terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Brigadeiro.

Eu já errei muitas vezes o ponto do brigadeiro até encontrar o jeitinho que quase sempre costuma funcionar. E mesmo assim tem o quase ali no meio. Não nasci sabendo. Já achei que estava enxergando o fundo da panela e era ilusão, assim como já deixei passar do ponto. Todo mundo erra, todos temos dias ruins. Vale para a vida e para o brigadeiro. Já fiz alguns que ficaram parecendo bala toffee de tão duros e outros que mais pareciam calda de bolo. Aí, com o passar do tempo, acabei pegando a manha, entendendo o tal do brigadeiro e descobrindo como ele gosta de ser tratado. Ele quer ingredientes de qualidade, isso é básico. Não dá pra usar chocolate hidrogenado esperando o mesmo resultado de chocolate belga. Margarina também não ajuda, vai por mim e confia na manteiga. Fogo muito alto não serve porque ele queima antes de ficar pronto ou vira aquele tipo de docinho chiclete que gruda nos dentes. Ele gosta de fogo baixo, de lentidão e paciência. Gosta de ir ficando pronto aos poucos, tem pavor de pressa. Espera ser mexido sem parar, especialmente quando já borbulha. Quando desgruda da panela, ainda precisa do seu próprio tempo para esfriar antes de ser modelado na forma que foi criado para ter; não adianta querer que ele tome jeito enquanto morno, não é assim que funciona. E, quando está tudo pronto, ainda é preciso escolher o confeito em que ele será mergulhado. Não dá para querer que o mais barato funcione; ou você capricha, ou o que era enfeite doce e lindo estraga o sabor.
Eu também errei muitas vezes o ponto do amor e até hoje não encontrei o jeitinho, a manha, o truque para que ele dê certo. Talvez porque isso não exista de fato. Encontrar o ponto do brigadeiro é infinitamente mais fácil do que o do amor, mas o que percebi, ao longo do caminho e das experiências desastrosas, é que em muitos aspectos ambos são idênticos. Já tive amores suaves como calda e outros duros como bala toffee; nenhum funcionou porque, afinal de contas, o ponto certo existe por um motivo. Um motivo que se chama equilíbrio. Amor também precisa de ingredientes de qualidade. Não adianta jogar ali desconfiança, ingratidão, desapego; ele quer resiliência, lealdade, o olhar mais bonito e o sorriso mais verdadeiro. É até mais fácil porque não custa caro como chocolate belga e não é necessário procurar em mercados... Essas coisas moram dentro de nós, mesmo que muitas vezes não queiram dar as caras. Mais uma vez, não dá pra usar mentiras esperando o mesmo resultado de sinceridade. Eu-te-amo de mentirinha também não ajuda, vai por mim e confia no eu-te-amo na hora certa, aquele que chega a sufocar de tão verdadeiro que é.
E tem a questão da temperatura do fogo. Amor puro não se cultiva com temperaturas altíssimas: isso é paixão. O amor se contenta com as pequenas brasas, com o fogo baixo e com a paciência que vem dele. Ainda que precise de faíscas constantes, o amor implora por paciência, assim como o brigadeiro. O fogo tem uma capacidade destrutiva que muitas vezes o amor, por mais forte que seja, não suporta. Ele odeia pressa. Quando a temperatura é muito mais alta do que o limite tolerável o amor endurece até o ponto em que não é possível sequer encostar uma colher... Ou um afago. Ele se constrói aos poucos, manhã após manhã, sorriso após sorriso, lágrima após lágrima. Amor requer a lentidão dos abraços quentinhos, o movimento constante dos toques de carinhos, a calma do colo e, principalmente, a compreensão de que ele vai borbulhar, amornar e esfriar. O esfriar de um amor muitas vezes não significa seu fim, apenas seu amadurecimento. É sua forma de dizer que está pronto, que já não é mais mera paixão. É quando, então, chega a hora de escolher os confeitos. E é aí que mora a grande diferença: enquanto o brigadeiro precisa daquele algo a mais, o amor dispensa. Não requer cores, novos sabores, cobertura. O amor é singelo e não precisa de ornamentos. Ele é bonito por natureza, simplesmente por ser amor. Se você enxerga no fundo dos olhos da pessoa o melhor sabor do mundo, é isso. Desgrudou da panela, tá no ponto certo.
