quinta-feira, 18 de maio de 2017

Seis mensagens, uma resposta.

A primeira mensagem chega enquanto ela ainda está desperta. Apática, mas atenta. “Eu te amo”, diz a caixinha de texto, acompanhada por um coraçãozinho vermelho. Três palavras intensas e verdadeiras. Ela sabia. Mais do que isso, acreditava e correspondia. Mas nem sempre o amor é suficiente para salvar uma vida. Ela não responde. Continua inerte na cama, em posição fetal, o braço pendendo por cima de um travesseiro, algumas lágrimas embaçando sua visão. Nada explosivo, apenas gotas gordas e solitárias escorrendo por regiões esparsas da pele já um tanto quanto marmorizada do rosto. Sua feição está tão neutra quanto estaria se ela estivesse apenas cansada de um dia cheio ou do tráfego pesado da cidade. Mas ela está cansada de muito mais do que isso. Não há escapatória do que está pregado dentro da mente.
Ao longe, Stone Sour embala o início do fim e o som da chuva surrando o vidro da janela garante a entonação correta ao momento. A vida se encarregou de levá-la até aquele ponto, afinal. A música está alta, mas não o bastante para abafar seus pensamentos. Está tudo bem, ela diz a si mesma. Não sente dor, agonia ou medo. Não mais. Até que enfim, tudo está tranquilo como deveria ter sido desde sempre. Uma brisa de gratidão e certeza começa a niná-la aos poucos. A segunda mensagem salta na tela do celular: “Tô com saudade”. Ela também está, mas não há mais nada que possa fazer a esta altura. Não responde.
Puxa a gola do moletom vermelho surrado dele mais para perto do rosto e cobre as mãos com as mangas muito compridas para seus braços curtos. A caneca de café já está vazia há muito tempo e ela imagina como seria bom tomar só mais um gole quentinho e acalentador. Mas não há mais tempo para isso também. O torpor começa a aparecer vagarosamente, engatinhando com suas pequenas mãozinhas formigantes. “Cem anos de solidão” repousa em um canto da cama. Ironicamente, ela sente que sua solidão já era muito mais anciã.
“Bastante saudade”, diz a terceira mensagem. A cada vibração do celular ela o ergue, lê e deixa que volte a ficar com a tela preta sozinho. Gostaria de ter feito muitas outras coisas durante a vida, mas já não se preocupa com isso. Queria ter viajado para muitos lugares do exterior, sentado em uma cadeirinha externa de um pequeno café em Paris e sido ridicularizada por uma pronúncia completamente errônea do francês, conhecido a beleza dos campos de tulipas da Holanda, visitado museus de arte pelo mundo. Queria ter deitado na grama à noite mais vezes para ficar observando o céu estrelado em silêncio. Queria ter aprendido a dançar, ter aberto os braços mais vezes na chuva, abraçado muito mais vezes as poucas pessoas que amava. Aliás, queria ter amado um pouco mais e se preservado um pouco menos... De quê adiantaria toda aquela autoproteção, afinal de contas? Deveria ter terminado de escrever os três livros que idealizou e deixou pela metade; ao menos deixaria algum legado além das sete cartas que descansavam em cima de um dos travesseiros, empilhadas e amarradas por uma estreita fita de cetim azul piscina.
A quarta mensagem adotou um tom mais preocupado. “Tá tudo bem por aí?”. Ela quis responder que sim para tranquilizá-lo; como não foi capaz de mentir, optou pelo silêncio. Ou não seria mentira? Estava tudo bem, de certa forma. Ela tentou. Muito. Ninguém que não tivesse passado por aquilo seria capaz de compreender a magnitude do esforço que fizera para continuar levantando todos os dias e encarando uma vida sem vontade. Mas toda vez que olhava para dentro de si, via mais cicatrizes e razões para interromper o percurso. Via mentira, desilusão, peças sem conserto, aflição excruciante por todos os lados. Receio, cautela excessiva, abandono.
Ela permanece deitada, o celular frouxo na mão depois da quinta mensagem, que dizia que ele estava preocupado. Imaginava mesmo que sim, visto que a última conversa que tiveram adotara um tom disfarçado e sutil de despedida. O olhar estava fixo na parede. A tinta deveria ser branca, não gelo. Queria ter consertado isso antes. Fecha os olhos com força e tenta pensar com clareza, mas já não consegue mais. Há um zumbido no ouvido, as mãos estão trêmulas e ela sente um pouco de frio, mas não se importa. Alguns espasmos provocam movimentos involuntários nos braços e costelas e as pernas chutam o ar vez ou outra, mas isso também não incomoda.
O gosto em sua boca é pastoso e estranho, mas tudo o que comera durante o dia parecera excessivamente pegajoso mesmo. Seus olhos se enchem de lágrimas novamente e ela se questiona se deveria ligar para alguém uma última vez ou, ao menos, responder as mensagens do cara que ama. Mas decide que não. A voz soaria embargada e a última coisa que ela precisa é de compaixão, condescendência ou qualquer outro tipo de sentimento alheio. Correria ainda o risco da indiferença, o que seria mil vezes pior. Não queria isso de jeito nenhum.
