quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Só uma canção e nada mais.

No fundo da minha mente há sempre uma canção momentânea e diferente, como se a vida tivesse trilha sonora. Às vezes a música é gentil e melancólica, outras vezes agitada e angustiante. Na maior parte do tempo, costuma ser somente o som da solidão; muita gente nunca reparou em quão sonora ela pode ser. Quando o som vazio e triste chega, como os primeiros acordes de uma partitura de Beethoven, eu deito e me encolho sozinha no travesseiro macio pensando em como a vida me enclausurou em minha carcaça. Com frequência apenas fecho os olhos e ouço os toques com a atenção de quem tenta aprender algo complexo. Em outras ocasiões o peso é tamanho que perco o foco da vida. Em raros momentos, pego-me querendo mais do que tudo que a voz que canta sem parar seja real. Que esteja logo ao lado, sussurrando com suavidade uma melodia em meu ouvido. Que haja alguém, com carinho e ternura, criando cânticos de afeto e não mais de utopias vazias.
No meio de uma canção alta demais, esse cara sentou ao meu lado para trocar uma ideia. Algo corriqueiro, já que nos conhecemos. Mas o sorriso dele é desses que fazem a cabeça surtar e a vista ficar um pouco turva. Ele tem aquele olhar embriagante que me faz impulsivamente querer puxar a cadeira mais para perto. Quero uma distância de poucos milímetros só pra ver se consigo transportar minha vida lá pra dentro porque parece ser melhor de alguma forma. Parece ter silêncio ao invés de canção e silêncio soa como se lá eu fosse estar tranquila de um jeito que aqui fora tem sido impossível. Quando sua cabeça não para de criar versos, dia e noite, silêncio é sinônimo de paz. Eventualmente, a proximidade vem. Uma leve encostada no ombro e uma provocação e logo passa. É só um momento, fugaz como tantos outros, mas a pele fica queimando como ferida que só um novo toque pode acalmar.
Houve uma piada idiota no meio do caminho e, sem que eu me desse conta e erguesse meus muros, ele me abraçou com o corpo quente no vento gelado. A música retumbou. Um abraço rápido, mas demorado o bastante para que eu fechasse os olhos e me sentisse segura e acolhida. Sim, tem segurança aí, me deixa mergulhar... Só um minutinho, eu sei nadar de volta para a superfície. Fique me queimando com a sua pele em brasa, independente das feridas que possam surgir depois. E aí eu acordo do transe e lembro que não pode ser assim, que deixei de saltar para mergulhos inconsequentes na madrugada há muito tempo. Então me afasto, mesmo sabendo que poderia habitar naquele abraço, naquele calor que só deixa o frio fora dele ainda mais arrepiante. 
Esse cara é um mistério. Ele tem a jogada de galanteador, mas não é como qualquer outro. Eu vejo algo diferente, mas não descarto a hipótese de ser a maldita mania de ilusão. Ele é uma mistura de tudo o que há de comum com tudo o que há de extraordinário. As conversas são melhores, o toque é gentil, existe sutileza nos detalhes. Ele é o cara bonito e carismático que ganha corações aleatoriamente, mas também é sério de um jeito muito particular. Ele dança e a música que exala dele é linda porque ele é desses caras apaixonados pela vida e pelos momentos que ela proporciona.
Ele chama a atenção por onde passa. Tão cheio de qualidades que pode até parecer arrogante, mas não é. Gosta de ouvir histórias de todos os tipos porque a vida em sociedade o encanta. Para ele não é bizarro que eu tenha traumas e inseguranças, é apenas humano. Nos últimos anos não conheci ninguém que pensasse assim, mas algo me diz que ele não dimensiona a palavra trauma exatamente como deveria. Ainda assim, são muitas coisas em comum e, ao mesmo tempo, tantas diferenças que fica difícil contabilizar. Ele tem uma armadura, assim como eu tenho a minha, muito mais rígida e pesada. Tem dúvidas, mas tem esperança. Ele busca a paz interior, mesmo que não saiba. E, acima de tudo, ele sorri e todo o resto vai embora porque emana dali uma cantiga de mansidão.
Antes que a noite acabasse, ele beijou minha mão e a segurou entre as suas por incontáveis e longos minutos. Um toque do qual costumo fugir, mas que parecia certo demais, ainda que sem motivo. Na verdade, até me deixei levar e sorri. As mãos encaixaram. O olhar me fez corar. Mas era fim de noite e ele foi embora. Junto dele foram os sons bonitos e voltaram os gritos do vazio.
Depois, já deitada no escuro, ouvindo mentalmente minha trilha sonora solitária, me descubro transformando “ele” em “você”. É incrível como um simples alguém vira um “você” nos meus fáceis e leves devaneios. Me pego, entre pensamentos, querendo você (já você) aqui. Querendo te beijar e te descobrir, querendo que você me beije e me descubra. Porque algo desconhecido grita bem alto que é você. E quem sou eu para silenciar meu próprio querer? Me descubro, acima de tudo, querendo que a voz real que tanto anseio seja a sua. Inesperadamente vejo em você minha trilha sonora. Sinto a urgência de cuidar do seu calor e ser cuidada. De amar e ser amada. Me acolhe nos seus braços com esse seu jeito único. Abre esse sorriso que me arrepia. Canta nos meus ouvidos, suave como um sussurro, uma canção para eu dormir. Me empresta seu colo, seu olhar e seu apreço. Eu não pensei que pudesse amar de novo e nem tenho certeza de que isso é possível, mas estou cansada de cantar para mim mesma até pegar no sono. Então canta pra mim. Só uma música ou duas, quem sabe. Se desafinar, não tem problema. É só um murmuro, um cochicho, um sussurro chiado. É só uma canção de verdade ao invés dessa loucura das melodias irreais que nunca cessam. Canta pra mim. Só uma canção e nada mais. E parafraseando Leminski, “vê bem onde pises, pode ser meu coração”.

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