sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O último amor.

O amor é empático. Ela teve tal convicção quando ele a beijou com imensa cautela, inundado pelo receio de que ela saísse correndo. Ele a entendia e, mais do que isso, percebia o que ela poderia sentir naquela situação. Compreendia suas emoções, assim como ela compreendia as dele. Enquanto segurava seu rosto entre as mãos com leveza, ela via em seus olhos o verdadeiro cuidado com que ele conduzia os primeiros laços daquele romance. O amor é empático e altruísta. Ele queria o bem dela acima de qualquer coisa e ela queria que ele fosse feliz. Sabiam escutar o que nem mesmo haviam dito, seu envolvimento transcendendo qualquer experiência humana. Ela nem sabia se acreditava mesmo naquilo, mas estava acontecendo. Estar com ele trazia a paz que ela não tinha mais e estar com ela trazia o palpitar que o coração dele ainda não conhecia. Eram compatíveis. Enxergavam o passado um do outro e, mesmo assim, preferiam o presente. Foram feitos um para o outro; nada, além disso, poderia explicar o que aconteceu naquela noite.

Eles se conheciam há muito tempo, mas foi no meio de uma festa de casamento que a vida os tocou com a destreza que só ela tem. Estavam na mesma mesa, rindo sobre alguma bobagem aleatória, quando a troca de olhares sutilmente se transformou em algo mais do que a habitual amizade. Um brilho, uma faísca, um querer inesperado. Nenhum dos dois conseguiu deixar de lado a sensação estranha, por maior que fosse o esforço. A força daquele fascínio apenas aumentou no transcorrer dos quartos de hora.
Quando um cover melódico de “take me to church” começou a tocar ele a tirou para dançar com um sorriso no rosto. Uma espécie de brincadeira que acabou se tornando mais do que isso. Ele a puxou para perto e os dois riram enquanto dançavam suavemente – se é que se podia chamar aquilo de dança. Ela encostou o rosto no ombro dele até as risadas desaparecerem. De repente, estava tão ciente do toque em sua cintura e da proximidade de seus corpos que todo o resto ficou nebuloso. Ergueu os olhos e a barba por fazer dele estava tão perto que roçava em seu rosto, uma eletricidade intensa corroendo a ambos, os cheiros se impregnando para sempre. Ele sussurrou um pedido para que saíssem dali e a puxou pela mão até o espaço externo, onde um gazebo iluminado e cheio de flores estava solitário e esquecido. Ali era possível ouvir a música distante e abafada e o farfalhar da saia longa do vestido dela, mas, acima de tudo, o batimento cardíaco ridiculamente acelerado dos dois. A iluminação mais fraca ressaltou os olhos brilhantes dele e contornou sua feição maravilhosa. Por outro lado, ele teve certeza de que nunca a vira mais linda do que naquele momento, cercada por uma penumbra suave e amarelada. Os pontos cintilantes do vestido faziam com ela parecesse um anjo vestido de estrelas cadentes.
“Como eu não percebi antes que era você? Sempre foi você”, ele disse baixinho. Aconteceu do jeito simples que os melhores amores acontecem. O mundo congelou no momento em que ele segurou a mão dela e olhou em seus olhos mais uma vez, agora com a certeza sobrepondo a dúvida. Não havia espaço para dúvida, afinal, ou mesmo para ceticismo. Eles sabiam que aquele instante era apenas a conclusão da história gerada por um fio desencapado. Ele conhecia todos os receios dela, todo o passado que a tornara a ferida aberta que era e, mesmo assim, não havia questionamentos sobre aquela ser ou não a mulher da sua vida. Ela, por sua vez, deixava os dissabores e a languidez para trás ao lado dele. Aquele sorriso sempre fora capaz de fazê-la sorrir também e acreditar em uma vida melhor.
Ela tinha dezenas de ressalvas guardadas no peito, mas elas pareciam desvanecer lentamente enquanto ele a trazia para um abraço. “Você tem medo?”, ele perguntou. Ela fechou os olhos, ouvindo Sam Smith ao fundo, e deixou que seu coração vencesse a luta pela primeira vez em muitos anos. “Quando você me abraça, é como se meus antigos medos tivessem medo de você”, respondeu. “Million years ago” tocava quando ele a olhou e sorriu mais uma vez. Era estranho que, no meio de uma festa de casamento, tantas de suas músicas favoritas fossem tocadas, especialmente pela melancolia que tinham em comum.
Ele mudara seu futuro com a facilidade de quem quebra um graveto. Era uma noite fria, mas não havia vento que pudesse penetrar no calor que emanavam. Seus rostos se aproximaram, os lábios se tocando em um beijo suave, e ele a puxou contra si. Era quase como se pudessem fundir suas curvas, tão perfeitos eram um para o outro. Preenchiam-se de uma forma que, até aquele segundo, nem sabiam que precisavam ser preenchidos. Completavam-se. Sentiam a cumplicidade fluir enquanto entrelaçavam as mãos ao som de “here, there and everywhere”. Era sublime, como se tudo que viveram antes tivesse sido mera banalidade. Era certo como nada antes fora. Sentiam seus corações pulsando como se fossem explodir. Quando se olharam mais uma vez, na penumbra de luzes fracas e cheiro adocicado de flores, encontraram um no outro a certeza do amor que arranca o fôlego e que nem todos têm a chance de viver. Ele a beijou com imensa cautela, com receio de que ela saísse correndo... Mas ela jamais o faria. Estava tão certa de que aquele era o homem de sua vida quanto ele de que ela era seu destino. E, então, eram apenas três. Ele, ela e a batida ritmada da música.
“O amor é o remédio faixa preta que a vida te empresta sem prescrição ou exigência de receita, mas que tem tantos efeitos colaterais que acaba por te colocar no hospício de sua própria mente”, ela costumava dizer. Mas aquele amor parecia diferente. Parecia carregar a promessa de paz como efeito colateral. Ela queria paz. Ela o queria. “Como fazer se, de repente, me vejo encantada e estranhamente apaixonada por cada mínimo detalhe seu? O que fazer quando o amor chega assim, sem pedir licença, derrubando defesas e passados? Quando o amor diz: ‘esquece, tá na hora de começar de novo’ e escolhe por você, não há mais como ficar inerte. E aí não importa se você está aí e eu aqui. O encanto é maior do que isso”, ela balbuciou. “Eu aqui e você aí?”, ele respondeu com uma risada silenciosa, “isso não existe... Agora somos apenas nós”. Ela sorriu seu sorriso mais verdadeiro. Era ele, enfim, acariciando seus cabelos com a ternura suave do amor.

