domingo, 22 de janeiro de 2017

Dublê.

Quem é você e o que quer de mim? É você o tempo, maltratando e trazendo consigo sempre muito mais do que rugas? É você a insônia, com seus pensamentos ridículos e flutuantes que nunca param de rodar? É você uma pessoa, entre tantas outras, magoando com a maestria que só o ser humano tem? É você a depressão, infligindo seus males dolorosos e doentios? Não sei quem é você. Não sei nem mesmo quem sou. Mas sinto a sensação ominosa da sua presença. Esse peso da indiferença, da grosseria disfarçada de sinceridade, da tristeza que não cessa, mesmo quando cede espaço para um sorriso.
Não sei quem sou, mas sei que hoje não passo de um fantasma do que fui um dia. A mulher triste no espelho que não reflete a alegria da garota que já existiu dentro de mim em tempos remotos. Alguém que machuca sem querer e é machucada de propósito. Um saco de pancadas surrado até por quem diz carregar amor. Talvez seja compreensível. Quem sou eu para dizer? Como posso entender algo quando me encontro tão perdida em desilusões e desencontros, muitos deles causados por minha única e exclusiva culpa? Não, não sou inocente ou santa. Erro como qualquer pessoa e muitos desses erros pesarão como fardos eternamente. Mas é a indecisão que me mata. Deitar na cama à noite e não parar jamais de ponderar opções. Não saber optar por um destino, escolher uma jornada, definir um fim ou um começo.  
Não sei quem sou, mas sei que caminho em silêncio. Por respeito, calo-me e espero que formem-se os calos que me enrijecerão mais um pouco. Calo-me para criar calos. Resistência. Dureza. E torço para não perder a doçura enquanto torções me dilaceram por todos os lados. Torço por menos torções. Aceito desaforos que não deveria aceitar. Ignoro palavras rudes que antes eu retrucaria. Não sei se isso é amadurecimento ou se apenas parei de me importar. Não quero que seja a segunda opção. Quando deixamos de nos importar com o que dizem pessoas que são, de alguma forma, importantes, é um sinal de que a carapaça protetora ficou rígida demais. Aquilo que deveria afastar apenas os monstros, afasta também quem deveria trazer amor. Os calos passaram do ponto. As torções machucaram mais do que é suportável. 
Eu não passo de uma casca. Um fantasma. Presença que não traz calor, que congela vidas e estraga almoços felizes e regados à cerveja. Não sei se ainda há alguém que me enxergue. Como poderiam? Às vezes parece que estou assistindo aos desenvolvimentos ao meu redor através de uma tela sem interação. Mas talvez assim fosse mais seguro. Não, eu sou capaz de interagir. Apenas, com frequência, opto por ser só audiência até mesmo do que me diz respeito. Eu, telespectadora de mim. Escolho o sábio silêncio que o tempo e suas rugas me ensinaram. O mesmo silêncio que de muitos atritos piores já me afastou, mas que também me impede de chacoalhar a vida. 
Tenho um caminho tão cheio de detritos que parece que há, em algum lugar invisível aos olhos, uma máquina responsável por atirá-los. Alguns caem duros, com uma sonoridade seca, bem em frente aos meus pés. Outros acertam no estômago ou no coração. Os piores atingem direto no rosto, como bofetadas da vida, deixando respingos de sangue para trás e cicatrizes pela frente. Com resiliência, vou erguendo todas as pedras e seguindo em frente da melhor maneira possível. Nem sempre é a maneira correta, mas é sempre a minha melhor tentativa. Muitas vezes uma decisão traz efeitos colaterais que são piores do que eu gostaria. Geralmente vêm de decisões "impossíveis", dessas que seriam ruins de qualquer forma. E eu vou andando, passo após passo. Desviando do que posso, chutando pedras menores e me esforçando para transpor as pesadas e altas. Por melhor que eu faça, parece que alguém sempre sai machucado. Mesmo que esse alguém, muitas e muitas vezes, seja eu mesma.
Por tudo que já ouvi, li e estudei, a vida tem barreiras e dificuldades, mas não precisa ser tão amarga assim. Deveria haver menos dor, mais aprendizado e uma infinidade de pessoas e momentos que compensam o mal. Não é o que tenho atestado. No máximo, encontrei paradeiros estranhos e pessoas amáveis, mas que não permaneceram por muito tempo. Sinto todas escorrendo por meus dedos através de um erro ou outro.
Quem é você que tanto exige de mim? O tempo? A insônia? Uma pessoa que se transforma em tantas outras? A depressão? É você a vida? É assim que te chamam? É você uma mistura de tudo aquilo que nos condena a sermos seres infelizes e amargurados? Quem é você? Perdão pela insistência. Preciso saber para que possa mandá-lo embora ou descobrir como aceitar sua presença. Não me deixe doente. Não afaste tudo e todos de mim. Por favor... Apenas me permita viver em paz. Não é tão difícil assim. Não estou pedindo por sucesso, dinheiro ou ascensão. Só paz. Física e espiritual, mas, mesmo assim, nem de longe impossível.
Quem é você e o quer de mim? É o tempo? A insônia? Uma pessoa? A depressão? A vida? Ou, talvez, a resposta seja mais simples e assustadora do qualquer dessas hipóteses. Talvez você seja tão somente um pedaço arrancado de mim. Um pedaço que hoje vive aí fora, atormentando o que sobrou e exigindo o que pensa que ainda é seu por direito. Talvez você seja apenas uma extensão do que sou. Um clone infeliz que arranca, corta e faz sangrar. O lado mais triste, severo e solitário; aquele que guardei em um recipiente hermético e tento afastar enquanto me esforço para continuar andando. Aguardando uma brecha. Pacientemente, esperando por uma chance. Um dublê de corpo e alma, esperando para voltar para o que já não lhe pertence mais.

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