terça-feira, 27 de junho de 2017

Impulsividade.

Eu quero vê-lo. Preciso vê-lo, na verdade, porque a saudade está me amassando e enrugando por dentro como se eu fosse um papel de seda que pode virar uma bolinha diminuta e franzina nas mãos gigantes da distância. Compro a passagem. Simples assim. Depois fico assustada, pensando, remoendo e condenando minha própria incoerência. Não sou impulsiva. Ao menos, não costumo ser. Sou aquele tipo de pessoa que analisa tanto e tão friamente cada minúsculo passo que, geralmente, acaba por analisar mais do que deveria. Não tomo decisões rapidamente porque elas podem se mostrar precipitadas mais tarde. Geralmente se mostram mesmo. Eu penso. Horas, dias, meses. Penso até tudo ter virado uma massa complexa e confusa que já não entendo mais e onde se perdem os fios que iniciaram o pensamento. De tanto refletir, acabo nunca agindo pelo impulso de uma saudade ou da vontade beligerante de um abraço.
Então por que diabos eu simplesmente decidi, em questão de minutos, que seria uma boa ideia comprar uma passagem, entrar em um ônibus e encarar seis horas de uma viagem que deixará minha lombar geriátrica ainda mais dolorida só para vê-lo, sem sequer saber se a saudade é recíproca? De onde veio a urgência de tocar aquele rosto, de ver aquele sorriso, de ficar quietinha sentindo um calor no peito – que, algo me diz, é o que costumam chamar de felicidade, embora eu não tenha certeza – e uma completude na vida? É bem verdade que minhas mãos formigam de vontade de se enterrar naqueles cabelos. Também é verdade que a saudade me sufoca como um par de garras grosseiras e robóticas envolvendo meu pescoço. É verdade ainda que sinto falta de sorrir e ele me arranca sorrisos com uma facilidade irretocável.
É possível, portanto, que a razão do meu impulso tenha sido inteiramente egoísta. Fico apavorada, visto que também nunca fui egoísta. Eu penso nos outros. Penso até em quem não merece pensamento. Atribuo culpa a mim quando sequer meti um dedinho na situação. Ele não disse que estava com saudade... Ou disse? E se ele não sentir vontade de me ver? Por certo será o cara educado e amável que sempre foi, mas e se lá no fundo estiver sentindo um incômodo que não se cala? Seremos dois opostos, então. Eu, inflando algo que se aproxima, desconfio, da felicidade; ele, miserável. Eu, querendo nunca mais me soltar daquele abraço; ele, pensando no horário do ônibus que me despacha. Eu, querendo nunca mais me perder; ele, querendo estar perdido ou, ainda pior, ser perdido por mim.
Devo cancelar a passagem. Deixá-la em branco para outra ocasião. É isso. Por que continuo arrumando a pequena mala enquanto decido não embarcar? É como se minhas mãos tivessem vida própria, tacando ali dentro pijamas confortáveis, escova de dentes e chinelos. Depois de piscar violentamente, percebo que está tudo pronto. Blusas dobradas com cuidado – que estarão misteriosamente amassadas na hora do uso, de qualquer forma –, uma calça jeans, o exemplar de “Admirável mundo novo” que tem uma foto como marcador de páginas, roupas íntimas e meias. Não falta nada. Até o shampoo foi parar ali sem que eu me recorde de ter ido ao banheiro e voltado ao quarto. Está tudo aonde deveria estar. Escova de cabelos. Presente! Remédio. Presente! Casaco, suéter, perfume. Presente! Presente! Presente! Mas eu não vou, então por que está tudo ali? Na próxima piscada a mala está fechada. Não sei o que está acontecendo. Quero gritar que não vou, que o que quer que esteja acontecendo é um engano e precisa parar. Vai dar trabalho recolocar tudo nas respectivas estantes do guarda-roupa mais tarde. Voltem para suas gavetas! Chega! Parem, mini duendes trabalhadores invisíveis que estão organizando as coisas da forma como eu organizaria. Decidi não ir, vocês não veem? Larguem tudo, deixem-me em paz. 
Por que estou sentada no banco do carona do carro agora, sendo levada até a rodoviária? Talvez para cancelar a passagem, claro. Mas por que a mala está no banco traseiro, então? Não. Está tudo errado. Ele não quer me ver, não posso ir. Alguém faça isso parar. Socorro! O mundo está girando e eu estou entregando a passagem ao motorista do ônibus. Sentada na poltrona 25. Ajeitando a bolsa sob os pés, esmagada pelo ínfimo espaço. Sinto exaustão, o corpo minguado como se uma força magnética tivesse me arrastado até ali e minha luta contra ela tivesse sido intensa e inútil. Quero ir, mas não posso. Não quero, mas já estou indo. Quero sim.
