sou do tipo que ri com vigor, bebe cerveja na roda com os amigos, chora quando precisa e come o que dá prazer. Aliás, sempre fui totalmente entregue aos prazeres, fossem os meus ou os dele. Sem medo de estragar cabelo ou borrar maquiagem, eu me jogava nos braços dele a cada encontro como se anos tivessem se passado entre um e outro. Eu me jogava porque o quentinho daquele abraço era o meu lugar no mundo. Se há algo que me define é a honestidade no jeito de ser. Ou melhor, eu era assim antes de ser podada por ele. Antes de ele dizer que esses meus galhos tinham que ir embora. Eu me deixei cortar sem luta e, com cada tesourada crua, um pedaço meu morreu e não soube mais renascer. Não foi poda que embeleza; foi sacrifício mesmo.
Eu não soube apreciar tudo que ele fez por mim. Me amar, inclusive, foi uma espécie de favor que eu não soube reconhecer. Dá para entender, não é fácil amar alguém como eu. Cheia de defeitos, escoriações, problemas que não somem só porque o sorriso do cara te faz derreter por dentro. Eu o amava mais do que tudo, mas não era o bastante. Tudo o que eu fiz foi errado e, no fim das contas, ele nem me amava de verdade, só disse o que sabia que eu queria ouvir. Foi o que ele disse, ao menos, junto com todas as outras verdades tão bem escondidas e depois covardemente, com voz áspera e olhar injetado, jogadas na cara. 
No nosso fim, eu já era triste demais. Não sabia mais sorrir. Tinha pesadelos todas as noites e ele estava cansado de cuidar de mim, me segurar nos braços e dizer que eu podia voltar a dormir porque tudo estava seguro. Era algo que ele gostava no começo; que eu pudesse confiar nele, que conseguisse dormir com a respiração mais tranquila quando seus braços estavam ali, quando o calor do corpo me aquecia. Que o carinho sutil no cabelo me fizesse adormecer pensando em amor. Depois cansou. Poxa, ninguém aguenta uma pessoa que não dorme sorrindo. Culpa minha, que tenho pesadelos. Que tenho depressão. Que sou intolerável.
Desisti de quase tudo de mim por ele; princípios, decisões que já eram seguras e firmes, escolhas de futuro, parte da minha alma. Aprendi a viver sendo só metade ou ainda menos que isso. Passei esses últimos anos acreditando em cada palavra cruel que ouvi da boca que amei. Se antes era insegura, ele conseguiu me transformar em desespero. Se antes o sorriso era fugaz, depois dele se tornou relíquia. Justo depois dele, que tanto me fez sorrir. Hoje é difícil mentir que mostrar os dentes é algo sincero. Passei anos acreditando em tudo isso e que talvez eu nem devesse me dar ao trabalho de tentar certas coisas, já que não seria mesmo capaz. Já que eu sou uma pessoa tão horrível, que não vale o esforço. Já que sempre serei deixada porque não dá para aguentar meus tormentos para sempre. E os pesadelos. Ah, os pesadelos enchem muito o saco mesmo. 
A questão é que eu nunca pedi que ele cuidasse de mim, me abraçasse em um sufoco no meio da noite, me apertasse para dizer que estava tudo bem. Eu nunca pedi amor. Aliás, eu nem queria amor. Ele foi entregando porque quis. E eu fui permitindo que o amor que eu nem queria chegasse até mim e voltasse até ele. Fui tudo que podia ser, mas descobri que tudo que eu podia ser era muito menos do que ele merecia.
Por essas e outras, odeio quando me dizem que devo esquecer. É claro que eu quero esquecer um ex-amor que só soube me destruir e esmagar. Mas as coisas não funcionam assim. Ou, ao menos, não quando você é alguém como eu. Admito que a vida precisa continuar. E, mais do que isso, admito que estou cansada de aceitar o fracasso que ele me fez crer que sou. Ainda acredito que o amor só machuca, fere, enlouquece e vira tragédia. No fim, nós éramos a personificação de um desastre. No entanto, descobri recentemente que ainda sei sorrir. Discreta e timidamente, de forma sutil, mas sei. E que há uma chance muito remota de o amor ainda valer a pena em raríssimas ocasiões. Talvez não para mim, mas para o mundo lá fora.
Em uma madrugada insone meu celular apitou. Não era ele me dizendo mais um pouco – que talvez tivesse lembrado repentinamente – do que não sou. Era um amigo, artista de voz belíssima e coração de ouro, desses que podemos chamar de raros. Ele me deixou um recado dizendo que eu era uma das pessoas mais talentosas e criativas que já conhecera e que estava impressionado. É estranho que esse cara incrível, por mais amigo que seja, ache que sou boa em algo. Ele nunca achou. Eu sorri sozinha, enquanto um lágrima escorria. No momento dessa junção, senti toda aquela minha honestidade voltar, ainda que escondida entre as paredes do quarto.
As memórias sempre reaparecem, mais dolorosas do que nunca, mas ele nunca vai voltar. Eu jamais permitirei que volte. A vida precisa continuar. Preciso seguir em frente. Já passou da hora. Então, com pesar e prazer, hoje te digo: seu sorriso vai andar comigo para o resto da vida e é você que eu enxergo quando fecho os olhos. Mas não posso mais ser só isso. Não posso mais ser só você. Tudo isso que eu não fui ou que em algum momento deixei de ser me magoa mais do que todo o resto, talvez por terem sido palavras amargas e brutais saindo da boca mais doce do mundo. Mas hoje eu vejo que você estava errado. Eu não sou uma bosta. Eu não merecia tudo o que aconteceu antes e depois de você. Eu não sou um lixo. Eu mereço mais... Mais do que você e seus versos venenosos. Posso não ser linda, mas tenho minhas qualidades. Não sou a princesa que você esperava, mas sou mais parceira do que você merecia. E preciso ter fé em mim. Preciso respirar fundo e passar a acreditar mais em quem me ama do que em quem jamais me amou. Preciso entender que meu amigo, artista cheio de luz, sabe me dar mais valor do que você jamais soube. Nosso fim foi destrutivo, mas talvez nosso durante tenha sido ainda mais. Porque, no meio disso tudo, eu deixei que as suas palavras me anulassem e me transformassem em nada. E me dissipei. Mais do que perder você, eu perdi a mim mesma.
 
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