domingo, 11 de dezembro de 2016

Ela é do jeito que sua mãe lhe ensinou a ser.

Ela era só mais uma garota, mas isso não existe, não é? Ninguém é apenas mais uma garota. O sorriso é o disfarce que o mundo exige, mas por trás dele sempre há uma história de vida. E por trás do brilho nos olhos, conquistas e desastres. Ela era apenas uma garota que, com tombos e desmoronamentos pessoais, aprendeu a ser mulher. Sua história é como um passeio de montanha-russa que termina com alguém alçando a garota para uma viagem de balão que não para de subir até atingir as nuvens. Nem por isso é fácil. Tem todas as subidas e descidas, tem ventania, tem rasgo no balão. Mas, eventualmente, as nuvens aparecem.
É importante ressaltar que a garota não comprou ingresso para a montanha-russa. Não pediu para estar lá. Foi jogada em uma jornada absurda e assustadora por um pai que gostava mais da filha da madrasta, que não era sua, do que da sua própria menina. Um pai que não se orgulhava de sua trajetória e que conseguiu o que poucos pais conseguem: que o melhor para ela fosse ficar longe dele. Foi jogada lá por namorados que foram apoio em determinados momentos, mas também tristeza em inúmeros outros. 
A vida não tem lógica mesmo e nunca pretendeu ter. A mãe da garota, seu ponto de segurança, faleceu depois de uma doença grave. O pai não fazia por merecer a filha que tinha. Um namorado desmontou seu coração como se fosse peça eletrônica que permite conserto posterior. Não permite. A superação ajuda, mas ficam emendas. Tempos depois, outro cara tostou outra metade do amor que ela tinha no peito. Sufocou, magoou, solidificou um mal estar que ela, garota linda e cheia de vida que era, não precisava sentir.
Se esta fosse uma crônica normal, acabaria mais ou menos com um parágrafo triste como este. Mas não. Esta não é a crônica de apenas mais uma garota, mas sim de uma que soube crescer com as dificuldades, abraçar sua dor e aprender com ela, afastar aquilo que machucava e virar o jogo. Esta é a crônica de uma garota que honra cada letra da palavra resiliência. Não é fácil deixar para trás as pessoas que amamos, mas é incrivelmente mais saudável perceber que aquelas que nos amam têm muito mais valor. Que o que importa é ter ao seu lado quem se orgulha de você e te ajuda a crescer, sem jamais te sugar ou puxar para baixo. O fundo do mar é lindo, mas ficar por lá é morte certa. A mãe dessa garota lhe mostrou como seguir em frente. Como batalhar e persistir. A mãe dessa garota lhe botava no colo, com a visão perdida para sempre, mas com a felicidade e a doçura resistindo com bravura. A mãe dessa garota lhe ensinou a ser tudo que ela é hoje.
Há algo muito interessante e estranho sobre decepções: elas são mesmo horríveis e possuem um amargor único. Causam ânsias, vertigens, vontade de vomitar o resto de vida que deixam. Mas, por outro lado, cada uma te faz sentir menos efeitos colaterais na próxima. Não é questão de se acostumar, mas de fortalecer seu coração e aquilo que lhe faz bem. Quando o primeiro namoro terminou, ela lembrou que, se conseguiu superar a morte da mãe, superá-lo seria a brincadeira de criança que seu pai não lhe ensinou. Quando o segundo namoro terminou, ela já estava mais forte. A vida faz essas coisas: entorta-nos até o limite, até o ponto de quebra, testando até onde vai nossa garra e capacidade de voltar. Ela reatou com o namorado, acreditando que tudo seria diferente. Quem nunca fez isso? Notícia urgente: dificilmente algo será diferente. Sua cura não vem do que te partiu em trilhões de pedaços, mas de você. Ela só precisou dessa segunda chance e alguns meses para entender isso. Para realmente assimilar que o que a salvaria seria seu amor próprio.
Não adianta permanecer como está se dói. Não adianta voltar para aquilo que só soube te dividir e estraçalhar. É preciso somar e saber enxergar o resultado positivo. É preciso procurar sua paz, onde quer que ela esteja. É preciso leveza, amor e um toque de felicidade. Não solidão, mas as pessoas certas. É preciso aceitar que muitas famílias não são feitas de pai e mãe, mas de amigos incríveis e uma tia ou outra que te acolhe como se mãe fosse.
Você pode pensar que, depois de tanto sofrimento, o coração dessa garota ficou em frangalhos. Mas eu te digo que não. Seu coração foi reconstruído com cuidado por todos aqueles que a amam e, principalmente, pelo amor que ela mesma soube se dar. Porque, sim, depois de tanto tempo, ela teve que reaprender o amor, a confiança, a autoaceitação. Você pode não acreditar em mim, mas eu te digo que hoje ela se sente completa com o que tem; pessoas, trabalho, vida, energias positivas e, acima de tudo, consigo. Não há ninguém, afinal, que possa lhe dar mais do que ela mesma. Hoje o sorriso dessa garota não é cenográfico. É mais real do que eu e você. E continua lindo. Porque ela não é só mais uma garota. Ela é a garota que teve garra para saltar da montanha-russa em direção ao balão. Ela é a garota que sobreviveu à tempestade e saiu dela encharcada, mas sabendo sorrir e com força e coragem para correr atrás dos seus sonhos... Do jeitinho que sua mãe lhe ensinou desde pequena. 

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