Estou telefonando, então. Desculpe, é tarde demais. Não sei o que houve, a viagem correu como se estivesse participando de uma maratona. Cheguei. Perdão. Estou aqui. Sinto muito. Enquanto aguardo, uma sensação aguda de arrependimento toma conta de mim, corroendo tudo como ácido ingerido e virando uma massa pesada no estômago. Dói. Sinto antecipadamente a rejeição, o palpitante “que bom que você veio” apático de quem pouco se importa. Me assusto e olho ao redor, desnorteada, quando levo um tabefe na cara. Depois de alguns segundos, percebo que foi apenas uma mistura de rajada de vento com culpa por forçá-lo a aturar minha presença. Não é como se eu estivesse apontando uma arma para sua linda cabeça, mas bem que poderia. Ele deu todos os sinais de que não queria que eu viesse, não deu? O que foi que eu fiz? Ignorei tudo como se ignora aquela dor de cabeça chata? Idiota. Estúpida. Sinto que sou como uma febre que não vai embora e, ao mesmo tempo, sinto-me febril. Não sei o que fazer. Não sei o que fiz e por que fiz. A saudade não pode anular o resto. A vontade não pode nublar o pensamento racional. Imbecil.
O carro dele desponta e rasga a escuridão e eu quero largar a mala e correr para longe dali e fugir e berrar e não sentir mais nada. Minhas bochechas queimam de raiva e tenho a certeza de estar mais vermelha do que o tênis do garoto que acabou de passar ao meu lado. Mais ainda, imagino minha expressão de horror pela ciência completa do sacrifício que estou incutindo na vida dele. Agonia, agonia, agonia. A ansiedade assume o volante e sinto que vou desmaiar. É como se uma massiva onda negra tivesse me engolido. É tarde demais para voltar atrás. Perdão. Meu peito angustiado quer implodir e eu quero mesmo que imploda logo, antes que eu precise ver a feição complacente e desanimada dele.
Ele estaciona o carro bem na minha frente. Vejo seus cabelos sendo atingidos pelo vento gelado quando desce do carro. Vejo seu rosto enquanto caminha até mim e fico petrificada de pavor. Mas algo está errado. Ele não parece sisudo ou indiferente. Está sorrindo. Não um sorriso mais ou menos, condescendente, mas aquele sorriso aberto e gostoso que faz meus órgãos derreterem e virarem não mais do que poças pobres e pegajosas. Não sei o que me sustenta em pé nessas horas. De fato não sei. Ele está sorrindo desse jeito. Quando para em minha frente, contenho o desejo de também abrir um sorriso grande demais. Ainda sou uma amálgama infinita de emoções e não sei qual escapará por entre os dentes, afinal. Mas acabo cedendo simplesmente porque não resisto e a próxima coisa que sei é que estamos abraçados. Acho que fui eu que joguei os braços por cima dele e o colei em mim, mas não tenho certeza. Tudo o que sei é que ficar tão perto e tão longe é impossível, para ser franca. E, então, um beijo. Longo e inebriante, preenchendo com calmaria cada canto escondido entre minhas poças derretidas e expulsando todo o medo, o horror, a angústia, a agonia, a ansiedade. Tudo vai embora e não sobra nada além do afeto. O mundo se oblitera por completo. Entendo, nesse momento, minha impulsividade desconcertante: não aguento ficar distante dele por muito tempo, embora seja difícil de admitir. A combinação de bem querer e saudade é fatal e atinge em cheio o instinto impulsivo que eu pensava não ter. O beijo é longo o suficiente para que eu deixe de me importar com qualquer outra coisa, para que esqueça das aflições e até mesmo de respirar. Eu me desmancho ali e a sensação de estar entregue e flutuando é estupenda. Tudo ao redor não passa de um borrão indecifrável, tudo o que senti até minutos antes evapora. Alguém poderia muito bem roubar minha mala, largada na calçada da rodoviária, e eu não conseguiria me importar.
Ele entrelaça seus dedos nos meus enquanto me olha, ainda sorridente, e eu o beijo mais uma vez. Beijo-o para que meu beijo expresse o que estou sentindo porque sou incapaz de formular palavras e meu corpo está trêmulo demais. Beijo-o para que ele saiba que o amo, que tudo sem ele é triste, sombrio e descolorido. Beijo-o para que ele entenda os motivos da minha impulsividade e perceba que há fogos de artifício estourando dentro de mim. Todos os sons, toques e cores se entranham em minhas células. Não consigo verbalizar nada disso. Então o beijo para que ele compreenda que todos os meus sentimentos são absurdos e intensos demais para que caibam em palavras. Enormes demais para serem aprisionados. Foi por isso que eu comprei uma passagem, entrei em um ônibus e fiz uma viagem de seis horas que deixou minha lombar destruída e dormente. Por essa injeção de amor. Por esse casulo protegido de afeto, carinho e cuidado que é o abraço dele. É simples assim. É amor.

2 comentários:

Guy Fausto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guy Fausto disse...

Josiana, Que texto! Nossa como tô feliz por ter passado por aqui. Narrativa corajosa - sem medo dos clichês - e consciente: muito consciente! Gostei muito, mesmo.

 
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