São tantos sabores e amores, cada qual com seu ponto e tempo de preparo corretos. Um brigadeiro de pistache não é igual a um brigadeiro de paçoca. E amor nenhum é igual a outro. Você pode acertar de primeira e acabar com o melhor sabor do mundo, como também pode errar e ficar com um doce amargo e um amor azedo. Ou mesmo ralo ou duro demais. E talvez a questão seja justamente essa: temos o direito de errar. Está tudo bem em não estar tudo bem. Não somos pacotes completos de ternura, alegria e certezas infalíveis. Temos falhas no meio do caminho. Muitas. Às vezes falta persistir um pouco mais, mexer com mais vigor o brigadeiro, aumentar o tempo de fogo ainda que o braço doa. Às vezes basta a percepção de que está na hora de deixar esfriar... Seja para que fique pronto ou para que a gente descubra que não deu certo mesmo e não tem cura. Porque amor, assim como brigadeiro, não tem remédio. E, mais importante do que tudo, ele não deve precisar de um. Amor é dúbio e difícil de prever, mas é ele mesmo sem precisar de paliativos. O verdadeiro amor é tão simples como morder aquele brigadeiro incrível. Você nem imagina todo o esforço e carinho que foram necessários para aquele resultado, mas, acredite, ele se construiu aos poucos. Foi aquele gesto que você nem percebeu que teve, aquela atitude que tomou sem pensar nas razões, aquele cuidado leve e demorado. Foi todo o tempo que você suou, dedicou e empreendeu naquela única coisa. Aquela única coisa que, de tão deliciosa, pode mudar suas percepções de mundo e transformar o impossível em algo próximo. Aquela única coisa cujo empenho te faz sorrir e aceitar expor fragilidades, uma miríade de emoções viscerais e imperfeições. É amor. Ou apenas um bom brigadeiro com café fumegante em uma tarde chuvosa.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Só uma canção e nada mais.

No fundo da minha mente há sempre uma canção momentânea e diferente, como se a vida tivesse trilha sonora. Às vezes a música é gentil e melancólica, outras vezes agitada e angustiante. Na maior parte do tempo, costuma ser somente o som da solidão; muita gente nunca reparou em quão sonora ela pode ser. Quando o som vazio e triste chega, como os primeiros acordes de uma partitura de Beethoven, eu deito e me encolho sozinha no travesseiro macio pensando em como a vida me enclausurou em minha carcaça. Com frequência apenas fecho os olhos e ouço os toques com a atenção de quem tenta aprender algo complexo. Em outras ocasiões o peso é tamanho que perco o foco da vida. Em raros momentos, pego-me querendo mais do que tudo que a voz que canta sem parar seja real. Que esteja logo ao lado, sussurrando com suavidade uma melodia em meu ouvido. Que haja alguém, com carinho e ternura, criando cânticos de afeto e não mais de utopias vazias.
No meio de uma canção alta demais, esse cara sentou ao meu lado para trocar uma ideia. Algo corriqueiro, já que nos conhecemos. Mas o sorriso dele é desses que fazem a cabeça surtar e a vista ficar um pouco turva. Ele tem aquele olhar embriagante que me faz impulsivamente querer puxar a cadeira mais para perto. Quero uma distância de poucos milímetros só pra ver se consigo transportar minha vida lá pra dentro porque parece ser melhor de alguma forma. Parece ter silêncio ao invés de canção e silêncio soa como se lá eu fosse estar tranquila de um jeito que aqui fora tem sido impossível. Quando sua cabeça não para de criar versos, dia e noite, silêncio é sinônimo de paz. Eventualmente, a proximidade vem. Uma leve encostada no ombro e uma provocação e logo passa. É só um momento, fugaz como tantos outros, mas a pele fica queimando como ferida que só um novo toque pode acalmar.