Os minutos se arrastam lentamente, o escuro do quarto se tornando cada vez mais acolhedor e companheiro. Ela respira fundo muitas vezes, descansando o corpo dolorido e retesado e tentando afastar os pensamentos sombrios. Já não precisa mais deles agora que tudo está quase resolvido. Força-se a tentar lembrar dos instantes belos, ainda que fugazes. Do amor que recebeu, mesmo quando pensou que ninguém fosse capaz de amá-la. Do carinho inesgotável, dos cafés saborosos, de dormir aninhada perto do corpo dele. Lembra-se dos momentos de pequenas alegrias com diferentes pessoas. Foram tão poucos nos últimos anos. Lembra-se do colo da mãe. E chora, é claro.
Quando a sexta mensagem chega – “Boa noite, coisa linda” – a exaustão já tomou conta do seu corpo e a tristeza vai e volta em enormes marolas. O pulso lateja e os olhos estão pesados, embora a vontade de dormir se esquive como quem planejou uma viagem, mas ficou com preguiça de fazer as malas na última hora. A respiração está mais difícil e uma dor começa a surgir em regiões aleatórias do corpo. Sua mente está borrada. Ela pensa em coisas difusas. No abraço apertado do melhor amigo e no selinho que ele lhe deu um dia só para provar um ponto. Pensa em porcelana se espatifando nos paralelepípedos da rua vazia. Em noites de conversas e risadas sem nada para fazer. Em folhas voando livres pelos ares. Nos cabelos compridos e no sorriso lindo do homem que soube se tornar o mundo dela em pouco tempo. Em trechos de Bukowski e Austen. Em taças de vinho solitárias ao som de músicas melancólicas. Em copos de cerveja ou cachaça ao som do violão dos amigos. Em olhos nos olhos. Em temporal que chacoalha a porta de vidro da sacada e apaga as luzes da casa. Sua cabeça nunca girou tanto por tanto tempo, voando pelos cenários mais dispersos, incontroláveis e incoerentes das lembranças.
Já flutuando mais do que ainda presa na cela que criou para si mesma, pega o celular com as mãos tremelicantes pela última vez. É difícil digitar, as letras parecem menores do que nunca, a tela iluminada parece um raio de luz machucando seus olhos e tudo está desfocado. “Perdão por não ter sido capaz de continuar. Por não ter sido mais forte. Por não ter me prendido às coisas boas mais do que às que calaram todos os meus sonhos, vontades e alegrias. Eu quis muito estar aqui por você para sempre. Eu quis muito estar aqui por nós. Não sinta raiva de mim. Tente lembrar do amor e do quanto você me fez feliz. Você foi meu pontinho de felicidade, segurança e amor em meio a um mundo de pontos gigantescos de dor. Você me devolveu as lágrimas, o sorriso, o bem querer. Eu apenas não fui capaz de me agarrar à essa corda antes que a outra arrebentasse de vez. Você foi o presente que a vida me deu, embora tarde demais. Guarde a parte bonita da minha memória, se puder. Se não puder, se for muito difícil... Esqueça. Tudo vai passar. Fique bem. Seja feliz. Seja você. O mundo precisa dos poucos e raros corações de ouro que andam por aí. Nunca desista de você mesmo. Sei que não se pede ou agradece amor, mas obrigada por ter escolhido e aceitado me amar de forma tão intensa. Obrigada por ter sido meu brilho em um breu que já não abria mais rasgo algum. Eu te amo”.
Era tudo isso que ela queria ter escrito na última mensagem que mandaria à ele. Uma das cartas lhe pertencia, mas precisava dizer adeus, ao menos para ele, de um jeito mais íntimo, mais carinhoso, mais... Vivo. Precisava que ele soubesse o quanto ela o amava. O amor dele conseguiu atrasar o inevitável, como o menino que fica com o dedo no buraquinho da barragem da represa pelo máximo de tempo que seu corpo frágil permite. Era isso o que queria lhe dizer, mas não teve tempo. Calculou mal, talvez. Provavelmente. Com tudo escapando por seus poros, com tudo enegrecendo sob as pálpebras quase cerradas, só conseguiu digitar um trôpego “eu te am” e pressionar a flechinha de envio. A última resposta que ela lhe deu continha apenas três palavras. A mais importante, aquela que expressava seu sentimento, incompleta. Exatamente como ela, por ironia da vida. Mas ele entenderia. Assim como a primeira mensagem dele fora a mais importante das seis, a última dela teria o mesmo valor. Mesmo faltando uma letra, aquelas três palavras eram o que de mais valioso ela tinha a oferecer. Eram o resumo do seu coração e entregava-o, como último ato, a ele.

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