No quarto do hospital, branco, limpo e tão impessoal que era mais um golpe no estômago, a mãe da moça a olhava com tamanho afeto que poderia jurar que existia um resquício de sorriso em seus lábios. Era a imensa saudade provocando peças, é claro, mas era acalentador imaginar que, mesmo naquela situação, sua filha ainda era capaz de sorrir. Era uma noite fria e a mãe acariciava os cabelos da filha pela última vez, com a ternura suave do amor, quando o médico entrou. Os papéis já estavam assinados e restava a certeza de que nada mais poderia ser feito. Havia música ali, naquele pequeno quarto solitário. “Eu queria que ela ouvisse suas canções preferidas uma última vez”, explicou a mãe. “Take me to church”, “million years ago” e “here, there and everywhere”, além de outras tantas melodias, invadiam o espaço através de um pequeno aparelho. Músicas tristes, mas que abafavam o bipe incessante dos aparelhos de suporte à vida. O médico sorriu, compadecendo-se da tristeza do momento. Esperou que a mãe chorasse sobre o corpo inerte de sua filha e confirmasse que, enfim, estava pronta para o adeus. Ela acenou com a cabeça ao expulsar da garganta um soluço de dor.
Enquanto a última música tocava e as telas e máquinas ficavam uma a uma escuras e silenciosas, duas coisas aconteciam em algum plano diferente do mundo. A moça já não estava mais na festa; estava agora sentada em um confortável sofá, anos depois, derramando uma lágrima e dizendo “sim” ao pedido daquele que era o homem da sua vida. Ele, também naquele exato instante, andava pelas ruas da cidade - uma mão no bolso e a outra segurando um copo de café para espantar o frio da noite - imaginando, com a fé inabalável daqueles que ainda acreditam no amor, em qual esquina encontraria a mulher com quem fora destinado a viver.

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