Houve uma piada idiota no meio do caminho e, sem que eu me desse conta e erguesse meus muros, ele me abraçou com o corpo quente no vento gelado. A música retumbou. Um abraço rápido, mas demorado o bastante para que eu fechasse os olhos e me sentisse segura e acolhida. Sim, tem segurança aí, me deixa mergulhar... Só um minutinho, eu sei nadar de volta para a superfície. Fique me queimando com a sua pele em brasa, independente das feridas que possam surgir depois. E aí eu acordo do transe e lembro que não pode ser assim, que deixei de saltar para mergulhos inconsequentes na madrugada há muito tempo. Então me afasto, mesmo sabendo que poderia habitar naquele abraço, naquele calor que só deixa o frio fora dele ainda mais arrepiante. 
Esse cara é um mistério. Ele tem a jogada de galanteador, mas não é como qualquer outro. Eu vejo algo diferente, mas não descarto a hipótese de ser a maldita mania de ilusão. Ele é uma mistura de tudo o que há de comum com tudo o que há de extraordinário. As conversas são melhores, o toque é gentil, existe sutileza nos detalhes. Ele é o cara bonito e carismático que ganha corações aleatoriamente, mas também é sério de um jeito muito particular. Ele dança e a música que exala dele é linda porque ele é desses caras apaixonados pela vida e pelos momentos que ela proporciona.
Ele chama a atenção por onde passa. Tão cheio de qualidades que pode até parecer arrogante, mas não é. Gosta de ouvir histórias de todos os tipos porque a vida em sociedade o encanta. Para ele não é bizarro que eu tenha traumas e inseguranças, é apenas humano. Nos últimos anos não conheci ninguém que pensasse assim, mas algo me diz que ele não dimensiona a palavra trauma exatamente como deveria. Ainda assim, são muitas coisas em comum e, ao mesmo tempo, tantas diferenças que fica difícil contabilizar. Ele tem uma armadura, assim como eu tenho a minha, muito mais rígida e pesada. Tem dúvidas, mas tem esperança. Ele busca a paz interior, mesmo que não saiba. E, acima de tudo, ele sorri e todo o resto vai embora porque emana dali uma cantiga de mansidão.
Antes que a noite acabasse, ele beijou minha mão e a segurou entre as suas por incontáveis e longos minutos. Um toque do qual costumo fugir, mas que parecia certo demais, ainda que sem motivo. Na verdade, até me deixei levar e sorri. As mãos encaixaram. O olhar me fez corar. Mas era fim de noite e ele foi embora. Junto dele foram os sons bonitos e voltaram os gritos do vazio.
Depois, já deitada no escuro, ouvindo mentalmente minha trilha sonora solitária, me descubro transformando “ele” em “você”. É incrível como um simples alguém vira um “você” nos meus fáceis e leves devaneios. Me pego, entre pensamentos, querendo você (já você) aqui. Querendo te beijar e te descobrir, querendo que você me beije e me descubra. Porque algo desconhecido grita bem alto que é você. E quem sou eu para silenciar meu próprio querer? Me descubro, acima de tudo, querendo que a voz real que tanto anseio seja a sua. Inesperadamente vejo em você minha trilha sonora. Sinto a urgência de cuidar do seu calor e ser cuidada. De amar e ser amada. Me acolhe nos seus braços com esse seu jeito único. Abre esse sorriso que me arrepia. Canta nos meus ouvidos, suave como um sussurro, uma canção para eu dormir. Me empresta seu colo, seu olhar e seu apreço. Eu não pensei que pudesse amar de novo e nem tenho certeza de que isso é possível, mas estou cansada de cantar para mim mesma até pegar no sono. Então canta pra mim. Só uma música ou duas, quem sabe. Se desafinar, não tem problema. É só um murmuro, um cochicho, um sussurro chiado. É só uma canção de verdade ao invés dessa loucura das melodias irreais que nunca cessam. Canta pra mim. Só uma canção e nada mais. E parafraseando Leminski, “vê bem onde pises, pode ser meu coração”.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Eu mereço mais do que você.

Quando terminou, ele me disse tudo que eu não era. Bradou aos quatro ventos algumas coisas e sussurrou outras, mas não deixou nada em branco. Falou tudo que faltava e tudo o que, por outro lado, estava presente em demasia. Ou um ou outro. Nada estava na metade do caminho, nada era como tinha que ser. Eu era a pior namorada do mundo. Já não era mais bonita o bastante, tinha emagrecido demais. Estava obcecada e insegura. Não era mais divertida ou boa companhia, toda a minha graça fora drenada para longe. Ele fez um “teste” para descobrir como seria viver comigo todos os dias e, como se fosse um desses questionários irônicos e mal formulados de internet, não gostou do resultado. Eu era alguém que o puxava para baixo em todos os sentidos. Estar ao meu lado o deixava mal perante todo mundo, mesmo que tudo que eu fizesse fosse para tentar fazê-lo sorrir. Eu não era boa o bastante para que ele lutasse por mim quando foi necessário. Quando o peso do mundo caiu sobre nossas costas, ele achou que eu deveria carregá-lo sozinha. E quando precisou escolher entre a garota que o amava ou o resto do mundo, escolheu o resto do mundo. Obviamente.
Eu mereci tudo de ruim que me aconteceu. Ao menos foi o que ele disse. Todas as dores físicas e emocionais, as pancadas e porradas, abstratas ou não. O olho roxo e o coração estraçalhado. Eu fiz por merecer. Em essência, eu era a catástrofe em pessoa. Mal sabe ele que a insegurança que eu sempre tive só cresceu durante nosso namoro. E isso, hoje eu sei, não é nem de longe minha culpa. Foi ele quem me fez acreditar em um amor que depois demonstrou aos poucos que nem sequer existia.
Eu simplesmente não era o bastante. Deveria parar de escrever, deixar de ser ridícula. Era introspectiva demais, misteriosa demais, mas, ao mesmo tempo, expunha muito nos meus rabiscos. No começo ele amava - tanto o mistério intrínseco quanto os escritos - mas depois encheu o saco. Eu era chata. Assistia futebol, lutas, séries, filmes e qualquer outra coisa com entusiasmo real, só por serem coisas que curto, mas mesmo assim era entediante. Saía pra beber com ele e também o deixava sair com os amigos numa boa; era parceira, mas depois isso também encheu o saco. Não era o tipo de namorada que a família dele queria; eu não era, nem de longe, uma princesa, sendo que eles precisavam de uma. Sou do tipo que ri com vigor, bebe cerveja na roda com os amigos, chora quando precisa e come o que dá prazer. Aliás, sempre fui totalmente entregue aos prazeres, fossem os meus ou os dele. Sem medo de estragar cabelo ou borrar maquiagem, eu me jogava nos braços dele a cada encontro como se anos tivessem se passado entre um e outro. Eu me jogava porque o quentinho daquele abraço era o meu lugar no mundo. Se há algo que me define é a honestidade no jeito de ser. Ou melhor, eu era assim antes de ser podada por ele. Antes de ele dizer que esses meus galhos tinham que ir embora. Eu me deixei cortar sem luta e, com cada tesourada crua, um pedaço meu morreu e não soube mais renascer. Não foi poda que embeleza; foi sacrifício mesmo.
Eu não soube apreciar tudo que ele fez por mim. Me amar, inclusive, foi uma espécie de favor que eu não soube reconhecer. Dá para entender, não é fácil amar alguém como eu. Cheia de defeitos, escoriações, problemas que não somem só porque o sorriso do cara te faz derreter por dentro. Eu o amava mais do que tudo, mas não era o bastante. Tudo o que eu fiz foi errado e, no fim das contas, ele nem me amava de verdade, só disse o que sabia que eu queria ouvir. Foi o que ele disse, ao menos, junto com todas as outras verdades tão bem escondidas e depois covardemente, com voz áspera e olhar injetado, jogadas na cara. 
No nosso fim, eu já era triste demais. Não sabia mais sorrir. Tinha pesadelos todas as noites e ele estava cansado de cuidar de mim, me segurar nos braços e dizer que eu podia voltar a dormir porque tudo estava seguro. Era algo que ele gostava no começo; que eu pudesse confiar nele, que conseguisse dormir com a respiração mais tranquila quando seus braços estavam ali, quando o calor do corpo me aquecia. Que o carinho sutil no cabelo me fizesse adormecer pensando em amor. Depois cansou. Poxa, ninguém aguenta uma pessoa que não dorme sorrindo. Culpa minha, que tenho pesadelos. Que tenho depressão. Que sou intolerável.
Desisti de quase tudo de mim por ele; princípios, decisões que já eram seguras e firmes, escolhas de futuro, parte da minha alma. Aprendi a viver sendo só metade ou ainda menos que isso. Passei esses últimos anos acreditando em cada palavra cruel que ouvi da boca que amei. Se antes era insegura, ele conseguiu me transformar em desespero. Se antes o sorriso era fugaz, depois dele se tornou relíquia. Justo depois dele, que tanto me fez sorrir. Hoje é difícil mentir que mostrar os dentes é algo sincero. Passei anos acreditando em tudo isso e que talvez eu nem devesse me dar ao trabalho de tentar certas coisas, já que não seria mesmo capaz. Já que eu sou uma pessoa tão horrível, que não vale o esforço. Já que sempre serei deixada porque não dá para aguentar meus tormentos para sempre. E os pesadelos. Ah, os pesadelos enchem muito o saco mesmo. 
A questão é que eu nunca pedi que ele cuidasse de mim, me abraçasse em um sufoco no meio da noite, me apertasse para dizer que estava tudo bem. Eu nunca pedi amor. Aliás, eu nem queria amor. Ele foi entregando porque quis. E eu fui permitindo que o amor que eu nem queria chegasse até mim e voltasse até ele. Fui tudo que podia ser, mas descobri que tudo que eu podia ser era muito menos do que ele merecia.
Por essas e outras, odeio quando me dizem que devo esquecer. É claro que eu quero esquecer um ex-amor que só soube me destruir e esmagar. Mas as coisas não funcionam assim. Ou, ao menos, não quando você é alguém como eu. Admito que a vida precisa continuar. E, mais do que isso, admito que estou cansada de aceitar o fracasso que ele me fez crer que sou. Ainda acredito que o amor só machuca, fere, enlouquece e vira tragédia. No fim, nós éramos a personificação de um desastre. No entanto, descobri recentemente que ainda sei sorrir. Discreta e timidamente, de forma sutil, mas sei. E que há uma chance muito remota de o amor ainda valer a pena em raríssimas ocasiões. Talvez não para mim, mas para o mundo lá fora.
Em uma madrugada insone meu celular apitou. Não era ele me dizendo mais um pouco – que talvez tivesse lembrado repentinamente – do que não sou. Era um amigo, artista de voz belíssima e coração de ouro, desses que podemos chamar de raros. Ele me deixou um recado dizendo que eu era uma das pessoas mais talentosas e criativas que já conhecera e que estava impressionado. É estranho que esse cara incrível, por mais amigo que seja, ache que sou boa em algo. Ele nunca achou. Eu sorri sozinha, enquanto um lágrima escorria. No momento dessa junção, senti toda aquela minha honestidade voltar, ainda que escondida entre as paredes do quarto.
As memórias sempre reaparecem, mais dolorosas do que nunca, mas ele nunca vai voltar. Eu jamais permitirei que volte. A vida precisa continuar. Preciso seguir em frente. Já passou da hora. Então, com pesar e prazer, hoje te digo: seu sorriso vai andar comigo para o resto da vida e é você que eu enxergo quando fecho os olhos. Mas não posso mais ser só isso. Não posso mais ser só você. Tudo isso que eu não fui ou que em algum momento deixei de ser me magoa mais do que todo o resto, talvez por terem sido palavras amargas e brutais saindo da boca mais doce do mundo. Mas hoje eu vejo que você estava errado. Eu não sou uma bosta. Eu não merecia tudo o que aconteceu antes e depois de você. Eu não sou um lixo. Eu mereço mais... Mais do que você e seus versos venenosos. Posso não ser linda, mas tenho minhas qualidades. Não sou a princesa que você esperava, mas sou mais parceira do que você merecia. E preciso ter fé em mim. Preciso respirar fundo e passar a acreditar mais em quem me ama do que em quem jamais me amou. Preciso entender que meu amigo, artista cheio de luz, sabe me dar mais valor do que você jamais soube. Nosso fim foi destrutivo, mas talvez nosso durante tenha sido ainda mais. Porque, no meio disso tudo, eu deixei que as suas palavras me anulassem e me transformassem em nada. E me dissipei. Mais do que perder você, eu perdi a mim mesma.
 
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